O Renascimento curdo no exílio

Mehmed Uzun

Um dos símbolos da minha infância, que me persegue como uma sombra, é a minha avó. Muito alta, com os traços do rosto muito marcados como numa gravura antiga, roupas que eram testemunho de uma época já passada, olhos como fontes de calor e de entusiasmo, e uma voz suave como o veludo, converteu-se numa das poucas pessoas que marcaram a minha vida. A minha mãe era a única rapariga entre os seus sete filhos. O calor e o afecto que no meu país caracterizam as relações entre mães e filhos, existia também entre elas: um amor e uma ternura intensos, uma protecção e uma atenção permanentes, uma felicidade sem fim… A minha avó vivia na mesma cidade que nós, embora noutro bairro. No entanto, vinha ver-nos com frequência - tínhamos um grande jardim com pessegueiros e romãzeiras - e sempre que podia ficava connosco vários dias ou mesmo semanas. Trazia muitos presentes para a filha e para mim, que era o seu primeiro neto. Aquelas suas visitas alteravam a nossa rotina e tinham a cor das flores romãzeiras: preparavam-se os melhores pratos, vestíamos as melhores roupas, de cores mais vivas, fazíamos visitas e recebíamos convidados. O rosto da minha mãe iluminava-se com a cor de um pêssego maduro.

A mim, encantavam-me as curtas noites daqueles dias inesquecíveis - as noites iluminadas pelas suas descrições épicas e as suas histórias. O meu quarto, pequeno, tinha uma grande janela, embora não houvesse maneira de o conseguir iluminar bem à noite com as nossas lamparinas; mas as suas histórias enchiam-no de uma claridade que me encandeava. Desejava que aquelas noites se prolongassem até ao infinito e não parava de dizer à minha avó que não queria dormir. Contudo, acabava sempre por adormecer; as noites acabavam sempre por dar lugar a um novo amanhecer. Assim, não tinha outro remédio senão aguardar impacientemente a noite seguinte. E com a minha sabedoria infantil, compreendia que algumas regras eram mais fortes do que eu, que eram independentes dos meus anseios e dos meus desejos. Quando estava connosco, todas as noites antes de eu adormecer a minha avó sentava-se na minha cama e acariciava-me os cabelos com as suas longas mãos marcadas por veias. Eu aproveitava-me imediatamente da situação: ia surgir uma nova história apaixonante. Tirava a almofada e, a sorrir silenciosamente, apoiava a cabeça nos seus joelhos. Após esta preparação tranquila e harmoniosa, seguiam-se as palavras lendárias, procedentes do mais remoto dos tempos. Ela, palavra após palavra, enfiando-as como pérolas de um colar - empregava o dialecto zaza do curdo antigo, que se assemelha muito ao zoroástrico - conduzia-me a um mundo diferente e luminoso. As palavras misteriosas e cheias de imagens recriavam o Tigre e o Eufrates e eu abandonava-me com prazer às suas águas frias mas reconfortantes. E, apaziguado pelas ondas doces e límpidas, entrava nos túneis do sono…

Walter Benjamin escreveu: "Quem consegue encontrar hoje pessoas capazes de contar histórias que valham a pena? Acaso os moribundos conseguem formular palavras suficientemente sólidas para as transmitirem como um anel, de geração em geração? A quem pode hoje ser útil um provérbio?" Como a nossa família não seguia com atenção os acontecimentos sociais e históricos, não estávamos conscientes da validade de semelhantes afirmações. Mas eu tinha alguém que iluminava o meu espírito e o meu coração de criança com histórias extraordinárias.

Aquelas noites breves continuam a acompanhar-me. Inevitavelmente, a maioria daquelas palavras que brilhavam na escuridão não conseguiram resistir às violentas vagas do tempo e desapareceram. No entanto, uma expressão inesquecível sobreviveu como elemento do meu destino: welatê xerîbiyê. A minha avó, que para mim se transformava em mais um personagem mágico das suas epopeias, dos seus contos e das suas descrições, repetia continuamente estas palavras misteriosas: welatê xerîbiyêwelatê xerîbiyêwelatê xerîbiyê

Estas palavras eram realmente misteriosas: referiam-se a países nunca vistos, às montanhas do Cáucaso, aos desertos do Iémen, às ilhas gregas, ao Magrebe… Todos estes lugares eram welatê xerîbiyê, lugares misteriosos onde tinham ido os curdos, mas de onde nunca tinham regressado: países que permaneciam estranhos e a distâncias intransponíveis. Os seus nomes passaram a fazer parte integrante da literatura curda.

Naturalmente naquela época eu ignorava que aqueles países, aqueles lugares, aqueles nomes se encontravam vinculados à triste realidade dos curdos. Para mim não eram mais do que mágicos países de gigantes, de heróis lendários e de guerras formidáveis. Como poderia saber que estas palavras cálidas e magníficas descreviam a dor, a tragédia, o desejo insuportável? Precisava de tempo para integrar e compreender, precisava de abandonar o mundo inocente da minha infância e assimilar os factos sociais e culturais; tomar consciência da minha identidade nacional e da minha personalidade; estudar a minha própria história, cheia de vazios e confrontada com o esquecimento. Precisava de tempo…, das suas lições e da sua orientação.

Anos depois, enquanto passava a minha juventude encarcerado, descobri que as montanhas do Cáucaso, os desertos do Iémen, as ilhas gregas e os países do Magrebe eram lugares de exílio para os curdos. Tinham sido para lá enviados individualmente, famílias inteiras ou, na maioria dos casos, em massa. Os otomanos arrancaram-nos ao seu país pela força, para os deslocar para terras longínquas de que nunca tinham ouvido falar. Desde 1923, a nova República turca não cessou de enviar curdos para o exílio para enfraquecer a sua luta pela independência, para os dividir e subjugar. Em vagas sucessivas e contínuas. Separando as famílias, os clãs, as tribos. Destruindo aldeias e casarios. Na neve do inverno e no calor do verão. Sem tréguas.

Durante as noites intermináveis passadas na prisão, aprendi que o caminho para welatê xerîbiyê estava coberto de cadáveres curdos: que os seus restos atulhavam as cavernas e se amontoavam nos desfiladeiros das montanhas; que as suas lágrimas aumentavam o caudal das fontes; e que os seus confrangedores lamentos se misturavam com o grito das águias… Durante aquelas noites passadas na prisão, escutei as tragédias, os sofrimentos, os desesperos e a dor daqueles que tinham sido enviados para welatê xerîbiyê, recolhidos pelos dangbêj ("bardos") nos seus relatos. Ouvi histórias de espíritos e de corações infelizes expressas em cânticos e baladas que partiam a alma.

Mais tarde descobri o verdadeiro significado de welatê xerîbiyê: a tortura do exílio do país natal e das raizes; a condenação a viver num país estrangeiro e desconhecido; o esquecimento; o desejo infindável e a nostalgia. Estas duas palavras, que a minha avó pronunciava com os olhos brilhantes e uma voz muito doce, escondiam um sofrimento terrível.

Os caminhos que conduziam a welatê xerîbiyê abriram-se também para mim. No verão de 1977, juntei-me à longa caravana que formavam os exilados desde há duzentos anos. Numa cálida noite de Verão, na mais completa escuridão, franqueei a fronteira e dei os meus primeiros passos nas trevas de welatê xerîbiyê. Com a minha cabeça cheia de sonhos e imagens. Incerto quanto ao futuro, passei o resto desse Verão em Damasco, a capital da Síria, berço de numerosas civilizações orientais e árabes. Para além de ter sido um ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente e um lugar onde amadureceram diferentes culturas e civilizações, Damasco foi também terra de exílio para os curdos. Toda a história de welatê xerîbiyê se encontra aí sepultada. Em Damasco está o túmulo de Saladino, o chefe muçulmano de origem curda que combateu contra os cruzados e foi simultaneamente amigo e inimigo de Ricardo Coração de Leão. Mas também ali estão enterrados muitos líderes curdos, intelectuais, escritores e responsáveis políticos de primeiro plano. Os cantos de dor, de saudade, de nostalgia, que já não se podem cantar, também eles estão sepultados nos bairros humildes de Damasco. Esta citação do escritor polaco Witold Gombrowicz, que passou a maior parte da vida no exílio, pode aplicar-se aos exilados curdos de Damasco: "O exílio é um cemitério…" Os subúrbios de barracas curdas que se amontoam nas colinas à volta de Damasco assemelham-se a cemitérios e, na realidade, são um cemitério de exilados. O último emir curdo, Bedirhan Beg, desterrado primeiro para Istambul, depois para Creta e, finalmente, após uma revolta em 1844, para Damasco, repousa ali num túmulo magnífico. Ao seu lado descansa também o neto, o escritor e linguista Celadet Bedirhan, que passou toda a sua vida no exílio e que fundou e dirigiu revistas culturais de grande importância para os curdos. O poeta Kadri Can, que escreveu lamentos sobre a sua terra natal, a sua infância e a língua materna - de que se sentia cada vez mais distante -, tem um túmulo mais modesto perto do de Bedirhan. Assim como Memduh Selim - o protagonista do meu terceiro romance [1] - editor, pensador e homem ilustrado, de princípios morais inquebráveis, positivista, romântico incurável, que se exilou em 1923 e morreu no exílio em 1976. São tantos, tantos os que ali ficaram…

Durante aquele Verão em Damasco, às primeiras horas da manhã, quando não havia ninguém, subia as colinas até àquele cemitério, para contemplar os túmulos silenciosos e orar para que recuperassem a sua língua.

Ao lado do cemitério levanta-se uma mesquita que tem o nome de outro célebre exilado curdo, Mevlana Alid. Poeta e pensador, fundador da seita nakjibendi, o destino de Mevlana Alid não foi diferente do de Bedirhan. Ambos partilharam as mesmas aspirações doridas, como hoje os seus túmulos partilham o mesmo lugar. Exilado, os seus poemas conservaram vivas as recordações do seu país, o Curdistão, e da sua bonita cidade de Sûleymaniye. Enviou as suas composições para o seu país por intermédio das estrelas, da lua, do sol e dos ventos. E neste mundo perecível, neste mundo de injustiças onde, segundo Ovídio - outro célebre exilado -, "os seres humanos são os seus próprios lobos", Mevlana Halid converteu-se em amigo do sol, da lua, das estrelas e do vento. É impossível não perceber os seus íntimos desejos e a sua dor em versos como estes:

O coração derrama lágrimas de sangue. Oh vento da manhã, vem até mim, suplico-te,
e visita Sehrezor por mim!
O coração está coberto de bruma e angústia como o monte Gudrun.
Olhos, que as vossas lágrimas de separação se encaminhem para Serçinar.

Sehrezor, o monte Gudrun, Serçinar - lugares onde Mevlana Halid passou a infância - vivem agora na sua memória poética, que recusa o tempo e o espaço. Privado por estrangeiros da possibilidade de regressar ao seu país e condenado a levar uma vida alheia, teve de encontrar meios para sobreviver: preservou, assim, as cores, a vida, o sabor, o ar e o perfume do seu país; imortalizou as recordações da infância e recusou as fronteiras da criação intelectual e literária. O fardo insuportável do exílio e o sofrimento da nostalgia fizeram dele um poeta curdo imortal. Mas o preço que teve de pagar por essa imortalidade foi a transformação da sua vida num pesadelo de dor e de nostalgia, uma consciência permanente de solidão e morte.

Terá sido apenas este imortal poeta curdo do século XIX o único a pagar este preço?

Enquanto escrevo estas linhas, que de modo algum conseguem descrever as aspirações e a criação de Mevlana Halid, estou a pensar num outro poeta do exílio - Ovídio. Este poeta do Império Romano emprestou a sua grandeza ao meu modesto estudo. Li há pouco O último mundo, do escritor austríaco Christoph Ransmayr, que pertence à tradição literária da Europa Central e que é discípulo de Broch e de Musil. Esta obra, que também se poderia intitular "o outro extremo do mundo", narra a história de Ovídio, escritor libertino e mestre do amor e da arte. Conta a sua desgraça, as suas nostalgias e a sua luta pela criação. É um lamento sobre o exílio, descrito como a ferida sangrenta da humanidade. Ovídio, exilado nas margens do Mar Negro - o outro extremo do mundo - pelo imperador romano Augusto, foi condenado a um completo isolamento. O silêncio e a morte lenta completaram o castigo. Augusto, o monarca absoluto, pretendera mergulhar o poeta no esquecimento, afogar uma voz que ridicularizara todas as formas de poder e de absolutismo. Terá atingido os seus objectivos?

Hoje, 2000 anos depois de ter sido colocada a questão, a resposta continua a ser não. Ovídio, o mestre de Mevlana Halid e de todos os artistas exilados, não foi silenciado, nem esquecido. Pelo contrário, o exílio imortalizou-o. A sua voz e a sua criatividade uniram-se às vagas impetuosas do Mar Negro para chegar até nós. Conclui desta forma a sua célebre obra, Metamorfoses: "Criei uma obra capaz de resistir ao fogo, ao ferro, às iras dos deuses e à acção destruidora do tempo… Graças a ela caminharei errando acima das estrelas e viverei para sempre…, e, enquanto durar o Império Romano, as pessoas, em todos os lugares, falarão de mim."

O exílio é uma separação, uma dor. É um castigo grave, desumano. Obriga-nos a deixar para trás uma parte imensa da nossa vida. Involuntariamente, pela força. Ovídio e Mevlana Halid viveram ambos na sombra das recordações. Não viveram no presente, mas no passado, no tempo que deixaram atrás de si. Como num eco da obra de Marcel Proust, foram em busca do tempo perdido. Não se interessavam pelo que se passava, mas pelo que se tinha passado. É este o motivo porque Ovídio, Dante, Mevlana Halid, James Joyce, recriaram tão brilhantemente nas suas obras as recordações de Roma, de Florença, de Sehrezor, de Dublin, suas cidades de origem. Recriando o passado, imortalizaram o seu nome no futuro.

Penso que este estado de espírito é um destino comum: o futuro de um homem expulso para longe do seu país e das pessoas que ama encontra-se permanentemente confrontado com o seu passado. O espírito e o coração murmuram os cantos do passado. Os seus olhos buscam os rostos daqueles que deixou. Rodeado de uma imensa solidão, as visões do passado povoam-lhe as noites. Pode-se resumir este fenómeno com este provérbio: o passado tem a dimensão do universo.

Há algum tempo, quando tive a oportunidade de presidir a um colóquio sobre o exílio e os escritores no exílio, "A Literatura além fronteiras", no Centro Cultural de Estocolmo, fiz a seguinte pergunta às quatro dezenas de escritores vindos de diferentes culturas e países: Alguma vez sonharam com o país que os acolheu no decurso dos primeiros cinco anos de exílio? Nenhum o tinha feito. Todos tinham sonhado com o país que tinham deixado e com o que ali viveram.

Tenho a mesma experiência. Depois de abandonar a Síria, vim para a Europa, que hoje constitui o principal destino dos exilados. Enquanto esperava no Gabinete de Emigração do aeroporto de Estocolmo o momento de apresentar um pedido de asilo, o meu espírito e o meu coração, como duas pombas brancas, levantaram voo para o meu país: em direcção aos entes queridos que ali tinha deixado; a campa do meu avô, que não voltarei a ver; o meu velho amigo Apê Kelîl, uma testemunha da história curda recente com quem me encontrei na prisão nos anos setenta… No meu novo país evoquei com inveja as recordações de cores vivas e as experiências dolorosas da minha vida passada, os rostos que deram forma à minha personalidade - todos os elementos de um passado que me fora arrancado. Consciente de viver a minha nova existência à sombra das minhas recordações, tentei que essas sombras se tornassem visíveis. E, no decurso dos cinco primeiros anos, nunca sonhei com o país que me acolheu, nem com a minha nova vida. Os meus sonhos eram reminiscências da minha infância: da minha avó, que me contava histórias de welatê xerîbiyê; do meu avô, que me trazia caramelos de todas as cores. O resto compunha-se de pesadelos com a polícia, a prisão, a tortura, o uso da força. Mais tarde utilizei tudo isto no protagonista do meu terceiro romance, Memduh Selim, morto após cinquenta e três anos de exílio. Também ele terá tido este tipo de sonhos e de pesadelos no decurso das inumeráveis noites passadas longe do país natal.

Como dizia o poeta russo exilado Joseph Brodsky, falecido em Nova Iorque, em 1997: "Um escritor ou um intelectual no exílio é um ser essencialmente apegado ao passado, cuja vida se encontra dominada pelo exílio." Acabei por albergar a mesma ideia ao recriar a vida perdida de Memduh Selim. Será que a quem teve de abandonar a pátria para encontrar uma vida feliz e livre lhe restam apenas noites dominadas pelas cores deslumbrantes do paraíso e pelas chamas vermelhas do inferno?

A maior calamidade que se pode abater sobre um homem é ser condenado ao desenraizamento. O escritor sueco Olof Lagercrantz escreve no seu livro fundamental sobre Dante, intitulado Do Inferno ao Paraíso: "Uma das experiências mais dolorosas de Dante consistiu em ser permanente objecto de difamação; não havia ninguém que o defendesse contra a falsificação da sua obra e a interpretação negativa que dela se fazia na sua cidade, no seu país."

É este sentimento de amargura que impede que o passado se torne passado, que o mantém permanentemente vivo. Aqui reside a diferença entre, por um lado, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, e Hermann Broch, William Saroyan, Nazim Hikmet e Faiz Ahmed Faiz, por outro. Fitzgerald e Hemingway, estes dois grandes escritores da geração perdida, escolheram o exílio. Os outros foram forçados a ele. Para a Geração Perdida, o exílio era uma aventura, uma fonte de inspiração, o turbilhão de uma vida apaixonante e entusiasta. Podiam voltar ao seu país quando desejassem. Para eles, o exílio não era uma consequência da censura ou do esquecimento, mas o caminho para a popularidade, a glória e o prazer. Para Broch, o grande mestre da língua alemã, que fugia do terror nazi; para o escritor armeno-americano Saroyan, que sobreviveu ao genocídio otomano; para o grande poeta turco Hikmet, que teve de abandonar o seu país após longos anos passados na prisão; para Faiz, o grande poeta da língua urdu, que escapou do terror brutal do ditador analfabeto Ziaul-Hacq…, o exílio foi sempre o preço que tiveram de pagar para viver. Uma viagem obrigatória e sem retorno. Por este motivo não é possível encontrar em Broch, Saroyan, Hikmet e Faiz o mesmo sentimento de prazer que encontramos em Fitzgerald e em Hemingway. Nas obras daqueles temos a individualização de uma história dolorosa, de uma tristeza muda, de uma nostalgia que exigia ser expressa: uma elegia dedicada aos que foram selvaticamente enviados para a morte, a penitência dos que não puderam seguir o seu exemplo.

O romancista curdo Erebê Chemo, célebre pela sua engenhosa trilogia [2], é um dos escritores que leio com maior prazer. Este autor - que escapou ao genocídio otomano para se instalar no Cáucaso e que, várias vezes, foi desterrado para a Sibéria durante o período estalinista - escreveu muito subjectivamente sobre os seguintes temas: a vergonha por ter sido condenado a uma vida sem valor; o abandono daqueles que teve de deixar; a necessidade de comunicar universalmente os valores da sua vida passada e actual, e o imperioso empenhamento em demonstrar que ainda existia, que era competente e capaz. Nos campos da morte estalinistas, estes temas converteram-se no núcleo da sua obra.

Nos seus romances alude com frequência às coisas perdidas e ganhas… O exílio está condicionado por estes dois termos. Como Erebê Chemo, também eu conheci um "período de perda" no meu próprio país. À partida, perdi a minha língua materna - a minha pátria, como diz Albert Camus -, o meu bem mais sagrado. A minha língua materna converteu-se subitamente em algo inútil, desprovido de sentido…, num fardo. Deixou de me proteger. Deixou de me dar uma sensação de segurança e de força. Privado da língua materna, perdi a minha identidade e personalidade. Já não conseguia exprimir-me. Converti-me em alguém diferente, uma pessoa impossível de identificar, um "estranho carenciado". Passei a pertencer à "categoria dos estrangeiros", a um grupo periférico que eu não procurara e que me era alheio. A minha vida, as minhas experiências e os meus pensamentos perderam todo o significado e todo o valor. E os ideais pelos quais tinha corrido perigo e pelos quais tinha ido parar à prisão revelaram-se desprovidos de sentido. Tive muita dificuldade em compreender porque é que tinha sido preso. Passei pela vergonha de ter de explicar as razões da minha vinda para o país que me acolhia. Todos os valores que para mim me eram evidentes e indiscutíveis deixaram de existir. Descobri que não os podia aplicar no meu novo país. Perdi a minha profissão e a minha cidadania. Perdi o direito de regressar e publicar livremente no meu país. Perdi o amor, o apoio e o alento dos meus amigos. Perdi a cor das flores do relvado do nosso jardim, o sabor dos pêssegos e o canto das andorinhas que nos visitavam em cada Primavera.

"Como sabe", escreveu Gombrowicz em inícios de setenta, na sua carta ao escritor e editor Maurice Nadeau, que tanto contribuiu para dar a conhecer os escritores exilados em França e no mundo, "a minha vida literária é muito difícil. Na minha condição de exilado solitário e sem apoio, sustento uma luta terrível." Também eu, exilado e solitário, entrei num túnel de perdição onde se trava uma luta diferente, mas mais dura ainda…

Para sair dele transformado e renovado…

Se tivesse de fazer uma lista do que ganhei, tão simplesmente como Erebê Chemo, começaria por dizer que ganhei uma língua nova…, uma língua que me permite expressar-me de maneira diferente e aproveitar outras possibilidades sem ter de me expor ao sofrimento, às restrições e às contradições da minha língua materna. Com a sua ajuda adquiri um novo país, uma nova cultura e uma nova literatura. Conheci novas pessoas e costumes, valores, experiências, línguas e culturas. Graças ao meu país adoptivo, pude aceder ao resto da Escandinávia, ao mundo inteiro, aos seus povos e às suas tradições. Adquiri liberdade de escolha. Dei-me conta de que, para além de mim, do meu povo e dos nossos problemas, havia um mundo imenso; que não éramos o centro de tudo e que outros povos tinham o mesmo valor. Com grande assombro meu, descobri que tinha sentimentos e experiências idênticas às de um árabe, um lituano, um checo, um uruguaio, um polaco, um chinês ou um congolês. Compreendi que todos os ditadores são parecidos, que tudo deve ser julgado de acordo com valores humanos universais. Aprendi-o com modéstia. Desenvolvi uma curiosidade infinita e um desejo entusiasta de saber. Adquiri uma universalidade: a identidade de um cidadão do mundo. Tomei posse de uma literatura mundial que me enriquecerá sempre o coração e consolará o meu espírito. Aprendi a arte de navegar entre as línguas e as culturas, a distinguir com olhar mais certeiro os matizes das cores. E com surpresa reconheci que na terra tudo se relaciona com uma simples realidade: a humanidade…

Aprendi, de facto, tudo isto? Poderá realmente afirmá-lo quem viaja pelos túneis do acaso, da evolução e da mudança? Não tenho a certeza absoluta, mas penso que sim.

Com o que ganhei redescobri a língua materna. Reaprendendo-a, compreendi-a melhor e abracei-a com um amor mais profundo e mais apaixonado. Regressei à minha cultura proscrita, à minha história distorcida, às minhas raízes sufocadas, à minha identidade assimilada. Pela primeira vez vi o meu país fragmentado como uma entidade composta por um mosaico de cores. Estabeleci com ele uma relação humana situada além e acima da frieza e da crueza da linguagem política e ideológica. Decorei com as suas sombras invisíveis as páginas que escrevi nas frias noites de inverno, em Estocolmo. Tentei escrever essas páginas na qualidade de cidadão do mundo e na qualidade de curdo, para estabelecer uma ponte entre a minha língua e o mundo. Dediquei os meus romances aos seus queridos filhos. E voltei a enamorar-me dela de novo.

Isto é o que eu procuro dizer, integrando a minha insignificante experiência nas experiências acumuladas durante dois mil anos: que a dor da separação pode ser enriquecedora e revigorante. Pode ser uma fonte irreprimível de criatividade, uma oportunidade para reunir povos, culturas, línguas; pode ser uma «ágora» estimulante de povos, onde cada um contribui com as suas tradições, os seus gostos e as suas cores.

Rilke disse-o: a separação e o exílio são, simultaneamente, outono e primavera, esquecimento e imortalidade, tragédia humana e um colorido desfile da humanidade onde se esquece o tempo e o espaço. No seu âmago, o ontem, o hoje e o amanhã encontram-se, unem-se as culturas e as tradições e desenvolve-se uma lenda infinita, que escreve a história e o futuro da humanidade.

O encontro de diferentes línguas e culturas, a troca de experiências entre pessoas de diferentes tradições, pode constituir uma fonte de criatividade enriquecedora. Não se somam por acaso a esse "colorido desfile da humanidade" os escritores que amamos e lemos apaixonadamente? Joseph Conrad, que nasceu polaco e escreveu em inglês; o irlandês Samuel Beckett, mestre em duas línguas; o escritor em língua yiddish I. B. Singer; o iraniano Sadegh Hedayat, que se suicidou no seu exílio em Paris, no início dos anos cinquenta; V. S. Naipaul, um indiano da Trinidade que escreveu em inglês; o poeta árabe Adonis, exilado em Paris; o checo Milan Kundera… e tantos outros!

Creio que, no decurso destas migrações, nascem novos pensamentos, formas e ideais, como consequência dos encontros com culturas e línguas novas, das turbulências espirituais e sociais, das contradições e das mudanças culturais. O escritor polaco-americano Czeslaw Milosz, afirma que "o dever da literatura e da poesia consiste em recordar-nos que somos seres humanos". É evidente. No entanto, o que nos faz falta é o desejo de nos convertermos em cidadãos do mundo e aceitarmos a responsabilidade que isto impõe. Semelhante desejo, semelhante responsabilidade, que nascem da mudança, da criatividade e das relações culturais, são os fundamentos de uma existência humana viva e democrática. Podem confrontar e conter as realidades absolutistas e totalitárias - meras expressões de um obscurantismo monótono e asfixiante - através de realidades novas e democráticas.

Chegado a este ponto, tenho de voltar a citar Gombrowicz: "O exílio é um túmulo". Se no país de acolhimento e no seu ambiente cultural não se adquire o desejo e a vontade de se converter em cidadão do mundo, então o exílio transforma-se num verdadeiro cemitério. Se isso não foi compreendido, por muito que o exílio signifique uma oportunidade, é impossível ser criador e dar uma nova vida ao passado. O exílio tende a converter-se num autêntico cemitério quando nos encontramos isolados da sociedade e condicionados aos limites de um gueto. Viver permanentemente no passado, não é o mesmo que recriá-lo. Existe uma grande diferença entre a nostalgia que cega e a imaginação criadora. Viver com as sombras das recordações para prever e conformar o futuro é muito diferente de teimar num estilo de vida que já não é actual. Gastar o tempo em lugares fechados, na periferia das grandes cidades, relembrando persistentemente as maravilhas e as glórias do passado, nada tem a ver com a criação… No ensaio de Vladimir Nabokov sobre os escritores expatriados, Danilo Kis descreve o exílio dos russos na Europa depois da revolução bolchevique de 1917 como vidas amargas e solitárias, cheias de contradições e de querelas intestinas, de ódios e rancores herdados do passado, incapazes de se integrarem nas novas sociedades e no mundo, enquistados nos subúrbios de Berlim e de Paris. Para aqueles aristocratas, cientistas, intelectuais, escritores e estudantes insensíveis à mudança, que morriam lentamente, o exílio significava a derrota e a destruição. Um cemitério habitado por seres vivos.

Concluirei recordando uma vez mais a minha avó. O welatê xerîbiyê, de que ela falava, converteu-se para desgraça dos curdos, para desgraça nossa, no centro do nosso trabalho cultural e intelectual, numa pátria. O nosso século encontra-se repleto de acontecimentos trágicos, de genocídios, de transformações, destruições e migrações. Para nós, os curdos, estes sofrimentos são imensos. Por isso as nossas obras culturais e intelectuais foram criadas no exílio. Assim como os judeus e os arménios, os curdos viveram o welatê xerîbiyê como uma oportunidade, um lugar onde a sua língua, a sua literatura, a sua arte e a sua cultura podiam ser protegidos e desenvolvidos. Na condição de filhos de um povo que imprimiu no exílio os seus primeiros jornais e os seus primeiros livros e que nele criou as suas instituições modernas, gostaria de terminar esta reflexão dizendo que eu também vivi no welatê xerîbiyê…, uma experiência que foi simultaneamente um lugar de sofrimento e um santuário.


1. La Poursuite de l'ombre (roman) (In Search of the Shadow: A Novel), Phébus, Paris, 1999.
2. O Pastor Curdo (romance), Instituto Curdo de Paris, 1999


19-01-2003