Ofensiva
Sarah Adamopoulos
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Fogo em Lisboa
Porto, Campo das Letras,
Colecção "...instantes de Leitura", 2003
78 páginas
PVP: 9,45
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Li Fogo em Lisboa, este livro com
que Leonel Moura assinala a sua estreia na área da ficção, como um ensaio.
Como um ensaio, chamemos-lhe, generalista. Penso que é isso que de alguma
forma Fogo em Lisboa é: um pretexto para pensar, ancorado no princípio
da narrativa. Leonel Moura é um artista plástico que escreve e nesse facto
reside certamente o que o diferencia da grande maioria dos artistas plásticos.
E também, forçosamente, da grande maioria dos escritores. Felizmente para
mim, não cabe aqui a apresentação de uma obra plástica que é importante
e complexa. Não o saberia fazer.
Li Fogo em Lisboa como se fosse um
diário, na linha do mais fino Nanni Moretti. Neste para mim ensaio, o
autor descreve numa linguagem fotográfica - ou cinematográfica, é parecido
- a vidinha em todo o seu horror, descrição que é graças a Deus profusamente
pontuada por reflexões de cariz filosófico. Há nesta escrita qualquer
coisa de Milan Kundera - no sentido em que existe uma trama [uma história,
um caso, um plot] e existe um narrador que comenta, que reflecte sobre
o que vai sendo contado.
Se não é possível a transcendência - que
não é possível a transcendência, quando não há nem um Deus nem um Mestre
em quem depositar as sacas de culpas e demais incomodidades - pelo menos
que seja possível a reflexão, o pensamento enunciado, por forma a atenuar
a brutalidade da realidade. É o que faz este narrador, que funciona aqui
como a consciência da consciência. E também como o sujeito da história,
desta história que podia ser um filme a preto e branco dominado por uma
voz off.
O narrador podia ser um original, um detective
em causa própria. Não é evidente que se goste deste narrador, porque ele
incomoda. Mas também não é essa a sua função. Ele existe de certo modo
enquanto redentor. Mas para o autor e nem tanto para o leitor. Ele é o
tipo que irrompe na história quando lhe apetece para mandar umas bocas
sobre o estado do mundo. Ele é o tipo que afirma, por exemplo, que
tudo é irremediável, que a arte serve para cobrir sem vergonha
a nudez das paredes, que a vida concreta e a dureza da matéria
são sempre mais importantes do que as imagens e as representações,
demonstrando através de raciocínios fechados - mas também afirmativos,
mas também contundentes - a consciência que o autor tem da comprovada
embora relativa irrelevância da arte enquanto actividade redentora.
Há nesta voz omnipresente do narrador uma
poética que não posso deixar de assinalar. Mesmo quando o tipo se limita
a produzir máximas como estas:
A miséria é ainda o grande destino da humanidade
Todas as derrotas são trágicas
Nunca sabemos se as palavras estão a fazer amor ou guerra [numa
comparação com os gatos, esses misteriosos e imprevisíveis]
A morte não é nada [a propósito dos infernos da vida]
A miséria é sempre estreita [sobre a estreiteza das ruelas de Lisboa].
Num pano de fundo lisboeta dos dias que correm
[um pano de boa qualidade, tratando-se como se trata de vivências da classe
média-alta - e também isto importa porque a trivialidade que consome o
narrador é feita das rotinas e dos confortos próprios desta classe] há
um quadro que reaparece, um quadro que é um contorno humano debruçado
sobre si mesmo, um pedinte, um condenado, um miserável qualquer, perdido
no meio de um conjunto heterogéneo de quadros a divagar pelas paredes.
É este o quadro que importa, porque, é-nos
dito, se é importante criar o novo é ainda mais importante destruir
o que está mal. É este portanto o quadro que importa recuperar para
destruir. A tarefa afigura-se mais complicada do que seria de supor. Há
percursos sinuosos a cumprir, numa Lisboa muito mais racista e guettizada
do que alguns gostariam, uma Lisboa cheia de segredos consentidos, cheia
de poeira acumulada, onde só o sol se esforça para fazer da cidade
um lugar no mundo. (...) Caos urbanístico, trânsito desnorteado,
tapumes abatidos, montes de terra, merda de cão, buracos, bocados de cimento
com ferros à vista e outros, dispostos com o rigor dos desleixados. Mesmo
no centro, o esforço dos ignorantes atira água, luz e barracas de ferro
para a cloaca urbana. (...). É nestas atrocidades-verdades, debitadas
pela voz off de serviço à narrativa, que se revela um fascínio que não
é alheio ao autor. O fascínio pelas malhas urbanas, pela evolução e destino
das cidades.
Na verdade, recuperar o quadro transforma-se
numa cruzada individual, com sonhos e delírios febris que produzem decisões
e desvendam nós cegos, perseguições, noites em branco, madrugadas. E viagens.
Aeroportos e aviões cheios de ruínas humanas que nasceram no país português
rural de outros tempos e que atravessam o planeta e os séculos
carregadas de morcelas e queijos cheios de bactérias intoleradas.
Eis senão quando um incêndio enorme e dificilmente
controlável alastra pela Lisboa que o autor demonstra conhecer tão bem.
Um incêndio caótico, mimetizando o caos provocado pela catadupa das reacções
dos homens e mulheres de Lisboa. Neste ponto a escrita de Leonel Moura
flui veloz e impregnada daquilo que vemos e ouvimos nas televisões e nas
rádios sempre que uma calamidade acontece. Os comentários dos comentadores
de serviço são de uma mediocridade pungente e a calamidade desencobre
a verdadeira natureza dos protagonistas da sociedade portuguesa actual.
Portugal é um país pacato onde dorme um vulcão social.
O registo é hiperrealista e assente num exercício
de denúncia a que Leonel Moura já nos habituou. A ficção a que o autor
recorreu, mais concretamente o incêndio tentacular e devastador que alastra
sem dó, traduz, julgo, a metáfora da única forma de destruição que possibilita
o recomeço. Só das cinzas, só do nada, poderá o homem construir, embora
erguer seja aqui reerguer. Seria preciso matar a memória dos homens para
efectivamente construir. Leonel Moura personifica para mim o artista total.
O homem que objectivamente intervém na sociedade, muitíssimo atento, desdobrando-se
num permanente e rigoroso exercício da cidadania. Indiferente aos corporativismos
artísticos que determinam, por exemplo, que quem pinta não possa escrever
e ser reconhecido também por isso.
Há qualquer coisa de alquímico neste artista
total, que embora afirme não acreditar que os intelectuais possam alguma
vez transformar o mundo, sofre daquilo que julgo ser uma capacidade transformadora
compulsiva.
Fogo em Lisboa é por isso muito mais
do que um pequeno romance que se lê numa viagem de Lisboa ao Porto. É
um statement. É uma ofensiva. Como escreveu o autor num texto a propósito
do exercício estéril da resistência "Passemos então à ofensiva e deixe-se
para os outros a vocação da resistência."
15-06-2003

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