| ARTES ENVIE DEBATA | ![]() |
||||
Viver de péSarah Adamopoulos
Mas o que talvez importa saber do pai é que permanece um convicto militante do Partido Comunista Português, activismo que o levou sem grande remorso a abandonar uma carreira como fadista que, asseguram os entendidos, prometia feitos grandiosos. E que foi íntimo de Amália Rodrigues, José Carlos Ary dos Santos, Natália Correia (de quem aliás encenou o texto Homúnculo, naquela que seria a primeira encenação de um texto de Natália). E que é um erudito do fado e da sua história. E ainda que é um homem de uma verticalidade quase intransigente - que são muitas vezes assim os homens com convicções. Jacques Brel diz numa canção que passamos a vida a fugir do vento, com medo que ele nos derrube ou empurre para "combates demasiado duros". Que nos escondemos da nossa própria sombra para fugir da inquietação que não nos dá tréguas. Que nos ajoelhamos porque a nossa esperança se reduz à reza [entenda-se a esperança na esperança] ou a crenças que não temos a certeza de serem credíveis. Que somos, até ao fim, a nossa própria derrota. E à pergunta de Brel " Serait-il impossible de vivre debout " ? [Será que é impossível viver de pé?] eu respondo que não. José Manuel Osório é um desses homens que vivem de pé. Luís Osório convidou o pai para uma conversa destinada a ser um livro (1). O livro chama-se "Quanto Tempo - Uma Criança no Olhar" e foi recentemente editado pela Oficina do Livro. Trata-se de um livro notável e corajoso, terrível e desconcertante, polémico e exigente. Um livro que nos incomoda, a todos nós especialistas em coleccionar não-ditos. Um livro que é de certa forma a materialização de uma fantasia que é de todos: a de enfrentar os nossos pais, a de os confrontar com as coisas que voluntária ou involuntariamente determinaram as nossas vidas, a nossa personalidade, a forma de nos relacionarmos com os outros. Mas também a fantasia de os derrubar, de lhes dizer fizeste isto e mais aquilo, és/foste um fraco mas sobrevivi e hoje sou uma pessoa resolvida. Nós, os que sobrevivemos sem nos termos debatido com o nosso pai no duelo da verdade, sentimo-nos interpelados pela coragem deste pai - ausente, assumida e friamente ausente - e deste filho cheio de amolgadelas. Este livro, que não é literatura, configura (como gostam de dizer os políticos e os jornalistas numa colagem que se tem vindo a banalizar à gíria dos advogados) um absoluto inédito no universo da edição em português. Formalmente, o género jornalístico denominado entrevista, ou seja, pergunta e resposta, tem aqui a sua versão mais depurada, na forma de uma conversa que foi transcrita com notável sentido poético. Neste livro, lêem-se as palavras trocadas mas também os silêncios, mas também as pausas, mas também as dores em vão dissimuladas, mas também a respiração dos conversadores. Conceptualmente é uma produção singular, uma ideia ao nível das mais brilhantes tramas ou argumentos literários em que o artista se expõe, mostrando aos outros como é ser aquela pessoa. Por outro lado, "Quanto Tempo" é também uma peça documental da maior relevância porque sendo de hoje, de agora, que este livro fala, contém em si dois passados, duas histórias, que por terem marcado a história colectiva do país (cruzando-se entretanto aquelas com uma infinitude de outras vivências, a vários níveis determinantes) interessam várias gerações de portugueses. Um livro inclassificável e arrojado, no qual os protagonistas-autores recusam as carcomidas bengalas dos cânones preceituais jornalísticos, artísticos, filosóficos, ideológicos, sociais. Eis porque julgo que este livro que não é literatura é um livro muito importante.
04-05-2003 |
|||||