Rui Bebiano
Versão revista de
uma recensão publicada na revista História, no. 49, de
Outubro de 2002.
Em
imagens que povoam jornais e documentários, nos muros das cidades,
na decoração de espaços privados, em t-shirts e tatuagens,
a expressão decidida de Che Guevara, captada há mais de
trinta anos por Alberto Korda, povoa a nossa imaginação.
Como sinal da memória, insígnia de utopias ou insólito
produto pronto-a-usar. Omissões várias e umas tantas mentiras,
somadas a um certo oportunismo político e comercial - em alguns
países vende-se até uma bebida gaseificada, a Revolution
Soda, com o rosto do Che estampado como logótipo - têm
adensado a carga simbólica que envolve um dos ícones do
século passado. O filme biográfico, prometido por Steven
Soderbergh já para este ano, irá, muito provavelmente, alargar
a vaga. Importa por isso desvendar o mito na sua origem.
Paco Ignacio Taibo II, autor mexicano da
área do romance negro, ensaiou essa missão num livro editado
em 1996. Guevara, también conocido como el Che fornece um
olhar romantizado da vida do guerrilheiro, retratando-a como expressão
heróica de um destino simultaneamente pessoal e colectivo. O autor
não esconde o fascínio pelo seu "santo laico".
Anota: "Perto de trinta anos após a sua morte, a sua imagem
atravessa as gerações, o seu mito perdura por entre os delírios
do neoliberalismo. Insolente, trocista, teimoso, moralmente teimoso, inesquecível".
Aparte a assumida sedução, ou talvez por causa dela, Taibo
II desenha, a partir de materiais parcialmente inéditos - arquivos
cubanos, diários íntimos, testemunhos orais e fotografias
esquecidas - uma reconstituição que acentua os traços
de um personagem surpreendentemente contraditório. O duro combatente
que julgávamos conhecer, o intrépido revolucionário
profissional de olhos fixos na sua meta histórica, dá lugar
ao homem que duvidava muitas vezes de si próprio. Vislumbra-se
assim, nessa narrativa latino-americana de um percurso latino-americano,
um Ernesto Guevara de la Serna para aquém do mito. Num fresco situado
na fronteira flutuante da biografia histórica e da ficção
biográfica, Taibo II procurou devolver à nossa compreensão
uma vida aventurosa com profundos traços de humanidade.

Pierre Kalfon,
Che. Ernesto Guevara,
uma lenda do século
Lisboa, Terramar, 2002.
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O francês Pierre Kalfon, jornalista,
escritor e diplomata, conhece também o cenário do drama
que produziu o mito. Ele foi, sucessivamente, director da Alliance Française
na Argentina, professor universitário e correspondente do Le
Monde no Chile, funcionário da UNESCO na Colômbia, na
Nicarágua e na Guatemala, e adido cultural em Montevideu (Uruguai)
e Santiago do Chile, tendo publicado há relativamente pouco tempo
o testemunho Allende, Chili 1970-1973. Vai para dez anos, arrumou
as numerosas hagiografias de Guevara, e, procurando novas informações,
ou revendo aquelas que percebeu terem sido sistematicamente manipuladas,
empreendeu também a complicada tarefa de reescrever a biografia
de um semi-deus.
O resultado foi este livro, lançado
em 1997 e publicado em edição nacional no ano passado. Nele
recorre a fontes de informação análogas às
de Taibo II, a maioria delas também inéditas e identificadas
com clareza, ainda que lamente a impossibilidade de aceder à documentação
que continua guardada no interior de Cuba (principalmente aos cadernos
pessoais na posse da viúva, Aleida March, que se recusou a mostrá-los).
É visível que Kalfon não escreve tão bem como
o mexicano, mas esforçou-se por produzir, na condição
de europeu e diplomata, uma obra mais despojada do envolvimento emocional
e mais atenta às circunstâncias políticas da época.
A aridez do discurso que daqui poderia emergir é temperada pelo
confronto objectivo entre distintas leituras dos mesmos acontecimentos.
Destaca-se, desde o início, o valor,
constitutivo da personalidade do biografado e do seu percurso, que é
atribuído a uma atracção estrutural pelo risco e
pelas posições extremadas: "é sempre ele
que, sob o olhar inquieto de todos, trepa ao rochedo mais musgosos e escorregadio,
cinco metros a pique sobre a água, e se lança num salto
mortal". "Fúser" - a alcunha, resultante da
contracção de "furibundo Serna", pela qual o Che
se tornara conhecido na adolescência - é-nos assim insistentemente
mostrado na faceta voluntarista, povoada de sombras de um certo pathos,
que o tornará admirado, temido, mas, acima de tudo, imprevisível.
Um traço perturbante, capaz de realçar a força da
sua rebeldia. Ou, dito de outra maneira, o seu comportamento revolucionário.
Momentos e aspectos da vida de Guevara mereceram
uma atenção especial da parte de Kalfon. O primeiro refere-se
ao longo périplo sul-americano, na companhia do amigo Alberto Granado,
em cima da velha moto Norton de 500 cm3 que em 1952 os transportou por
uma rota sinuosa desde Buenos Aires até à Cidade do México.
Apesar da coincidência temporal, percebe-se que não se tratou
do tipo de viagem que os "vagabundos celestes" da Beat
Generation - Kerouac, Cassady, Ginsberg - levavam então a cabo
muito mais a norte, procurando "on the road" a liberdade
que a preconceituosa sociedade americana do pós-guerra lhes recusava.
Muito pelo contrário, os dois argentinos procuravam já uma
"América maiúscula", dotada de uma dimensão
colectiva e algo mística, que iluminará o futuro internacionalismo
pan-americano do Che.
Outro instante crucial situa-se justamente
nesta confluência de destinos. Trata-se do encontro que, no México,
envolverá Guevara com um punhado de refugiados cubanos, extrovertidos
e determinados, que ali preparavam a invasão da sua ilha e o derrube
da ditadura de Fulgencio Batista. Aí se detectam os últimos
assomos de uma dúvida agora em vias de solução: "Já
nem sei se serei um actor ou um espectador atento à acção".
O "soldado da América", como se auto-definia o candidato
a guerrilheiro, aproxima-se então do grupo organizado pelos manos
Castro e, como médico, assina o seu destino tornando-se o único
estrangeiro a embarcar, rumo a Cuba, na expedição temerária
e fundadora do Granma.
Adiante,
um novo momento constitutivo do papel histórico do biografado desenrola-se
em plena ilha, entre os combatentes da Sierra Maestra, num processo que
este livro descreve detalhadamente. É aqui, com o cheiro a pólvora
nas narinas e a morte por perto, que se forja o seu perfil militar, disciplinado
e inteiramente dedicado ao combate, lançado em nome de uma causa
que se presumia democrática, justiceira e necessariamente violenta.
Como recordará mais tarde o combatente que aqui vai ganhar a sua
estrela de comandante, "tinha à minha frente uma mochila
cheia de medicamentos e um caixote de balas; o peso não me permitia
carregá-los a ambos; peguei no caixote e deixei a mochila".
Para Kalfon, com este exemplo do papel do gesto circunstancial na construção
da história, "o doutor Guevara escolheu tornar-se o Che".
O relato que aqui se faz da sua actuação
posterior é de grande importância para se compreender a evolução
do processo revolucionário cubano, apoiado na iniciativa de um
governo que, em boa parte por influência do argentino, se foi mostrando
cada vez mais próximo dos ideais comunistas. As iniciativas e as
palavras de Ernesto Guevara, ministro das indústria e governador-geral
do Banco de Cuba, situavam-se, além disso, nos antípodas
da previsibilidade e do comportamento protocolar, marcando um estilo informal
de exercício do poder que captará uma simpatia internacional
visível sobretudo entre sectores da juventude de sucessivas épocas.
Ao mesmo tempo, o relacionamento preferencial da política externa
do novo regime com o bloco socialista e o movimento não-alinhado
encontrarão nele o primeiro entusiasta. Porém, como sublinha
Kalfon, acabará por ser a inadequação da personalidade
de Guevara ao pragmatismo e à capacidade para estabelecer os compromissos
inerentes às funções governamentais, que, associada
ao crescente desacordo em relação a aspectos da política
externa e à repressão das primeiras divergências no
interior do regime, determinará em 1965 o seu desaparecimento de
cena. Ao qual se seguiria o percurso algo quixotesco pelas guerrilhas
do Congo, onde se incompatibilizou com Laurent Kabila, e pela Bolívia,
onde, isolado e traído, viria a ser morto.
Esta biografia pode servir, para além
do gozo que nos oferece a sua fácil leitura, três objectivos
complementares. Permite redescobrir uma personalidade cujo rosto tem sido
retocado por falsificações da história provindas
de diferentes quadrantes, ou banalizado pelos média e pela publicidade.
Separa a vida e a acção de Guevara do guevarismo, que, como
tendência, a partir dos finais dos anos sessenta se transformou
em caricatura pobre, fundada numa espécie de messianismo pretensamente
vanguardista, inevitavelmente violento. E amplia o nosso entendimento
do processo de transformação e sobrevivência do regime
cubano, cuja história e cuja identidade pertencem, queira-se ou
não, para o bem e para o mal, ao património da esquerda.
05-01-2003

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