Rui Bebiano
Pré-publicação de artigo do número 5 da
Periférica
“Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán.”
(De Silencio, bolero de Rafael Hernández cantado por Ibrahim
Ferrer)
Stalin Martínez, irmão de Lenin e Lenina Martínez,
estomatologista no romance Conta-me coisas de Cuba, do exilado
Jesus Díaz, viveu um drama que o levaria ao desespero e à
fuga da ilha. Pepa, a velha ventoinha Westinghouse, avariara-se irremediavelmente,
deixando-o, sem dinheiro ou influências para conseguir uma nova,
confinado ao calor constante, insuportável, de um quarto solitário
em La Habana.
Perturba a variedade de metáforas negativas usadas por muitos escritores
cubanos para se referirem ao habitat que conformou as suas vidas, deslocando
o mal-estar para relatos aparentemente laterais. De forma estranha para
o leitor mal habituado a documentários com trilha sonora de rumbas
e son, à cor do rum Bacardi misturado com cola, às
manifestações da Plaza de la Revolución, aos discursos
XXL de Fidel, os exemplos sucedem-se. Karla Suárez insiste no silêncio
como veículo expressivo e como processo de compreensão do
mundo em redor (Os Rostos do Silêncio). Zoe Valdés
aborda a sobrevivência esgotante, carente de horizontes visíveis,
daqueles que não procuraram o exílio (O Nada Quotidiano).
Pedro Juan Gutiérrez transforma o sexo obsessivo numa cadência
que exige grande concentração de energia, que esgota, não
deixando espaço para o pensamento elaborado e para a vida social
(na Trilogia Suja de Havana, sobretudo). Daína Chaviano,
ergue universos mágicos numa cidade arruinada, sobre vidas com
senhas de racionamento, filas nos armazéns, polícia política,
ininterrupta propaganda oficial (no ciclo La Habana Oculta).
Nem os mais obstinados na negação do evidente podem ignorar
a forma como o relato ficcional da Cuba contemporânea – o
relato do dissídio, naturalmente – descarta a vivência
colectiva de praças e reuniões, a confiança no próximo,
a presença no quotidiano das metas revolucionárias visíveis
em outdoors de propaganda do regime e folhetos turísticos.
Diferente é Cuba: Imagens & Testemunhos (2002), álbum
ilustrado dos portugueses João Vilar e Alfredo Duarte Costa. Alinham-se
fotografias e relatos do que da ilha, da sua vida e do seu futuro pensam
(ou dizem) figuras como Maria Barroso, Jorge Sampaio, Luís Represas,
Rui Veloso, Américo Amorim, Pedro Lamy, Miguel Urbano Rodrigues,
Edite Estrela, Eusébio, entre outros nacionais e alguns estrangeiros
inseridos na conexão cubana (como o cardeal D. Jaime Ortega ou
a inevitável Aleida Guevara). As imagens são belas, revelando
tipos únicos na paisagem luminosa em cinemascope, numa
espécie de pobreza limpa e honrada, numa decadência de charme
que concebo simpática para as agências de viagens. Mas, se
excluirmos o riso das crianças, pressente-se a tristeza nos rostos
tensos, na ausência de multidões, na falha de diversidade
cultural, no eclipse dessa “juventude rebelde” à
qual o regime associa ainda as efígies, com quatro décadas
de exposição, dos três C matriciais: Cienfuegos, Che,
Castro...
Os textos escolhidos resvalam para o lugar-comum, para o elogio em papel
de cenário, numa espécie de justificação pela
negativa – a crítica do bloqueio americano, a capacidade
de resistência do regime, o bricolage como arma dos necessitados
– daquilo que, fora dos meios de comunicação controlados,
é visivelmente um país sem marca de projectos mobilizadores.
Vivendo um quotidiano que apenas para os estrangeiros, e mais moderadamente
para alguns naturais sitiados pela propaganda, parece marcado ainda pelo
júbilo. Pedro Lamy, o piloto de automóveis, absolutamente
fascinado, como seria de prever, pelos Pontiac e Chevrolet “que
se mantêm como novos”, fala dessa gente que aos seus
olhos “vive num constante momento de alegria e boa disposição”,
lembrando aos menos benévolos o elogio, presente na fraseologia
salazarista, de um povo “contente, a dançar e a cantar,
dando lições de optimismo”. Miguel Urbano Rodrigues,
um dos históricos da mais impoluta ortodoxia comunista lusitana,
adensa a ideia, tratando os cubanos como semi-heróis homéricos,
capazes, na paisagem devastadora de uma “crise global da civilização”
– O tempora! O mores! O perestroika! – de afirmarem
uma inigualável “atmosfera marcada por intensa alegria
de viver”.
Olhando à distância, numa perspectiva estritamente materialista,
limitativa do humano, que outro sentimento deveríamos presumir
num povo que conhece a inflação próxima do zero,
a quase completa literacia, um sistema de saúde gratuito e razoavelmente
avançado? Que outra sensação poderia legar ao turista
o perfume adocicado dos charutos, o contacto caloroso das pessoas, a sensualidade
imediata dos corpos? E que impressão nos deixa a omnipresente música,
tão característica da pátria caribenha comum, esquecida
do exterior depois da gloriosa fase dos anos 50? A mesma música
que nos anos mais recentes, como resultado da bem-sucedida cruzada ressurrecta
de Ry Cooder na companhia dos anciãos catitas do Buena Vista
Social Club, passou a dar a volta ao mundo todos os dias. Elementos
dispersos de uma mitografia da felicidade erguida ainda sobre uma outra
fonte.
Esta deriva, de forma remanescente, do lugar cimeiro que a Cuba revolucionária
ocupou, em particular na Europa e América Latina, no imaginário
e na iconografia da esquerda ocidental. Depois da tomada do poder pelos
insurrectos verde-oliva da Sierra Maestra, na noite de S. Silvestre de
58, tropos que integravam a sua gramática fundadora – revolução,
rebeldia, anti-imperialismo, colectivização, socialismo
– foram afixados nas paredes, proclamados diariamente, ampliando
uma simpatia mais imediata do que aquela que se poderia sentir pelos distantes,
previsíveis e nada modelares aparatchiks de Moscovo. E
ainda que Cuba tenha rapidamente começado a copiar o modelo centralista
das "democracias populares", tal não fez diminuir, mesmo
na área da social-democracia, sobretudo entre os intelectuais e
uma certa juventude, a simpatia por um regime apresentado como dotado
de um fulgor impossível de vislumbrar nos desfiles rituais diante
da tribuna do Kremlin. Imagem ampliada ainda pelo efeito carismático
de políticos sem rugas, possuidores de um estilo novo, directo,
rebeldes com causa desprovidos dos maneirismos e da linguagem estereotipada
dos estadistas da época. Foi essa a atraente Cuba que, entre muitos
outros jovens e menos jovens (Sartre, Beauvoir, e alguns mais) de todo
o mundo, procurou Annie, a romântica única filha do major
Silva Pais, último director da PIDE, “portuguesa na revolução
cubana” recordada recentemente no romance-livro de memórias
de José Fernandes Fafe.
No entanto, nada disto transparece na palavra dos actuais escritores e
exilados, para os quais a expressão da tristeza é inevitável.
Guillermo Cabrera Infante, ex-companheiro de Fidel, do qual após
o derrube de Batista rapidamente se distanciará, experimentou,
por isso, a necessidade de escrever a crónica pessoal de uma cidade
aberta, sonora, plural, que fora a da sua infância, adolescência
e parte da idade madura (Havana para um Infante Defunto). A descrição
da opressão, feita pelos numerosos dissidentes – nem todos
iguais, nem todos criaturas da CIA – já fazia notar esse
distanciamento. Lê-se Antes que Anoiteça, autobiografia
impressionante, indesmentível e indesmentida, do suicidado Reynaldo
Arenas, guerrilheiro castrista aos quinze anos de idade, homossexual assumido,
e percebe-se como o regime procurou conter, normalizar, cito da introdução
de António Mega Ferreira à edição lusa, “a
criatividade sem limites, o sentido do risco e a paixão da desordem,
a busca da beleza e o frisson da perdição”, tudo
fazendo para submeter os comportamentos culturais e o comum viver às
“metas da Revolução” definidas, sem recurso
algum, em estreitíssimo conclave.
No conto “Delito de dançar o Chá-Chá-Chá”
(incluído na colectânea É Tudo um Jogo de Espelhos),
é ainda Cabrera Infante que coloca uma poderosa interrogação
à volta de uma futilidade: que fazer socialmente com esta dança
que teve “a desgraça de o seu nascimento coincidir com
a ditadura de Batista” e, por isso, foi culpada de uma alegria
ilegítima e decadente, “como a poesia hermética,
como o jazz”? A revolução distinguirá
por tempo demais – aproxima-se agora do meio século de sentido
único – o bom do mau, o justo do injusto, o conforme do disforme,
e, também por isso, toda a diferença em relação
ao padrão de perfeição designado será condenada.
Principalmente se esta remeter para algo que tenha ver com o mundo capitalista
em redor, embora também, por um acaso, com o território
do humano.
Não surpreende assim o considerável número de intelectuais
– jornalistas, escritores, professores, artistas plásticos,
cineastas, fotógrafos, músicos, estudantes – que se
têm envolvido com o universo da oposição. Ou que fazem
por viver a sua vida à margem dos favores e das sugestões
do regime. A grande vaga repressiva que avançou agora, enquanto
o mundo inteiro virava o olhar para o Iraque, acompanhada, do habitual
e lúgubre cortejo de delatores e de arrependidos, acaba de empurrar
para a proscrição, o cárcere ou o paredão
um conjunto de pessoas, por certo diferentes, por certo com diferentes
motivações e maneiras de agir, unidas pela recusa do único,
fonte dessa imensa tristeza produzida pela ausência de espaço
para o exercício da diversidade. E nem mesmo um escritor em relativa
paz com o governo, como Lisandro Otero, Prémio Nacional da Literatura
de Cuba de 2003, se eximiu, no discurso pronunciado quando da entrega
do galardão, de deixar implícita essa carência, essa
insatisfação: “Se não se tomam medidas
restauradoras a paixão converte-se em rancor, o entusiasmo torna-se
indiferença, a fé é destruída pelo cepticismo.
Não obstante, há que continuar alentando sonhos”.
Falava de quê, Otero?
“Morre-se de nostalgia em Cuba”, afirmou Karla Suárez
há pouco mais de um ano, em entrevista publicada pelo Diário
de Notícias. É provável que sim. Não
a nostalgia do passado pré-revolucionário, sobrevivente
na memória da geração que o conheceu ou nos manuais
de história concebidos como hagiografias. Mas, é legítimo
suspeitá-lo, a dessa alegria perdida que apenas a liberdade sem
adjectivos, incandescente, pode redimir.
26-04-2003

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