"Cáfila de Miméticos"

Pedro Miguel Gon

Tinha-me acabado de sentar no átrio do Hotel Astória de Coimbra quando entra, vinda do bar, Natália Correia carregando a sua auréola de mulher feita na cultura e na confiança de si mesma. Sentou-se ao lado de um sujeito que supus ser o seu companheiro e que bebia whisky. Trocaram algumas palavras breves e minutos depois Natália levanta-se para telefonar. Já não me recordo de alguma razão de relevo para que a senhora tenha preferido o telefone da recepção e não a cabina telefónica, mas, fosse qual fosse a razão, foi diante de todos, poucos, os que estavam no átrio do hotel que ela fez a chamada. Pude ouvir-lhe dizer, "Meu querido Miguel Torga", e os dois entraram logo de seguida numa intimidade impressionante, para nós, os laicos, os não-iniciados. Apercebi-me que a dada altura comungavam um mútuo ressentimento quanto ao que acontecera num tal congresso organizado, se não me engano, pelo grupo de professores de filosofia da universidade de Coimbra, comemorando-se, então, o centenário da morte de Antero de Quental. O calibre da crítica de Natália Correia surpreendeu-me verdadeiramente, porque insistia brutalmente na expressão "cáfila de miméticos", já que, segundo argumentava, "só um disse alguma coisita...", pois "encontraram um modelo" e seguem-no complacentemente.

Confesso que não assisti a qualquer conferência do congresso em questão, era eu um estudante cheio de projectos mais bravos, e por essa razão não posso agora fazer mais que suposições. Para além de assumir que não são essas suposições que tomo como relevantes, mas a meditação que se segue. A irritação da dita senhora teria derivado, apenas, de uma insatisfação quanto aos conhecimentos dos professores em questão no que se refere estritamente a Antero de Quental? Ou, numa perspectiva mais global, teria derivado, não do tratamento do tema, mas do próprio pensamento desses homens enquanto homens de filosofia? Não sei se me faço entender. A segunda possibilidade poderá ser intriga minha, porém, admito-a, pois quando Natália disparava "Não são poetas... é isso!!" estava a enquadrar a questão de uma maneira mais vasta.

Veja-se que "cáfila" aponta para o plural, um conjunto de camelos, e popularmente pensamos que os camelos são uns desgraçados amorfos que carregam com tudo. E "miméticos" aponta para aqueles que tomam a configuração de outrém, e destes pensamos que repetem, numa imitação que não obriga a grande génio. Se aquela fosse uma descrição verdadeira dos professores universitários de filosofia, a questão seria radicalmente grave (por falência total da filosofia). Estou em crer que a reacção de Natália ganhou força apenas por causa de um desprazer sentido quando alguém sem vibração poética quis falar de um poeta, isto é, o espírito de Natália não sorriu às palavras que alguns professores escolheram para dedicar ao poeta Antero. Em resumo, falaram apenas como filósofos e não como poetas, o que para um poeta pode parecer pouco, "só um disse alguma coisita...". Mas, feliz ou infelizmente, não chegou a referir o nome do tal professor que terá dito "alguma coisita", e não deixou de acentuar que mesmo assim andou às "voltas e voltas", e só finalmente e superficialmente, referiu um tal ponto de interesse que parecia estar no contexto de ambos, mas que eu não cheguei a perceber.

Natália fez-me lembrar Miguel de Unamuno, para quem, "a filosofia se encosta mais à poesia do que à ciência", pelo que, "o poeta e o filósofo são irmãos gémeos" (Do Sentimento Trágico da Vida), afinal, caso exemplar em Antero. Também é esse, inequivocamente, o caso do universal Nietzsche, poeta e filósofo. É porque deviam ser gémeos, e não primos afastados, que Natália se mostrou ressentida.

Na maior parte dos casos há uma grande diferença na maneira como o filósofo convencional e o poeta respiram a criatividade, o que os faz parecer, de facto, primos afastados. Diga-se mesmo que há profissionais da filosofia que tomam a criatividade pelo pior dos fantasmas. É conhecido o gosto de muitos "filósofos" em se isolarem nos limiares curtos dos textos e construir neles a redundância das ideias. É aqui que Natália vence; um poeta impacienta-se com a pachorrice de palavras demasiadamente alinhadas e adestradas. Se muitos "filósofos" se limitam a fazer repetições que não o parecem ser, passando a ser mais historiadores (escavadores) do que amigos do saber (viajantes), é porque o respectivo pensamento é tão sistematitico que acaba por colher pouco da própria vida, da vibração própria da vida. Não é que seja radicalmente errado; é inicialmente certo, porque o recorrer aos textos, ou seja, ao passado e à tradição, é uma necessidade imperiosa da filosofia, pois é o retomar do sentido; a cultura elabora-se, não haja dúvidas, no diálogo com a história. Porém, o retomar do sentido não deve ser tarefa única, e a esta deve suceder a ruptura com o sentido ("aquele") e procurar com ousadia o novo sentido - pois sabemos que a nossa interpretação assenta num chão fugidio de historicidade. Não procurar mais que no texto histórico teria por consequência o travamento da criatividade, sendo certo que a criatividade não pode ser uma mesmidade modelar.

No entanto, não se declara aqui a necessidade incessante da ruptura, a ruptura pela ruptura, sem outro sentido que a própria ruptura, sem que esta alargue, de facto, o "campo" de compreensão e interpretação da realidade. Não se substituiu o sistema de Newton pelo sistema de Einstein apenas para mudar, mas porque proporcionava um "campo" explicativo mais abrangente que o anterior. A busca de rupturas, só para apresentar diferenças indiscriminadas em relação ao que já aí está, é um esforço superficial que muito rapidamente se torna estéril e circular como se pode verificar na chamada arte plástica contemporânea ou no mundo da alta-costura.

Então, voltando à polémica, nota-se que o filósofo convencional tende a ignorar a poesia para manter o rigor programático. Só recorre a ela a medo, contrariado, e como último recurso para tentar dizer com ela tudo aquilo que ficou por dizer na reflexão metódica. Mas,

terão os filósofos que não ser poetas?

Esta é a grande interrogação neste pequenino texto; e o único aspecto importante. Repito: terão os filósofos que não ser poetas? Platão, na sua época, denegriu bastante os poetas, mas nós, que temos uma longa história de literatura, e tendo o pensamento filosófico e científico evoluído tanto, sabemos o quanto a poesia pode ser expressão profunda da espiritualidade humana que é plural e multi-facetada. Se for este o remédio para que o filósofo continue a sentir o que pensa, talvez deva mesmo ser poeta, e com a poesia permanecer autêntico nunca dispensando a subjectividade circunstancial e a pessoalidade do pensamento, e nunca chegar a acreditar, inconfessadamente, em super-sistemas para super-não-homens. O pensamento que floresce a partir do sentir de um corpo vivo que tem a experiência da finitude e do perigo, será, seguramente, mais responsável e dimensionado que aquele que floresce desenraizado num cálculo cómodo que lhe rouba o chão em que existe e em que caminha.

Mudando de perspectiva, é perfeitamente possível inverter a interrogação, o que mostra que a questão é muito mais ampla:

poderão os poetas não ser filósofos?

Ou seja, tal como um poeta se pode irritar com o acerto demasiado arrumado, púdico e acautelado do filósofo convencional, não poderá o mesmo poeta irritar-se com o barbarismo grafemático? É verdade que a poesia perdeu, hoje em dia, o seu poder de sortilégio (estará longe o dia em que a poesia seja retirada do mercado editorial para passar a ser um exercício privado e individual com as qualidades do ioga ou do mantra?) sobretudo porque não se liberta dos "idola" e outros fetiches vulgares que tradição recente, que quase tudo deixou experimentado, torna recorrentes. Mas: e quando a poesia se consegue encontrar nas esquinas da realidade donde se apercebem veredas que nunca foram intuídas? Vamos voltar as costas aos homens que ainda levam a poesia nas esquinas da realidade?

Nesta discussão entre irmãos gémeos, poesia e filosofia, não estaremos a pressentir facetas humanas que outros investigadores designaram de pensamento divergente e convergente? Uma forma de pensar intuitiva, plena de flexibilidade e criatividade, versus uma forma de pensar rigorosa e alicerçada numa base previamente metódica? Talvez a poesia seja aquela tarefa que leva à filosofia a divergência, a dissonância, e a filosofia aquela bússola que leva à poesia as ruas onde estão as esquinas.

Se Natália Correia e o Torga pensavam nisto, não sei, mas também já pouco importa; mais importante é a subversão das vontades tranquilas, para impedir a fossilização do pensamento.

Digo barbaridades? É possível.

11-12-2002