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O absurdo da condição humanaPedro Maciel
A. Camus O Exílio e o Reino, é o último livro de ficção publicado por Albert Camus (1913-1960) e o único livro de contos. Não se sabe se o autor continuaria a escrever narrativas curtas. A Queda (1956) era um dos textos que deveria fazer parte da coletânea, mas Camus acabou transformando-o em um romance. Ao comentar o livro O Estrangeiro (1957), Jean-Paul Sartre diz que Camus jamais se valeria da mesma técnica narrativa que empregara naquele romance. Uma das características de Camus é que ele se renova a cada livro. O Exílio e o Reino que tem o Brasil por cenário, é a prova da variedade estilística do autor. O exílio fala da solidão do estrangeiro, de sua marginalização e "recusa à representação de um papel que a sociedade lhe atribui", enquanto o reino é o paraíso da história particular, universal, lugar onde o homem encontra a suposta felicidade. A coletânea (seis contos) é uma síntese da obra camusiana. O narrador explora os temas que sempre o atormentaram, como a solidão e o destino do homem diante do mundo indiferente, e o absurdo da condição humana. Através do "absurdo" o autor decifra o verdadeiro sentido da vida. Mas a vida, segundo Camus, será vivida melhor ainda se não tiver sentido. Certa vez o próprio Camus contestou sua condição de escritor do absurdo ao perguntar: "Que fiz mais, entretanto, senão raciocinar sobre uma idéia que encontrei nas ruas de minha época? Que haja alimentado essa idéia (e que uma parte de mim a alimente sempre), com toda a minha geração, isso é evidente por si. Mantive simplesmente diante dela a distância necessária para dela tratar e decidir de sua lógica. Tudo o que pude escrever depois mostra-o suficientemente. Mas é cômodo explorar uma fórmula de preferência a um matiz. Escolheram a fórmula: eis-me absurdo como antes". O absurdo em Camus é apenas o princípio do método, ponto de partida para narrar as desventuras do homem do século XX. Ao receber o prêmio Nobel, Camus declarou que "o escritor não pode se colocar a serviço daqueles que fazem a História; ele está a serviço daqueles que a sofrem". Nascido na Argélia, num mundo de pobreza e luz, o escritor franco-argelino cresceu sob o fogo cruzado da primeira guerra, e desde então, a história não cessou de ser violência ou injustiça.
Camus recebeu a luz do Mediterrâneo como uma dádiva do céu, expressa numa escrita clássica, pronta para revelar o homem em sua plena consciência, o homem não mais como um mero habitante do mundo, mas um habitante consciente de ser-no-mundo. O ser do homem que o torna o ser sobre-a-terra. O ser que se depara com a sua própria liberdade. Este é o ponto central do pensamento camusiano e de toda a filosofia existencialista. A obra de Camus continua a ser uma exemplar manifestação da consciência crítica deste século. Uma espécie de testamento do mundo contemporâneo. Marca o início do declínio da literatura moderna, que teve precursores, mestres como Proust, Dostoievski ou Kafka. Logo viria a literatura pós-moderna, caricatura de uma época perversa e "Kitsch".
04-06-2003 |
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