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A eternidade nos labirintos de BorgesPedro Maciel
No plano espiritual o autor de Ficções é discípulo de Chesterton, Wells, Poe, Conrad, Kafka, Stevenson, Kipling, entre outros. É comum também considerá-lo como um bruxo que habitou a torre de Babel (o universo) para investigar os mistérios do Livro da Criação. O livro "Esse Ofício do Verso", organizado por Calim-Andrei Mihailescu, reúne seis palestras consideradas perdidas pelos seus biógrafos. Esses testemunhos foram proferidos na Universidade de Harvard no Outono de 1967. Borges trata de vários temas, como os enigmas da poesia, a metáfora, o narrar de uma história, a tradução, etc. Proferiu essas palestras sem a ajuda de notas, já que a sua visão o impossibilitava de ler. Nelas, exalta os seus antepassados, os seus sonhos; dialoga com Homero, Virgílio, o Alcorão, a Bíblia e discute com os seus autores preferidos como Cervantes, Shakespeare, Keats, Poe e Whitman.
Adepto da ficção absurdamente elaborada. De estilo imprevisível; alterna humor, erudição, deslumbramento e ironia. Sobre a construção de sua estética, Borges anota no prólogo do livro "Elogio da Sombra" que "não sou possuidor de nenhuma estética. O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras assombradas; intercalar em um relato traços circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; narrar os fatos (isto aprendi em Kipling e nas sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do mais, descreio das estéticas. Em geral, não passam de abstrações inúteis..." Estudioso do mundo metafísico, "dos mortos que perduram em mim", da linguagem, das instituições, da pátria, do tempo, dos seres imaginários, do sonho dos heróis, da perplexidade do homem moderno, da vida que provavelmente sucede a morte. No poema "O Nosso", o autor argentino revela alguns temas que o perseguiram por toda vida: "Amamos o que não conhecemos, o já perdido./ O bairro que foi arredores./ Os antigos que não nos decepcionarão mais/ porque são mito e esplendor./ Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler./ A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote./ O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro./ Os mais velhos, com quem não conseguiríamos/ conversar durante um quarto de hora./ As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido./ Os idiomas que mal deciframos./ Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito./ Os amigos que não podem faltar porque já morreram./ O ilimitado nome de Shakespeare./ A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa./ O xadrez e a álgebra, que não sei." Quase tudo já se falou do escritor que conta/canta a história da eternidade. Do ensaísta que se transforma em contista, do historiador que recupera o memorialista, do biógrafo que inventa o ficcionista, do poeta que sucede ao lingüista. Também já se falou muito do Borges como narrador e personagem de suas histórias. Mas é o próprio Borges, autor do texto "Borges e Eu", incluído em "O Fazedor", que narra para o leitor os dois Borges fundamentais: "Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei que imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página". Borges decifra a identidade do Eu através dele mesmo, no momento em que ele "sabe para sempre quem é". O outro, o duplo, o infinito, o espelho, o reflexo, a reflexão, fazem parte de um jogo enigmático e que pode revelar a linguagem contida na enciclopédia borgeana. O autor de "Biblioteca Pessoal" criou textos/variações sobre o mesmo tema para recuperar a idéia do "outro"; ele enxergou o seu outro, que é o seu eu. Na obra de Borges, os espelhos são abomináveis, "porque multiplicam o número de homens", refletem o inferno, os crepúsculos, o não-lugar, "a hora sem metáfora", os labirintos, os tigres, "a dispersão do sono e dos sonhos", a misteriosa vida humana. Borges releu a biblioteca da humanidade com o objetivo de confirmar a inexistência do conceito de originalidade e, talvez, verificar que "os grandes versos da humanidade não foram ainda escritos. Essa é a imperfeição de que alegra-se nossa esperança". 15-03-2003 |
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