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Era
Semana Maior, o silêncio tolhia a cidade em orações
sibiladas em baixos murmúrios, no luto da agonia do Senhor. Os
sinos vigiavam imóveis o ranger arrastado e choroso das matracas
que, desde manhã, exortavam arrependimentos, chamavam pecadores
em apelos de conversão.
Arrumavam-se os baralhos, os bilhares eram fechados,
calava-se o cantar do quino. Era sacrilégio o jogo!
O dia desde o alvorecer que franzia o sobrolho e, beiço
carregado, pintava rostos carrancudos que, como fantasmas em lençol
preto, circulavam no abafo emudecido absorvido pela urbe. O tempo era
de oração, e o corpo seco de quarenta dias de jejum, deixava
os labores para percorrer contas de rosários.
Desde o meio-dia que as ruas ficavam sós, o comércio
com alguma timidez ou pudor reservava-se semi-fechado, a cidade parava.
Início da tarde, batiam matracas nas torres. Fatos
pretos sarapintavam as ruas, alternados de mantilhas que apressavam o
passo até às igrejas. Em cada uma sua "estação"
e, no fim de sete percorridas, já quase ao anoitecer, assistia-se
ajoelhado, nos altares laterais da Sé, ao ofício das Trevas.
É Semana Maior, o trânsito espalha-se em
mancha por todas as artérias da cidade. Os passeios vão
cheios e indiferentes numa dança de cruzar de sacos com modas e
novidades. As bandeiras roxas de cruzes douradas vão lembrando
que é Quaresma. Turistas debruçam flashes sobre a Arcada,
passeiam na rua do Souto, espreitam um ou outro canto lavado em arte,
repousam no Jardim de Santa Bárbara, pasmam a imponente Sé.
Os sinos não tocam, mas só alguns dão
por isso. As matracas ressoam acanhadas de longe a longe rugidos rouquenhos
sufocados pelo movimento nevrótico da cidade. O burgo vai cheio
e atarefado.
"Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com
muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu
a melhor parte, que lhe não será tirada" (Lc 10,41-42).
Marias saltitam entre a Sé, Igrejas do Hospital,
Santa Cruz, Terceiros, Salvador, Penha e Conceição recordando
as sete estações de Roma. Os panos roxos adensam a dor das
representações dos passos em templos despidos. Orações
cruzam-se com confissões, ritmadas pelo barulho miúdo de
um constante entrar e sair de altos e baixos vultos, redondos e estreitos,
coloridos e negros de luto pelo Senhor.
Chegava a noite, portadas de janelas e varandas abriam-se.
Ao fundo a escuridão rasgava-se em balanço pelas labaredas
dos fogaréus. Entre risadas, gritos e assobios, farricocos atiravam
calúnias, mexericos, infâmias, verdades denunciadas às
gentes das casas. Faces empalideciam constrangidas e, sem escrúpulos,
destemido, seguia o "pelourinho andante das mais escondidas vergonhas".
Atrás vinha a procissão, lenta e silenciosa,
compassada pelo palrar dos ruge-ruges. Passava o andor de Cristo flagelado,
entre odores de incenso queimado e o gemido miserere, batiam mãos
contra o peito, ouviam-se soluçares de arrependimento, lágrimas
escorriam...
Cerra a noite, aligeira-se o passo à procura de
um bom lugar. As ruas vão cheias, mas as varandas poucas são
as que se abrem, pois ninguém as habita. Rapaziada eufórica,
pela autorização de sair até tarde, enverga a melhor
fatiota e espreita gulosamente as miúdas. O cheiro quente a farturas
e pipocas lembra os dias de festa, e os balões coloridos no meio
da rua com formas para todos os gostos anunciam que a procissão
está a chegar.
A música solene carregada, o ar sombrio dos farricocos
calam mais de espanto que de medo a multidão. O respeito aguenta
uma atmosfera densa durante cinco minutos. Novamente, vultos se agitam
e acossam-se no aperto, um ciciar constante brame em todas as frentes,
orações e devoções mesclam-se com piropos
desafinados.
Passam os anjos com vestes celestiais! Seguem leves criaturas,
de fatos feitos por medida, oferecidos pela mãe ou madrinha, de
mão dada ou sós, firmes no seu dever, alegrando a procissão
numa inocência angelical. Os quadros repetem-se sem conta, em descuidada
arrumação: uma dúzia de S. João Baptistas,
soldados para uma legião romana, outras tantas Virgens Marias
Mas que fazer ao pupilo "repetido"? Não disse Cristo:
"Deixai vir a Mim as criancinhas; não as afasteis, pois
elas pertencem ao reino de Deus"(Mc 10,13).
Cerimónia acabada, dispersam-se as pessoas, enchem
de novo os cafés...
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