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Era Semana Maior...


Fotografias de Pedro Guimarães - Texto de Miguel Freitas

 

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Era Semana Maior, o silêncio tolhia a cidade em orações sibiladas em baixos murmúrios, no luto da agonia do Senhor. Os sinos vigiavam imóveis o ranger arrastado e choroso das matracas que, desde manhã, exortavam arrependimentos, chamavam pecadores em apelos de conversão.

Arrumavam-se os baralhos, os bilhares eram fechados, calava-se o cantar do quino. Era sacrilégio o jogo!

O dia desde o alvorecer que franzia o sobrolho e, beiço carregado, pintava rostos carrancudos que, como fantasmas em lençol preto, circulavam no abafo emudecido absorvido pela urbe. O tempo era de oração, e o corpo seco de quarenta dias de jejum, deixava os labores para percorrer contas de rosários.

Desde o meio-dia que as ruas ficavam sós, o comércio com alguma timidez ou pudor reservava-se semi-fechado, a cidade parava.

Início da tarde, batiam matracas nas torres. Fatos pretos sarapintavam as ruas, alternados de mantilhas que apressavam o passo até às igrejas. Em cada uma sua "estação" e, no fim de sete percorridas, já quase ao anoitecer, assistia-se ajoelhado, nos altares laterais da Sé, ao ofício das Trevas.

É Semana Maior, o trânsito espalha-se em mancha por todas as artérias da cidade. Os passeios vão cheios e indiferentes numa dança de cruzar de sacos com modas e novidades. As bandeiras roxas de cruzes douradas vão lembrando que é Quaresma. Turistas debruçam flashes sobre a Arcada, passeiam na rua do Souto, espreitam um ou outro canto lavado em arte, repousam no Jardim de Santa Bárbara, pasmam a imponente Sé.

Os sinos não tocam, mas só alguns dão por isso. As matracas ressoam acanhadas de longe a longe rugidos rouquenhos sufocados pelo movimento nevrótico da cidade. O burgo vai cheio e atarefado.

"Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada" (Lc 10,41-42).

Marias saltitam entre a Sé, Igrejas do Hospital, Santa Cruz, Terceiros, Salvador, Penha e Conceição recordando as sete estações de Roma. Os panos roxos adensam a dor das representações dos passos em templos despidos. Orações cruzam-se com confissões, ritmadas pelo barulho miúdo de um constante entrar e sair de altos e baixos vultos, redondos e estreitos, coloridos e negros de luto pelo Senhor.

Chegava a noite, portadas de janelas e varandas abriam-se. Ao fundo a escuridão rasgava-se em balanço pelas labaredas dos fogaréus. Entre risadas, gritos e assobios, farricocos atiravam calúnias, mexericos, infâmias, verdades denunciadas às gentes das casas. Faces empalideciam constrangidas e, sem escrúpulos, destemido, seguia o "pelourinho andante das mais escondidas vergonhas".

Atrás vinha a procissão, lenta e silenciosa, compassada pelo palrar dos ruge-ruges. Passava o andor de Cristo flagelado, entre odores de incenso queimado e o gemido miserere, batiam mãos contra o peito, ouviam-se soluçares de arrependimento, lágrimas escorriam...

Cerra a noite, aligeira-se o passo à procura de um bom lugar. As ruas vão cheias, mas as varandas poucas são as que se abrem, pois ninguém as habita. Rapaziada eufórica, pela autorização de sair até tarde, enverga a melhor fatiota e espreita gulosamente as miúdas. O cheiro quente a farturas e pipocas lembra os dias de festa, e os balões coloridos no meio da rua com formas para todos os gostos anunciam que a procissão está a chegar.

A música solene carregada, o ar sombrio dos farricocos calam mais de espanto que de medo a multidão. O respeito aguenta uma atmosfera densa durante cinco minutos. Novamente, vultos se agitam e acossam-se no aperto, um ciciar constante brame em todas as frentes, orações e devoções mesclam-se com piropos desafinados.

Passam os anjos com vestes celestiais! Seguem leves criaturas, de fatos feitos por medida, oferecidos pela mãe ou madrinha, de mão dada ou sós, firmes no seu dever, alegrando a procissão numa inocência angelical. Os quadros repetem-se sem conta, em descuidada arrumação: uma dúzia de S. João Baptistas, soldados para uma legião romana, outras tantas Virgens Marias… Mas que fazer ao pupilo "repetido"? Não disse Cristo: "Deixai vir a Mim as criancinhas; não as afasteis, pois elas pertencem ao reino de Deus"(Mc 10,13).

Cerimónia acabada, dispersam-se as pessoas, enchem de novo os cafés...

Pedro Guimarães © 2003
http://pedroguimaraes.cjb.net

 


Maio 2003