Desse Pão eu Não Como!

Mário Maestri e Robert Ponge

Benjamin Péret nasceu em 1899 na França, onde morreu em 1959, após vida atribulada que o levou a cruzar o Atlântico por três vezes, duas em direção ao Brasil. Poeta, surrealista e marxista, realizou leitura revolucionária do passado do Brasil que se mantém semi-ignorada da intelectualidade brasileira.

  Benjamin Péret
O quilombo dos Palmares
Org., ensaios e comentários de M. Maestri e R. Ponge
Porto Alegre, EdiUFRGS,
2002

Jovem rebelde de família modesta, em 1917 foi enviado pela mãe ao Exército, vivendo enojado a conclusão da hecatombe mundial. Atraído pela poesia, após a guerra, ligou-se aos poetas franceses de vanguarda, entre eles Louis Aragon e André Breton, participando da radicalização estético-política em curso na França. Em 1925, já surrealistas, ele e seus companheiros denunciaram o colonialismo francês no Marrocos, entrando em 1926-7 no Partido Comunista Francês. Em 1927, conheceu e casou-se com a cantora lírica brasileira Elsie Houston, cunhada do jovem comunista Mário Pedrosa.

Em 1928, os surrealistas denunciaram a burocratização da URSS, mantendo-se comunistas. Péret foi mais longe, ligando-se à Oposição Internacional de Esquerda, impulsionada por León Trotsky, expulso da URSS, em Fevereiro de 1929.

   

O NOVO MUNDO

Os surrealistas rejeitavam a reificação capitalista da sociedade e definiam a civilização ocidental como mundo sem poesia, mitos e sonhos, voltando-se esperançosos para a arte e a cultura dos povos primitivos da África, América e Oceania.

Em busca do frescor prometido pelo Novo Mundo, Péret e a esposa partiram para o Brasil, onde chegaram em inícios de 1929. Ali, Péret relacionou-se com os modernistas, militou na Liga Comunista Internacionalista [trotskista], estudou as artes populares e primitivas.

No Brasil, Péret publicou treze artigos sobre as religiões afro-brasileira; redigiu prefácio de livro sobre a revolta do encouraçado Potemkin; escreveu ensaio sobre a revolta dos marinheiros negros, em 1910.

Em Agosto de 1931, nasceu seu filho Geyser. Em Novembro, foi preso e deportado pela polícia política. Na ocasião, seu livro O almirante negro sobre a revolta da baía da Guanabara foi seqüestrado e completamente destruído pelos esbirros de Getúlio.

LUTANDO NA ESPANHA

Na Europa, Péret militou na seção francesa da Organização Internacional de Esquerda e, em 1936, na Espanha, arrolou-se nas milícias do POUM e, a seguir, nas filas anarquistas espanholas. Em Barcelona, conheceu a futura companheira, a pintora Remedios Varo. Em meados de 1937, retornou à França.

Mobilizado em 1939, foi encarcerado por agitação internacionalista. A debacle do exército francês permitiu que fugisse da prisão, se refugiasse em Marselha, embarcasse para o México, onde chegou em Janeiro de 1942.

No México, por seis anos, militou, escreveu e estudou a cultura pré-colombiana. Em 1946, com Natália Sedova, viúva de Trotsky, rompeu com a IV Internacional, mantendo-se fiel ao marxismo-revolucionário.

Em 1946, o comunista brasileiro Édison Carneiro publicava, no México, o livro O quilombo de Palmares, lançado no Brasil em 1947. As ligações de Péret com o Brasil sugerem que tenha lido o livro ainda no Novo Mundo.

PÉRET E PALMARES

Em inícios de 1948, Péret estava de volta à França. Com a saúde debilitada, trabalhava como revisor e atuava como intelectual e revolucionário. Em inícios de 1955, foi internado por problemas de saúde. Em Maio, partiu para o Brasil, a convite do filho.

Desembarcou em 7 de Junho no Rio de Janeiro e, dias mais tarde, anunciou que escreveria "um texto sobre a república negra de Palmares". Pronto em início de Setembro, o ensaio foi publicado na revista paulista Anhembi, em Abril e Maio de 1956.

Péret viajou ao Norte-Nordeste, ao Mato Grosso e à ilha do Bananal para estudar a arte nativa e popular. Ao preparar para partir para a França, foi preso pela polícia política, devido ao antigo mas válido decreto de expulsão, sendo libertado a seguir.

Péret chegou à França em inícios de 1959, falecendo no mesmo ano. Seus companheiros sintetizaram sua vida de rejeição à autoridade despótica e à passividade cúmplice ao mandarem gravar, em vermelho, sobre o granito frio de sua tumba: "Desse pão, eu não como".

HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Após a destruição de Palmares, em 1694, cronistas e historiadores lusitanos e brasileiros referiram-se aqueles sucessos, em geral sumariamente. Mesmo quando louvavam o heroísmo dos insurretos, propunham que a confederação fora ameaça à civilização no Brasil.

Em sua História geral do Brasil (1854-1857), Francisco Adolfo de Varnhagen dedicou breves parágrafos a Palmares e lamentou que não "houvesse um cronista" que perpetuasse a heróica ação dos "paulistas" na destruição do reduto negro.

Após a Abolição, em 1888, os quilombos e Palmares continuaram ocupando espaço mínimo nas preocupações dos cientistas sociais nacionais. A exceção à regra foi o médico e cientista social mulato maranhense Nina Rodrigues, radicado na Bahia.

Em 1905, em "A Tróia Negra: erros e lacunas da história de Palmares", definiu a confederação palmarina como persistência da cultura africana. Defensor do racismo científico, saudou a destruição de Palmares.

ESCRAVIZADOS E ESCRAVIZADORES

Em 1933, em Evolução política do Brasil, Caio Prado Júnior prometeu ler a história do Brasil a partir do materialismo histórico, mas não a analisou desde a oposição escravizador-escravizado. Sob o influxo de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, de 1933, os estudos afro?brasileiros dos anos 1930 repetiram em geral as lições de Nina Rodrigues.

Em 1942, em A Aculturação negra no Brasil, Artur Ramos assinalou a presença de quilombos em diversas regiões e épocas do Brasil e definiu-os como fenômenos "africanos" e "contra?aculturativos". Em 1947, Édison Carneiro seguiu a caracterização de Rodrigues e Ramos no seu importante livro, mas negou-se a elogiar a destruição do reduto negro.

A interpretação culturalista expressava a negativa da apreensão do caráter escravista e da centralidade da oposição escravizador-escravizado no passado pré-1888. Via-se o quilombo como fenômeno cultural de origem africana e jamais como luta de classes sob a escravidão.

O impasse interpretativo surgia da definição do caráter semi-feudal do Brasil, que ancorava a proposta política da submissão dos trabalhadores à burguesia nacional, destinada a completar a revolução democrático-burguesa no Brasil.

O QUE FOI PALMARES?

Em "Que foi o quilombo de Palmares?", Péret apoiou-se factualmente no livro de Carneiro, realizando verdadeira revolução copernicana na interpretação do passado do Brasil.

Péret preocupou-se sobretudo com duas questões: o sentido da luta dos cativos e a caracterização da organização palmarina, que abordava a partir do princípio da necessária determinação tendencial da forma de governo pela base material.

Péret corrigiu a definição de Carneiro da fuga como "ato negativo"; criticou a explicação da origem africana do Estado palmarino; propôs periodização aproximativa da "evolução" de Palmares a partir de deduções lógicas e reflexões metodológicas.

Vimos que mesmo os historiadores cativados pelo heroísmo de Palmares aplaudiam a sua destruição e que Édison Carneiro apresentou Palmares como saga popular e negou-se a celebrar seu fim.

DE PERNAS PARA O AR

Péret pôs o mundo de pernas para o ar. Negou a possibilidade do desenvolvimento de Palmares no seio da formação escravista, em crítica à proposta stalinistas da construção do socialismo em países isolados. Lembrou que, para sobreviver, deveria ter arrastado "todos os negros" à luta contra a "escravatura".

Apesar disso, para Péret, sequer a improvável revolta servil geral em Pernambuco-Alagoas teria vencido, devido à imensa desigualdade de forças entre Palmares e Portugal-Holanda, pontas de lança da Europa nessas regiões da América.

Porém, assinalou que, mesmo vencida, a luta geral contra o escravismo aceleraria "a emancipação dos escravos", apressando "grandemente a abolição da escravatura", o principal entrave ao progresso no Brasil.

Era radicalmente nova a definição de Péret da oposição inconciliável entre cativos e escravistas, do caráter escravista do passado brasileiro, da destruição da ordem negreira como necessária ao progresso da civilização no Brasil.

DE VOLTA AO BRASIL

Apesar de conhecido, o ensaio de Péret permaneceu semi-ignorado. Na época, o movimento social não possuía força suficiente para assegurar que seu radical revisionismo entranhasse raízes nas ciências sociais brasileiras, ensejando trabalhos que lhe dessem continuidade.

O ensaio de Péret foi reeditado, em português, em 1988, quando das multitudinárias celebrações do I Centenário da Abolição da Escravatura no Brasil, não no Brasil, mas em Portugal, sob a iniciativa de Ruy Coelho.

A presente reedição do ensaio de Benjamin Péret - O quilombo dos Palmares -, pela editora da UFRGS, objetiva permitir difundir essa interpretação histórica de nosso passado e que o intelectual militante francês lance, outra vez, seu olhar penetrante sobre um país que tanto amou.

  24-01-2003