Atlântico

Maria João Cantinho


Pedro Rosa Mendes
e João Francisco Vilhena
Atlântico
editora Temas e Debates
Lisboa, 2003


“(…) As minhas raízes são resistentes. Exigem pouco do solo. Nasci no deserto. A minha terra é onde me deixarem ser.” (p. 75)


 

Dando corpo a uma ideia original, Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena escreveram Atlântico a quatro mãos. Melhor dizendo, Pedro Rosa Mendes é o autor do texto e João Francisco Vilhena da montagem fotográfica. Este romance fotográfico nasce da (e mantém) autonomia dos domínios da fotografia e do texto, que nunca deixa que um ou outro resvalem para uma função ilustrativa. E o resultado é admirável e ousaria, mesmo, usar a palavra sublime, quando me refiro a diálogos como os de “Jesús com o Fogo”, na trama que Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena criaram para o seu texto, funcionando como um dispositivo inteligente e estimulante desafio à imaginação do leitor. Os vários substractos em que assentam os diálogos e as versões narrativas, assinalando uma profundidade (que, na maioria dos casos, revela a personagem pela sobreposição das múltiplas versões) que caminha da ordem da subjectividade para uma visão objectiva das mesmas, garantem uma coesão e uma consistência, nunca deixando o leitor desamparado, e tecendo um jogo constante - numa composição que quase se poderia designar por cubista, pela diferenciação dos prismas através dos quais cada uma das personagens é observada e vista - entre o autor e o leitor.

O romance, pela sua complexidade de referenciais, convoca o leitor para o encontro, agarrando-o, tanto pelo lado romântico e nostálgico das suas personagens - desamparadas, delirantes, angustiadas e, sobretudo, fulgurantes, nessa circunstância de serem o “último homem” - como pela intrínseca visão objectiva. Por detrás deste romantismo, assola-nos a angústia e o desespero kierkegaardiano e nietszchiano, no seu lado mais extremado, onde não há espaço para o criador, mas apenas para o homem “morto” que já perdeu a fé em Deus e na transcendência, a esperança redentora, olhando o mar como a única saída possível da sua solidão. Cada uma dessas personagens encontra-se entregue a si própria. O Atlântico é fonte e magma dos seus sonhos e faz nascer nelas esse desejo de infinitude e, sobretudo, representa a abertura possível para a liberdade. Por isso, Atlântico, ao reunir essas personagens destroçadas, é em si o apelo à viagem e a própria (a possível) viagem. A única lei deste universo é a de um exílio permanente, num constante apelo aos fantasmas do passado, aos fragmentos das suas vidas e o desejo de libertação, pela ideia de uma eminente partida. E essa viagem, repetindo o seu arquétipo, é feita mediante a sua imaginação e memória, solitáriamente, pelo inferno que cada um transporta consigo, enquanto sobrevivente: “A viagem sou um.” (v. p. 7).

O lugar do exílio é esse hotel, de sugestivo nome: Éden Palace, que mudou para Hotel do Facho, em 1964. Numa praia portuguesa e num cenário mítico, numa atmosfera sonâmbúlica, cruzam-se e encontram-se personagens, todos eles possuindo como legado comum o serem náufragos. Vieram de sítios diversos e possuem vidas múltiplas, vindo desembocar no Éden Palace, onde se truncam as suas vidas e histórias, como se assistíssemos ( e esse é igualmente um dos aspectos interessantíssimos do livro) a um filme mudo, de personagens tocadas pela tragédia que neles se inscreve.

E o que neles há de trágico é o que confina com o íntimo conhecimento da morte e da vanidade da vida, da consciência do tempo, obsessões que se apresentam fundamentalmente nos diálogos de Sylvain, de Jesús. Conhecem o mundo no que contém de essencial: “A carne, a cinza e a areia”, constituindo esses elementos, por sua vez, metáforas que encontram o seu correlato na vida, na morte e no tempo. Em comum, essas personagens amam o mar, no limite entre a vida e o sonho. O Atlântico é o ilimitado e o sinal, expressão sublime de uma beleza sem tréguas, derradeira e absoluta. Poderíamos aí evocar a figura de Asenbach, no momento último da sua vida, diante do mar, olhando Tadzio, que lhe aponta o caminho.

São eles um judeu argelino, Sylvain, a flor do deserto, um marinheiro filipino, Jesús, um inglês, Colyn Wallace Davis, uma refugiada norueguesa, Ingrid, e um agente da PIDE. Surgem e encontram-se, carregando consigo o seu fardo. Em Atlântico sentimo-los reais, mas igualmente próximos das personagens de Ibsen, do cinema expressionista de Murnau, das personagens de Maeterlinck, devoradas pelo medo e pelos seus próprios fantasmas emergindo do sonho e da memória. Conheceram o Holocausto Nazi, os cenários apocalípticos de Londres bombardeada, as auroras boreais, os piratas de Bornéu, as telas de Bruegel e de Van Gogh. Vivem como se fossem, elas próprias, personagens de filmes e reinventam-se nas suas histórias, imaginando as palavras de Deus.

As fotografias admiráveis de João Francisco Vilhena empurram o leitor para o interior da magia deste universo complexo e emaranhado de vidas, tecidas pela memória ferida e pelas cicatrizes escritas. Campos de futebol na praia, onde a vida parece ter sido suspensa e apenas houvesse a dimensão de uma imaterial temporalidade, pedaços de fotografias, registos de livros de hóspedes, figuras, rostos, olhares onde paira a ternura ou o desamparo, fragmentos de uma beleza avassaladora, são os registos impressionantes do seu olhar, de uma sensibilidade atenta ao pormenor, à vida íntima, ao saber que as coisas calam em si. Jogos de luz e sombra, fotografias de pegadas, mostrando o modo como a memória do andar se inscreve tão subtilmente nelas, a beleza estonteante de Florence Marly.

O texto de Pedro Rosa Mendes e a montagem fotográfica de João Francisco Vilhena são bem mais que um romance fotográfico, no sentido em que convocam o leitor para a partilha de um encontro entre cinema, música, literatura, fotografia, pintura, mitologia, jornalismo e investigação, num registo que mantém sempre o seu nível de excelência e bom gosto, apesar do arrojo, da originalidade e ousadia dos seus autores. Sai-se da sua leitura com a memória das suas palavras e o olhar contaminado da sua beleza, como quando se lê: “Escrever é um vício. Ouvir é uma porta da paixão. Descobrimos a beleza mais violenta nas palavras. Sobrevivemos com elas e elas sobreviveram-nos. São mais resistentes que nós.” Porque todos sabemos que da vida ficará o pó e a cinza, as inscrições do sol na cinza insinuam belas mariposas, entretecendo a literatura e a arte, tal como o poeta Amagatsu nos lembra, desde logo, na epígrafe com que os autores dão início à sua viagem pelo Atlântico.

 


23-06-2003