| ARTES ENVIE DEBATA | ![]() |
||
| À conversa com Floriano Martins
FM A idéia de obra deve ser questionada sempre quando a mesma está em curso. Considerando que a infância acaba definindo os passos futuros, a minha foi povoada por esse ecletismo que mencionas. Meus pais gostavam muito de música, standards da canção brasileira e estadunidense, ouviam Dolores Duran e Nat King Cole, Lupicínio Rodrigues e Cole Porter. Meu pai tinha uma biblioteca cuja diversidade beirava o caos: da obra completa de José de Alencar, Dostoievski, Shakespeare, até coleções inteiras de gibis do western italiano e manuais de construção de aviões de guerra. Eu lia muito teatro e romance, muito mais do que poemas. Além disto havia uma identificação intensa com a música e as artes plásticas. Se pensarmos em minha poesia, podemos localizar ali um hibridismo que envolve teatro, plástica e música. Confesso um tesão imenso por escrever algo para teatro. Quando se fala em Surrealismo, comete-se quase sempre o erro de vê-lo circunscrito ao âmbito parisiense nos anos 20 do século passado. O que lhe antecede faz parte de sua história, da mesma maneira como se desdobra sobretudo em todo espírito de contestação. Exatamente por aí começa a minha identificação. Li Bataille e Artaud bem antes de Breton. Entre infância e adolescência, percorria com voracidade os meandros de tudo aquilo pelo qual Breton tinha apreço algum: o romance, a música, o abstracionismo, a pop art, Salvador Dalí, os beatniks. Cheguei ao Surrealismo justamente pelas mãos desse ecletismo e pelo sentido ulterior de revolta, de recusa intensa ao lugar-comum em que ancoramos nossa existência. MJC Falamos de iconoclastia, então? De arte e literatura como subversão? É desse modo que entendes o campo das artes e da literatura? FM Bem, por vezes quem pousa de iconoclasta pode não passar de um dândi. Para uma tradição lírica brasileira, que perde a entrada na modernidade ao contentar-se com os poemas-piada de Oswald de Andrade, e logo em seguida revela-se cultora lúdica de trocadilhos, é bom grafar bem esse dândi, para que não seja confundido com Dante. Nem cabe rir, pois fazemos isso a toda hora: confundir a essência do riso com seu mero efeito pirotécnico. Subversão como método ou capricho? Não vejo como a arte possa não ser subversiva. Rigorosamente é sua única razão de ser. MJC E em que medida o universo das artes plásticas, da música, etc., te convoca para a escrita? São formas de convergência ou o contrário? FM São um feixe de radiação, digamos. Creio que poderia pintar ou tocar um instrumento, porém me atrai mais o abismo da escrita. O fascínio ante o insondável, contudo, é o mesmo. E quando estou diante de um Antonio Bandeira ou escuto um Keith Jarrett não faço distinção entre todos nós, no sentido tradicional de que um é pintor, o outro músico e o outro poeta, percebes? Acho que somos guiados pela voragem, o extremo, o insustentável. A princípio me atraiu mais a música, tanto que buscava na percussão uma forma de expressão. Isto se explica pelo fato de que, na adolescência, eu convivia mais com músicos do que com poetas. A opção pela poesia pode até soar como uma tendência suicida, sendo ela a menos evidente de todas as artes. É uma espécie de propensão à obscuridade. Só se chega à poesia por engano ou perversão? Disputar um pódio invisível na condição de poeta me parece o ápice da depravação. E todos os tempos se dão em nome de uma moralidade que não vem ao caso, afinal o que justifica o ringue é apenas um domínio de egos. Enfim, com tanta gente disputando a tapa essa condição começo a me sentir tentado a voltar para minhas congas e atabaques (risos). MJC Mas essa tendência, ou melhor, essa tentação de que falas, de voltar o olhar para a música ou para a pintura, não coincide com a veemência da negação da literatura como ideal, que tantos autores contemporâneos defenderam? Não te reconheces neles? FM Não, não. O ideal não se realiza em si mesmo, requer parceria sempre. Não pode ser responsabilizado a sós por nada. É muito comum o abismo entre o que aspiramos e realizamos. É bom que seja. Se pensarmos na literatura como uma circunstância burocrática, a carreira das letras, então vale a negação a que te referes. Trata-se de manejo de conceitos. Na verdade não há porque afastarmos a vida do que escrevemos ou pintamos ou Reconhecer-se em alguém é uma presunção, apenas. MJC Mas não podes negar a tua pertença a certas famílias e certos autores: Sade, Artaud, etc. Nem podes ficar ingenuamente a dizer que não te reconheces FM Pontos de identificação, sim. Não se trata de ingenuidade, mas antes de certa recusa aos lugares-comuns da presunção. Pode-se falar em Sade, por haver sido leitura de cabeceira na adolescência, sim. Eu tive acesso imediato à edição portuguesa de Os 120 dias de Sodoma na tradução de Manuel João Gomes. Este livro exerceu imenso fascínio sobre mim, por sua entranhável devoção ao excesso, ao transbordamento dilacerante, trágico. Há uma máxima de Sade com a qual me identifico plenamente e que me põe, em definitivo, na contra-mão da tradição lírica brasileira: "só os tolos se contêm". Mais do que Artaud, é possível remetermo-nos a Bataille, pois também foi de grande peso a leitura de Le coupable/L'Alléluiah. Eu lia fascinado o Catecismo de Dianus, com sua idéia de correspondência entre rosto manifesto e rosto oculto. Bataille foi o primeiro a me alertar para o fato de que "a pior impotência é a seriedade completa". Artaud foi leitura posterior. Na verdade, não havia disciplina alguma - exceto a da voracidade - nas primeiras leituras. Além do que vivi uma época afastado do diálogo livresco - envolvido com terreiros de Umbanda e Quimbanda. Ao retornar - com vida, por sorte - dessa experiência, é que fui, aos poucos, criando uma disciplina de leitura, o que coincidiu com meu despertar para a poesia hispano-americana. Mas tens razão, há essa pertença a uma família, sim, onde cabe falar tanto de um Sade como do brasileiro Roberto Piva, de Artaud ou do venezuelano Ramos Sucre. MJC E a relação arte e vida? Como a entendes? Sei que é um tema a que não podes fugir, pela convivência quase diária que tens com o surrealismo. FM Olha, eu não vejo distinção alguma entre o que faço e o que sou. A volúpia que irradia de meus versos é a mesma minha: a inquietude diante do abismo da existência. O fato de querer abarcar o mundo com as pernas, ao escrever poemas, ensaios, dirigir revista, traduzir livros etc., isto faz parte de minha natureza. Padeço dessa voragem. Isto nada tem que ver isoladamente com o Surrealismo. Evidente que ele chamou uma atenção especial sobre a necessidade do homem compreender a si mesmo e que a tríade poesia, amor e liberdade seria decisiva em tal busca. Minha convivência com o Surrealismo se dá em dois tempos, o da afinidade posta em prática e o da recuperação de um acervo oculto que chega inclusive a impedir uma leitura crítica menos apaixonada a respeito do tema. MJC Mas o surrealismo que te interessa estudar, esse acervo oculto, e dar a conhecer, nas tuas antologias e ensaios, não é o surrealismo que ficou circunscrito ao movimento francês e aos seus epígonos. Claro que me refiro ao surrealismo que se encontra pela América Latina. Queres falar disso? FM Evidente que interessa conversar sobre surrealismo parisiense dos anos 20, pois há muito a se falar a respeito e no Brasil ainda se desconhece o tema em grande parte, que acaba girando entre ortodoxia e preconceito, duas maneiras de se evitar o assunto. A história é o que somos. Nada a legitima, exceto a existência humana. Não há como negar o Surrealismo ou mesmo acrescentar-lhe importância além da conta. Não temos, no Brasil, edições da poesia de René Crevel, Robert Desnos, César Moro, René Daumal, Malcolm de Chazal, Jean Arp, Antonin Artaud, Georges Bataille. Graças a um empenho valioso do argentino Aldo Pellegrini, é possível conhecer parcialmente essa poesia, que tratou de traduzir para o espanhol. Os estudiosos brasileiros que se dedicaram ao assunto o fizeram pautados pela recriminação ou a louvação, mas esqueceram de mostrar o objeto em questão. Enfim, em termos de Brasil mesmo o surrealismo parisiense - evidente que o termo não agrada, mas ajuda ao menos a situar o ponto de que tratamos - pode ser entendido como acervo oculto. MJC Vamos então à América Latina? FM A América Latina é também um grande poço de contradições em relação ao Surrealismo. Em um primeiro mapeamento, o que se tem que fazer é mostrar o transparente, o visível. Temos aí as relações diretas, a exemplo de Aldo Pellegrini (Argentina), César Moro (Peru), Aimé Cesaire (Martinica), Enrique Gómez-Correa (Chile), Octavio Paz (México), Roland Giguère (Canadá), dentre outros. Logo descobrimos as relações indiretas, mas antes cabe aclarar que em muitos casos elas são indiretas apenas no sentido de uma recusa à ortodoxia. E um terceiro momento nos leva a observar os excessos de leitura dos raros críticos que se dedicaram à matéria. O que venho tentando fazer é correlacionar esses três momentos, observando-os com a clareza necessária. Em um volume de entrevistas a poetas latino-americanos (Escritura conquistada, 1998), levo os 24 entrevistados a manifestarem opinião a respeito e claramente percebemos que, mesmo sendo referência importante, não é única. Em antologia crítica que preparei (O Começo da Busca, 2001), observo a expressão legítima do Surrealismo na América Latina, não propriamente dissociando-a, no todo, da raiz parisiense mas alertando para suas peculiaridades. Agora começo a chegar mais perto do que desejo, com a publicação de uma antologia do surrealismo em todo o continente americano (Un nuevo continente, 2003). Pela primeira vez estarão reunidas as expressões poéticas envolvendo os quatro idiomas falados no continente: espanhol, inglês, português e francês. Já sei, vais me indagar pelo acervo oculto. Veja bem, não se trata de uma contenda. Somemos ao preconceito, à ortodoxia, ao historicismo e à desinformação, os interesses próprios, de cunho pessoal ou nacionalista. O Surrealismo recusava essas categorias todas, sim, mas elas foram utilizadas em inúmeras circunstâncias, para afirmar ou negar sua presença no continente americano. O que venho fazendo é tentar entender essas relações. MJC Não tens seguido um percurso tradicional e académico. Como tem sido recebido o teu trabalho no teu país? FM Talvez seja ainda cedo para se falar nisso. Aos poucos os livros começam a ser publicados e há boa recepção por parte da imprensa. Há que vencer o maior de todos os obstáculos, que é o largo silêncio ou descaso dado ao assunto. MJC Mas sei que a tua obra O Começo da Busca foi muito bem recebida pela Imprensa. E que preparas novas edições. Isso é o princípio de um interesse que começa a surgir para recuperar vozes poéticas que se encontravam marginalizadas? E porque é que isso aconteceu? FM Tens razão. O Começo da Busca teve uma boa recepção por parte da imprensa, no Brasil e mesmo em alguns outros países (Colômbia, México, Costa Rica, Uruguai). Tenho quase concluído um segundo volume, seqüência necessária para que se compreenda melhor o tema. Ao lado disto organizei a antologia Un Nuevo Continente, pelas Ediciones Andrómeda (Costa Rica), que será lançada agora em junho. Abre-se aí uma opção a mais, que inclui o conhecimento das relações com o Surrealismo havidas em países como Canadá e Haiti, por exemplo, pouco percebidas até então. No Brasil o desconhecimento é intenso. Mas já é possível relacionar algumas ações, a exemplo de um dossiê que preparamos, Maria Estela Guedes e eu, para o TriploV (Lisboa), com acesso também através da Agulha, que dirijo com o Claudio Willer. O próprio Willer tem contribuído com inúmeros ensaios valiosos a respeito. Outro exemplo é que o Surrealismo tenha entrado na pauta de um projeto da Academia Brasileira de Letras para este ano, uma série de conferências sobre principais escolas e movimentos literários ao longo dos tempos em sua relação direta com o Brasil. Caberá a mim a conferência sobre Surrealismo. Perguntas como isto se deu? Olha, ainda é cedo para se falar em planejamento editorial, por exemplo, ao mesmo tempo em que é inaceitável que tudo não passe de obra do acaso. Caminhamos no fio da navalha. MJC Quero tocar um aspecto importante e que é a tua actividade como editor da Agulha, em conjunto com Claudio Willer. A Agulha tem sido notável, como trabalho de divulgação e como ponte entre vários países, pois permite, ao mesmo tempo, dar a conhecer ensaístas, poetas e artistas plásticos que, de outro modo, ficariam circunscritos geograficamente. Como tem sido essa experiência e essa descoberta virtual? FM Outro dia eu estava com amigos em um concerto de um virtuose do bandolim e em pleno show quebra uma corda do instrumento. A vedete então pede a um dos músicos que o acompanhavam que sole um pouco, enquanto troca a corda. Assim é que tomamos contato com um jovem talentoso que dominava o cavaquinho como poucos. Ao fim do espetáculo brincava com amigos dizendo que arte é acidente. Em 1999, fui contratado para dirigir uma revista de cultura, com ousado projeto de grande circulação mensal em bancas em todo o país. Meu parceiro neste crime era o poeta Adriano Espínola. Chegamos a fazer o número inaugural, mas logo a empresa deu provas de má administração financeira e todo o projeto ruiu. Acontece que havíamos projetado, Adriano e eu, dois ou três números, e tínhamos já em mãos o material para tanto. O que fazer com isto? Este foi o acidente que permitiu a criação da Agulha. Naquela ocasião ninguém acreditava na viabilidade de uma revista virtual. Os primeiros 5 números da revista eram mesmo primários, em termos de desenho gráfico. E tateávamos no escuro sem saber como fazê-la circular. Foi quando comecei a montar um mailing, escrever a todos, solicitando listas de endereço. O Willer entrou logo em seguida e confirmamos uma afinidade bastante valiosa. Vale igualmente mencionar a presença do Soares Feitosa, do Jornal de Poesia, onde a Agulha está ancorada. Uma revista impressa tem uma limitação, é de circulação apenas interna. Posso trazer para o Brasil toda a cultura do mundo em uma revista impressa aqui, mas não tenho como fazer o processo inverso, levar essa cultura para o resto do mundo. Apenas a publicação virtual permite isto. Neste sentido, é muito mais eficaz. Além do mais, a Agulha busca sempre temas e abordagens não tomados por vícios acadêmicos e/ou de mídia. Sem falar no fato de que somos uns verdadeiros afortunados, Willer e eu, em relação ao elenco de colaboradores que temos. MJC E como convive a Agulha com as restantes revistas impressas? A Imprensa dá-lhe atenção? Ou existe ainda uma resistência face ao virtual? FM Nem sei se o termo chega exatamente a ser resistência. Creio que são dois mundos que seguem paralelos sem que se percebam. Mas vamos vencendo isto aos poucos. O endereço da Agulha já circula na imprensa, ao mesmo tempo em que criamos uma "Galeria de Revistas" onde entrevistamos diretores de publicações de cultura, virtual ou impressa, de várias partes do mundo. Sem falar que temos essa parceria com dois outros sítios importantes, o brasileiro Alô Música, e o português TriploV, o que torna ainda mais consistente nossa aventura editorial. MJC És um homem que faz da dispersão o modo de vida. Como tens conseguido conciliar a tua actividade de ensaista e editor com a de poeta? FM Indaga o personagem de um poema meu: "Quais vítimas ou mensageiros darão pela arte / o que ela presume ser a essência dessa vida?" Não há dispersão nem abismo entre os mundos que enumeras. A dispersão está em quem considera improvável a relação entre a letra e o sangue. Em um ensaio, editorial da Agulha, poema, conversa com amigos, collages, letras de canção, em qualquer parte, sou o mesmo agente provocador. E tudo se resume no mesmo sentido trágico da existência. Quem o encara de frente? MJC O poeta? Não é ele que mergulha a pique nesse sentido trágico? FM Claro que sim. Em meus primeiros 14 anos de idade convivi com um irmão mais jovem que era paralítico e cego. A única forma de comunicação com ele era através de sons. Evidente que isto acentua o sentido trágico a que me refiro, dá-lhe um corpo. E não é possível compreender a tragédia no outro se não a conhecemos no íntimo. Esta é a inquestionável derrota da poesia formalista - em larga escala praticada no Brasil -, um distanciamento burocrático entre o ser da poesia e o ser do poeta. Não quero dizer que a tragédia faz o poema, mas sim que prepara o poeta para um encontro consigo mesmo, olho d'água de onde brota toda poesia. MJC Encontro na tua poesia uma "inactualidade", no sentido nietszchiano, face ao que se está fazendo. Estarás de acordo comigo? FM Sendo a poesia a negação do tempo, nada poderia haver nela de atualidade. Sempre me fascinou aquela idéia do Bataille de uma mística sem Deus. Mas tenho observado que há um deus, sim, uma perversão mística, digamos. Quem a opera, me parece claro, não é nenhuma força divina - o termo aqui entendido no sentido de uma entidade apartada do homem. MJC Jamais se poderia falar de transcendência na tua obra? Que função têm as "figuras bíblicas" que aparecem na tua poesia, nomeadamente as mulheres? FM Não creio em transcendência sem sua correspondente imanência. A grande força da criação radica na alteridade, na descoberta do outro. Magia, acaso, coincidência, não importa o nome que se dê. As mulheres bíblicas que me visitaram em um largo poema intitulado Sombras Raptadas - que agora o planejo para teatro com o compositor Mário Montaut - são a manifestação dessa complementaridade traída. Visitam-me para requerer uma voz que anuncie que algo se partiu. Que não pode haver um mundo mágico no qual o feminino é força menos considerada que o masculino. Quanto à presença bíblica, não te parece que toda a raiz da criação seja bíblica? MJC Tens estado sempre envolvido em polémicas literárias no Brasil. Porquê? Que fantasmas procuras combater? FM Não parto do pressuposto da polêmica, embora esteja certo de que toda afirmação vertical gera desconforto em um meio habituado a guiar-se pela horizontalidade do pensar-se. Assim é o Brasil, um lugar onde o elogio assume conotações fantásticas, e onde a crítica só pode ser entendida como insulto. Há inúmeras distorções a serem combatidas e venho me manifestando a este respeito, o que ocasiona reações até esperadas. Não entendo por que vinculas o que chamo de exercício de discordância com a atuação implícita de algum fantasma coxo e maltratado. Sinto-me tão bem ao questionar o que venho questionando. MJC Mas essa discordância atinge posições bem consolidadas na poesia brasileira. Que espécie de poesia e literatura tens vindo a criticar? Que valores se escondem aí? FM Há uma dupla condição da qual discordo, e lamento sua consolidação. A primeira diz respeito a uma tradição essencialmente formalista onde o conteúdo acaba sendo dado como secundário. O segundo aspecto é de natureza ética, o comportamento nitidamente cartorial de nossos poetas, que negociam prestígio em pregões existenciais. O Modernismo fraudou uma relação com a modernidade em nome de um nacionalismo. A vanguarda que julgamos ser o Concretismo seguiu a mesma linha de ocultação ou deformação, desenhando um quadro de falsa relação com a contemporaneidade, baseado em interesses próprios que nem posso considerar como estéticos, porque é quando menos risível sua leitura por esse ângulo. O que veio depois, ainda que sendo diluição desses dois momentos, não altera em nada o perfil de uma tradição lírica completamente a reboque de um positivismo instalado em nossa cultura. Todos os nomes e circunstâncias que representaram algum perigo - vale salientar que o perigo é sempre filho dileto da paranóia - foram cuidadosamente riscados do mapa de nossa cultura. Observe-se ainda que a expressão popular foi duramente punida por essa literatura. Se na poesia o discurso é completamente esvaziado, na ficção quando não há desprezo pela expressão popular há apenas sua folclorização. Tememos essencialmente duas condições confluentes: o fogo íntimo, a busca do ser, a descoberta de si, a presença do eu em um sentido que não seja apenas a patética afirmação de um ego surdo em relação ao outro - e o contato com a expressão popular. Um medo pânico da existência, portanto. Nelson Rodrigues tinha uma frase fabulosa: dizia ele que o escritor brasileiro não sabe bater um escanteio. Inclua-se aí o candomblé, a gafieira, o chorinho, e demais aspectos que são de imensa importância para a formação de nossa cultura e que se encontram ausentes do mundanismo literário. MJC Mas essa "folclorização" de que falas não passa pelo desconhecimento que o próprio brasileiro tem da sua cultura, retendo apenas o aspecto mais superficial e mais preocupado certamente com os novos modelos importados dos EUA? Com que se preocupa o "mundanismo literário" do Brasil? FM É seu ponto nevrálgico. Assim como a literatura estadunidense cala, por exemplo, em relação ao genocídio cometido em relação à cultura indígena, aqui nós calamos acerca dessa expressão popular que mencionei. Mas veja, o desconhecimento de aspectos definidores de uma cultura não pode ser justificativa recorrida por artistas e intelectuais, pois cabe justamente a eles contribuir para a erradicação desse desconhecimento. Contudo, o que se vê é o contrário, há uma certa cumplicidade silenciosa em relação a essa deformidade, falando mais alto os benefícios próprios e imediatistas que são colhidos em seu transcurso. Os Estados Unidos não têm modelos culturais para exportar, exceto se pensarmos em McDonalds e Coca-Cola. Mas sim, exportam uma cultura do consumismo desenfreado, do esvaziamento reflexivo. Evidente que com a perda de referenciais próprios ficamos completamente à deriva, resultando nisto que chamo de mundanismo literário, onde reagimos mimeticamente a valores culturais alheios ou repetimos irrefletidamente fórmulas já de todo gastas. Tanto cabem aí as novelas que engasgam em uma linguagem truncada que mais se assemelham a rascunhos de roteiros cinematográficos, quanto uma poética que não consegue se desvencilhar da sombra do João Cabral e das tolices inconsistentes de um Oswald de Andrade. Imprensa e mundo editorial parecem integrar esse culto à banalidade e à irreflexão, o que dificulta em muito a vida daqueles que não rezam por essa cartilha. MJC Mas, curiosamente, e completamente ao invés desse "esvaziamento reflexivo", chegaram-nos autores a Portugal como Vicente Franz Cecim, João Paes Loureiro, Nicodemos Sena. Achas que esta atenção editorial pode reverter, de algum modo, a situação? Ou é um fenómeno isolado, apenas? FM Absolutamente isolado, o que não lhe tira o mérito, claro. Até porque não há um planejamento editorial que permita dupla via desse diálogo entre nossas culturas. O mesmo se dá em relação à América Hispânica, por mais que autores brasileiros sejam publicados por editoras mexicanas, venezuelanas ou argentinas. Acho que neste sentido de descobertas e diálogos as revistas de cultura desempenham papel muito mais consistente do que editoras, embora uma coisa não descarte a outra. MJC E da literatura portuguesa o que chega ao Brasil? Que vozes se impõem aí? Estás numa situação privilegiada de "ponte", que a Agulha permite, o que dá um conhecimento mais profundo do que se faz em Portugal. E tens trabalhado substancialmente nessa área de divulgação da nossa cultura FM Se tua menção implica em circulação por conta do mercado editorial brasileiro, o que se ventila entre nós da literatura portuguesa praticamente se resume à prosa de Saramago. Veja bem: no ano passado se publicou em Buenos Aires uma antologia bilíngüe de poetas brasileiros e portugueses, organizada por José Augusto Seabra. Trata-se de um inventário que abrange simbolistas e modernistas. A curiosidade maior é que o livro foi editado por uma editora brasileira, mas para circular no mercado argentino. E note-se ainda que a quase totalidade dos poetas portugueses ali incluídos não possui edição brasileira de suas obras. Outro exemplo é o esforço impressionante do espanhol Perfecto E. Cuadrado ao organizar uma antologia do surrealismo português. O livro foi editado em Portugal, e chama a atenção o fato de não ter sido iniciativa de um português mas sim de um espanhol. De outra maneira seguiria dispersa a rica trajetória do Surrealismo em teu país. Este livro bem poderia ser percebido por alguma editora brasileira. Temos então a circulação de autores em textos esparsos na imprensa, especificamente através de revistas de cultura. Na Agulha mesmo já publicamos nomes como João Barrento, Luís Miguel Nava, Almada Negreiros, Adolfo Casais Monteiro, Maria João Cantinho, Maria Estela Guedes, Casimiro de Brito, Herberto Helder, entre criadores e ensaístas, todos nomes que, houvesse um diálogo efetivo entre nossas culturas, já estariam amplamente editados no Brasil. Enfim, há uma mínima ponte, não resta dúvida. Mas insuficiente para caracterizar algo mais consistente. Há que ampliar esse diálogo, e para tanto têm contribuído, em uma margem e outra do Atlântico, publicações impressas e virtuais como Storm Magazine, ZonaNon, TriploV, Agulha, Rascunho, dentre outras. Lisboa, Fortaleza - Abril de 2003. 21-04-2003 |
|||