Janelas Verdes
Maria João Cantinho
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Murilo Mendes
Janelas Verdes
edições quasi
Famalicão, 2003
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Numa excelente edição, prefaciada por Luciana Stegagno
Picchio e posfaciada por Eucanaã Ferraz, chega-nos agora
este livro, que foi terminado em 1970 e esperou vários anos
para ser publicado. A obra foi corrigida, tendo em vista a sua publicação
em Portugal. Porém, só em 1989 é que o projecto
se realizaria, numa edição de 250 exemplares para
a Galeria 111 de Lisboa, ilustrada por desenhos executados especialmente
por Maria Helena Vieira da Silva. Cada exemplar era acompanhado
por 2 serigrafias originais da mesma pintora. A primeira edição
incluía apenas a primeira das três partes que, na sua
origem, constituíam o livro. Era, como o sublinha Luciana
Stegagno Picchio, o sector dedicado às cidades ou aos lugares
de Portugal que o haviam marcado mais intensamente. Os organizadores
deste volume cumpriram rigorosamente a vontade do autor, integrando
nesta edição as partes que não constavam da
edição anterior. No sector 1 incluem-se os retratos
das cidades e outros lugares, que já se encontravam presentes
na edição de 1989 para a Galeria 111, no sector 2,
incluem-se os retratos de grandes portugueses, inédito em
Portugal, mas já publicado no Brasil na edição
póstuma da Poesia Completa e prosa, editada por Lucciana
Stegagno Picchio, em 1994.
Embora o título da obra nos remeta, de imediato, para o Museu
das Janelas Verdes, não é dele que Murilo trata. O
poeta explicita-o nas suas notas (p.193) e acrescenta que o livro
trata de espaços abertos e de liberdade, do mar e do campo
português, das cidades que percorre com o seu olhar, atento
ao pormenor. Nele se descortina o poeta sensível, contaminado
pelo contacto com a arte e, sobretudo, com pintura contemporânea.
E não é por acaso que o livro abre com a cidade de
Guimarães, como o nota no seu posfácio Eucanaã
Ferraz, cidade que é considerada não apenas o berço
da nação portuguesa, mas essencialmente pelo seu "número
espantoso de janelas", congregando a metáfora toda a
sua intensidade e máxima expressão. Como o nota o
autor (p. 17), "Abrindo o povo tantas janelas, quer dizer (suponho)
que é arejado, ama a vida , a comunicação",
exprime a janela esta passagem para o ilimitado do olhar e para
a sua expansão, contrariamente a um certo acanhamento de
um Portugal cinzento e fechado em si mesmo. Murilo nota nessa cidade,
paralelamente ao imenso número de janelas, o "ar festeiro"
das pessoas, que saem à rua para "alegrar-se, animar-se,
adiar o tediário". É bem o olhar do flanêur
que espreita os transeuntes, observando-os de longe e regozijando-se
com as "moças de hoje" que já não
são "janeleiras", mas "rueiras", para
utilizar a sua expressão. O jogo da metáfora janela/representação,
isto é, janela tomada enquanto metáfora, torna-se
explícito na referência a Caldéron de la Barca,
quando Murilo compara a função da janela no Gran
Teatro del mundo: "Que toda la vida humana/ representaciones
es." (p.19).
Tal como nas janelas de Magritte, em que o olhar, mais do que observador
passivo, se transfigura em "inventor", produzindo o seu
objecto, também em Murilo o olhar inventa e redesenha o objecto
do desejo, tomando como exemplo a figura de Mumadona: "Acreditando
que fosse bela, belíssima, invento uma outra versão
da sua figura"(p.19). E, assim, a mulher (Mumadona) já
não é uma figura da memória, mas uma invenção
do poeta, que surge como paisagem: "Todas as janelas de Guimarães
se espalancam em sua honra." A cidade de Guimarães converte-se,
em virtude das suas ressonâncias míticas, na fonte
e, também, em foco utópico ou ponto de fuga do olhar:
"serviria de modelo a outras cidades futuras; provavelmente
se fundará numa Janelopólis universal, traduzindo
abertura para a invenção, a liberdade, a convivência
e a paz definitiva; com muitas janelas verdes, além de vermelhas,
brancas, azuis, dialogando-se" (p.20).
Não é por acaso que Murilo estabeleceu com Portugal
uma relação tão intensa. O poeta desposou Saudade
Cortesão, filha do historiador Jaime Cortesão. Este
viveu no Brasil, onde manteve, tanto no Rio de Janeiro como em São
Paulo, um círculo numeroso de amigos, que icluíam
Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Octávio Tarquínio
de Sousa, José Lins do Rego, entre muitos outros. Dele, traça
Murilo um retrato tocante, de um homem comunicativo, descontraído
e com um "ar feliz" (p. 165), possuidor de uma erudição
vasta, um humanista pleno, cuja morte "resultou num golpe profundo".
Dessa relação nasceu, em Murilo, o diálogo
entre Portugal e o Brasil, exprimindo as relações
vivas e contagiantes entre as cidades e paisagens portuguesas e
Murilo Mendes oferece-nos, em Janelas Verdes, uma obra que
se vai configurando de modo descontínuo e fragmentário,
por entre lugares de fascínio e pessoas que intensificaram
a sua relação afectiva com Portugal. O tom é
o da crónica, oscilando entre vários registos e sempre
reconhecível pelo humour que entrecorta o realismo,
conferindo ao livro uma estrutura dissonante e que define uma "etnografia"
muito peculiar.
As cidades e as paisagens, o campo e o mar português vão-se
entretecendo com referências literárias e históricas
e, até, de gosto pessoal, como é o caso da culinária
portuguesa. O gosto pela inclusão do banal e do quotidiano
no extraordinário, do pequeno e do monumental, é também
um dos aspectos interessantes do livro, revelando-se ainda a dessacralização
dos mitos, tão ao sabor da ironia modernista, como é
o caso: "Contestando Camões, Jaime Cortesão e
Vitorino Magalhães Godinho sobre os descobrimentos, penso
que os antigos portugueses fizeram-se ao mar, passaram para além
de Taprobana, não para dilatar a fé e o império,
antes para fugir às terríveis ladeiras lisboetas;
a elas devemos, em última análise, a invenção
do Brasil." Esta ideia do Brasil como invenção
portuguesa é um elemento que aparece frequentemente em Janelas
Verdes.
Por outro lado e sempre sob o signo da rememoração,
Murilo Mendes dedica o sector 2 às figuras históricas
e literárias portuguesas que mais o marcaram e activaram
o seu imaginário, acerca de Portugal. Se aparecem, no seu
périplo, figuras longínquas como Nuno Gonçalves,
Gil Vicente e Padre António Vieira, são, no entanto,
os escritores do século XIX e XX que mais comparecem neste
livro e, na maioria dos casos, esses capítulos são
dedicados a amigos com quem manteve estreito convívio, entre
poetas, escritores e poetas, como Sophia, Miguel Torga, Vieira da
Silva, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge, entre outros.
A ideia de viagem, desenhada pelas rotas de uma errância que
é dupla, tanto na escrita, como no próprio movimento
e inquietude do viajante, é, talvez, a mais adequada. Uma
errância que se assume no modo como é, a cada instante,
metaforizada no recorte poético e na linguagem e "inventada",
nesse sentido em que Proust exigia plenamente da literatura: que
ela pudesse reconstituir, não a experiência vivida,
mas aquela que era digna de ser lembrada. A memória, aqui,
"deforma", recorta, amplia o seu objecto e subverte a
ideia de um estatismo que ela possui: "segundo Heráclito,
ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Mas o movimento
não é oposto à memória" (p. 46).
Como o nota, Eucanaã Ferraz, a memória age por uma
dynamis capaz de se deslocar e alojar nos próprios
seres: "Entretanto poderíamos garantir que um rio não
tem memória? O Lima viu nascer desde o início os vianenses,
e viu nascer muitas coisas antes de nascer Viana; quem me dirá
que não tem arquivos?" (p. 46). Encerrando a alquimia
e o redobramento entre esquecimento e memória, esse movimento
transforma o seu objecto em objecto reflexivo, no instante em que
opera sobre ele.
Por isso, a escrita de Murilo não pode deixar de ser metalinguística,
dando-se a dois níveis que se entrelaçam e onde convergem
múltiplas referências em simultâneo, numa densa
polifonia habitada pela pluralidade das vozes, as do passado e as
do presente, habitado pela constante dissonância.
Gostaria, ainda, de chamar a atenção para esta obra,
em que o tom dominante é sobretudo a relação
afectiva entre os dois países, irmãos na língua
e na sua cultura. Expressão viva de uma utopia?
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Murilo Mendes, 1901-1975
Poeta brasileiro,
nasceu em Juiz de Fora (Minas Gerais). Transferiu-se para o Rio
de Janeiro ainda jovem. Os últimos dezoito anos de vida foram
passados em Roma. Na década de 1920, publicou poemas na Revista
de antropofagia e em Verde, revistas modernistas de São
Paulo e Cataguases (Minas Gerais), respectivamente. Seu primeiro
livro, Poemas (1930), integra-se ao projeto modernista
tanto pela procura da brasilidade quanto pela liberdade formal.
Nesse sentido, destacam-se os "poemas-piadas", paródias
e brasileirismos de linguagem, construídos a partir de sugestões
surrealistas: dissonâncias de imagens, interpenetração
de tempos, planos e formas, bem como alusões à alucinação.
A fusão dessas duas vertentes - uma contígua ao coloquialismo,
ao fato, à cultura e outra mais próxima do transcendente,
do onírico e da mística - será, desde aí,
traço característico da poesia de Murilo Mendes, ainda
que nos diferentes livros cada uma delas surja com maior ou menor
intensidade. Também perfeitamente integrados ao programa
modernista são os dois livros seguintes, bastante próximos
das propostas de Oswald de Andrade e Mário de Andrade: Bumba-meu-poeta
(publicado na Revista Nova em 1932 e aparecendo em livro
apenas em 1959, com a publicação de Poesias)
se estrutura ao modo de uma dança dramática folclórica,
o bumba-meu-boi, e satiriza a sociedade brasileira, marcada por
arcaísmos e modernidade, antagonismos de classe e de cultura;
e História do Brasil (s.d., mas provavelmente de 1933) procura
recontar a história do Brasil, demolindo pelo humor o discurso
oficial.
Em 1934, sob o impacto da morte de seu grande amigo, o artista plástico
Ismael Nery, Murilo Mendes converteu-se ao catolicismo, propondo-se
então "restaurar a poesia em Cristo". Na Europa
e no Brasil, o catolicismo renovava-se graças à dimensão
estético-filosófica conquistada por nomes como Claudel,
Mauriac, Maritain, Chesterton e, dentre os brasileiros, Alceu de
Amoroso Lima, Augusto Frederico Schmidt, Otávio de Faria
e Jorge de Lima. Em parceria com este último, lançou
Tempo e eternidade (1935), no qual convivem simbologia
bíblica, erotismo e elementos prosaicos. A dimensão
cósmica procurada pelos versos ganha força dramática
exatamente ao incluir o cotidiano nos planos estético, como
linguagem, e ético, investindo os poemas de uma forte consciência
crítica que aponta para a aberração dos problemas
sociais e políticos. O catolicismo de Murilo Mendes definiu-se,
desse modo, como progressista, afastando-se radical e explicitamente
das correntes conservadoras e mesmo simpatizantes do fascismo. Nos
livros seguintes, A poesia em pânico (1938),
O visionário (1941), As metamorfoses
(1941), Os quatro elementos/Mundo enigma (1945) e
Poesia liberdade (1947), os signos teológicos
aparecem mais diluídos, embora o surrealismo, agora mais
acentuado, garanta aos poemas uma espécie de atmosfera cósmica,
caótica por vezes, na qual vislumbramos um sujeito poético
que anseia por totalidade e busca, perplexo, valores essenciais
em meio à guerra, à miséria, às ditaduras.
Em Sonetos brancos (coleção de poemas
escritos entre 1946 e 1947, mas publicado apenas no volume Poesias,
de 1959), a adoção da forma fixa soma-se à
procura de contenção, rigor construtivo e despojamento.
O mesmo se dá em Contemplação de Ouro
Preto (1954) onde a superposição de imagens
e o uso de metrificação variada faz emergir da paisagem
setecentista o Aleijadinho e os inconfidentes numa espiral que congrega
a história, a espiritualidade e a contemplação
da arte. Os livros Parábola e Siciliana
(publicados em Poesias, de 1959) reafirmam o domínio da construção
do verso conciso, curto, denso, cuja realização mais
acabada apareceria nos poemas de viagem de Tempo espanhol
(1959). O acompanhamento da constante pesquisa formal no percurso
muriliano faz ver menos como corte que como demonstração
de liberdade as experiências de Convergência
(1970), no qual o poeta, entre outras coisas, tira partido do espaço
branco da página, joga com os sinais gráficos, cria
neologismos e desarticula a sintaxe convencional. Ipotesi
(1977), edição póstuma, traz poemas escritos
originalmente em italiano.
Na prosa, ergue-se do mesmo modo uma personalidade existencial e
esteticamente inquieta, que minimiza ou destrói os limites
entre poesia e prosa, ficção e biografia, crítica
e depoimento. O discípulo de Emaús (1945)
é um exercício de síntese, reunindo aforismos
de sentido católico. A idade do serrote (1968)
traz recordações pessoais que, como fragmentos autônomos,
alcançam a dimensão do poético. A mesma fusão
prosa-poesia define a experiência de Poliedro
(1972). Retratos relâmpagos (1973) traça
perfis ora como esboços rápidos, sínteses poéticas,
ora como cuidadosos quadros onde a prosa se expande. Transístor
(1980), antologia da prosa organizada pelo próprio autor
e por sua mulher, Maria da Saudade Cortesão Mendes, inclui
partes de livros inéditos: Carta geográfica,
Espaço espanhol, Janelas verdes,
A invenção do finito, Conversa
portátil e Retratos-relâmpago-2ª
série. Além de trazer estes textos na íntegra,
a edição de Poesia completa e prosa
(1994) de Murilo Mendes inclui outros livros que permaneciam inéditos:
O sinal de Deus, poemas em prosa, O infinito
íntimo, Quatro textos evangélicos, poemas
e Papiers, poesia e prosa em francês.
Eucanaã Ferraz
Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno Picchio. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
Bibliografia:
Mário de Andrade. A poesia em 1930. In: __. Aspectos da
literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1943.
Laís Corrêa de Araújo. Murilo Mendes.
Petrópolis: Vozes, 1972.
Antonio Candido. Pastor pianista/pianista pastor. In: __. Na
sala de aula. Cadernos de análise literária. São
Paulo: Ática, 1985.
Júlio Castañon Guimarães. Territórios/conjunções:
poesia e prosa críticas de Murilo Mendes. Rio de Janeiro:
Imago, 1993.
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20-04-2003

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