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Antonio
Cicero
Guardar
edições Quasi
2002
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Antonio Cicero,
a discreta arte do paradoxo
Maria João Cantinho
Revelando um crescente empenho na divulgação
da poesia, literatura e cultura brasileiras, vão-se destacando
a actividade das edições Quasi, da editora Íman,
bem como das revistas Construções Portuárias
e Inimigo Rumor, das revistas on-line Agulha, Ciberkiosk
e Storm-Magazine. Ainda longe dessa "ponte", porém,
estamos, no entanto, mais próximos de (re)descobrir uma cultura
que é comum, unificada pela língua e perante a qual persiste
(de ambos os lados) uma indiferença. Seria bom que houvesse uma
boa reflexão: a de tentar saber se a identidade cultural e linguística
passa por ignorar os que falam a mesma língua, aceitando acriticamente
padrões estrangeiros, que são impostos de modo puramente
artificial, para não dizer mercantilista.
Curiosamente, a publicação
de Guardar, de Antonio Cicero, obra vencedora do prémio
de Literatura Nestlé no Brasil, no ano de 1997, teve em
Portugal um acolhimento "escandalosamente discreto". Ao invés,
no Brasil, o livro esteve no centro de uma acesa polémica que incendiou
as opiniões mais controversas. O facto de Antonio Cicero, em simultâneo,
ter publicado tardiamente este livro e o de alguns dos poemas que o integram
haverem sido musicados por Caetano, João Bosco, Marina Lima, Adriana
Calcanhoto, veio levantar a frívola questão (e os subsequentes
preconceitos) de estabelecer uma nítida distinção
entre o que deve ser o domínio do letrista e o do poeta, como se
a poesia pudesse ser analisada à luz de tais parâmetros.
Imediatamente, a análise crítica do livro do Cicero não
podia senão ter-se transformado numa leitura equívoca e
alimentada enquanto tal, por alguns críticos.
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Além de letrista, Cicero é
conhecido, não apenas como ensaísta, mas também pela
sua postura intelectual e filosófica, avessa ao academismo, tendo
escrito a obra de filosofia, O Mundo desde o Fim, e organizado
uma série de encontros entre artistas e pensadores contemporâneos,
juntamente com Waly Salomão. Poderíamos dizer, assim, que
a tardia publicação de um livro de poesia, em lugar de ser
louvada como um exercício de auto-crítica e de consciencialização
do poético, acabou por lhe ser apontada negativamente, por motivos
nada justificáveis, pondo a tónica no facto de o seu autor
ser letrista. Proponho a seguinte questão: se o autor tivesse sido
médico, também lhe colocariam esses entraves? Ou tivesse
tido uma outra profissão qualquer, teria sido julgado por isso?
Bem, deixando de lado a inútil discussão
que prejudicou o autor, tive ocasião de constatar, ainda, o seu
amadurecimento num belíssimo segundo livro, lançado recentemente
no Rio de Janeiro, pela Record, A Cidade e os Livros, que apenas
vem confirmar o seu talento e a coerência da voz, o domínio
do "fazer". Em Guardar, é já visível
o modo como o autor lança mão dos recursos poéticos,
combinando temas clássicos e tradicionais; desde a Grécia
Antiga e dos seus labirintos mitológicos, da Bíblia e da
condição babélica humana, da herança do Renascimento,
etc.; e, conjugando-os com a cultura pop, multiplica as possibilidades
combinatórias, introduz a singeleza do poético sem nunca
ceder às facilidades do neoparsianismo. Gosto da expressão
de Silviano Santiago, na apresentação do livro, em que o
autor afirma que "o poeta Antonio Cicero é, ao mesmo tempo,
herdeiro das superfícies e das profundezas". Correndo
o risco do "cliché", esta afirmação define
a natureza essencial da sua poesia de um modo rigoroso e verdadeiro. Cicero
define-se, justamente, na zona limítrofe dessas "águas",
optando, em virtude do seu sentido da musicalidade (que aí se reflecte
como uma intensa vantagem) da poesia, por uma superação
da aridez de um certo minimalismo vanguardista e inflectindo numa outra
direcção, sem nunca perder o pé nem deslizar para
o facilitismo. E nesse limbo, entre o reconhecimento da libertação
do peso do formalismo e a conjugação entre a diversidade
e a riqueza das formas poéticas, nos seus ritmos e na métrica,
se vai firmando a sua poesia, numa permanente capacidade, não apenas
de nos surpreender, como essencialmente de nos deslumbrar e seduzir.
Não
é ao acaso que todo o livro é guiado (e introduzido) pelo
poema Guardar, conduzindo-nos a uma viagem que se inicia, desde
logo, na própria ambiguidade do conceito, indicando-nos um gesto
de desprendimento poético (e também ético) por excelência,
e assim jogando admiravelmente com as ressonâncias linguísticas
do verbo, nos seus múltiplos usos, entre "o fechar no cofre"
e a contemplação estética, a salvação
do ente e das coisas, pela iluminação do olhar. Aquilo
que guardamos é também o que é salvo no olhar e no
próprio acto/gesto de "guardar", concretizando a palavra
essa sublimidade. E é no pequeno pormenor, na errância erótica
do desejo matricial e da paixão (tomada como excesso vital), que
se aspira à beleza das coisas, à sua plena liberdade existencial.
Mais do que pássaros sem voos, entes aprisionados que jamais
poderiam ser admirados, a única coisa que admiramos (e guardamos)
é o seu improvável voo, pois esse é o acontecer
de ser pássaro, a sua intrínseca beleza. Todo o livro de
Antonio Cicero, nas suas modalidades e matizes, que se desdobram e se
desenvolvem a partir de aporias e paradoxos, se revela na tensão
(dúplice) entre a contemplação e a concretude do
dizer, se é possível encontrar um referente poético
para tal, no pequeno gesto, no olhar que descobre o mistério.
A recusa do minimalismo concretista, que
contamina uma certa poesia brasileira veneradora dos preceitos cabralinos,
é uma constante na obra de Cicero, rejeitando igualmente a posição
que defende ferozmente "a morte da beleza" (para parafrasear
a afirmação de Casais Monteiro, em A Palavra Essencial)
e do formalismo tradicional. Cicero sente-se tão à-vontade
no soneto como em qualquer outra forma métrica e rítmica,
fazendo da busca poética uma tecelagem do efémero: "(...)declaro
não serem os versos que escrevo obras/ de arte mas bases, paredes
e donaires/ de templos construídos com mãos e com sobras/
de paixões, mergulhos, fodas, livros, viagens// (precário
material com o qual é elaborado/ tudo o que merece aspirar a eterna
glória)/ e - ainda com os seus andaimes - os consagro/ a elas,
às filhas alegres da Memória,(....)" (p. 67).
Poderíamos dizer que na sua poética,
o dilema entre a profundidade e o superficial, convivas íntimos,
constitui matriz filosófica e imagem poética em simultâneo,
bem como a dialéctica entre o que se oculta e se mostra, como no
poema "Minos" (p. 27): "Não ocultei o monstro:
Jamais hei-de ocultá-lo./ Jamais erguerei paredes para vedá-lo
às vistas dos curiosos e/ maledicentes. Jamais hei-de exilá-lo./
Ao contrário:/ Plantei-o no trono do salão central do palácio
que ergui para/abrigá-lo (...)". E o próprio poema
converte-se no labirinto de que fala, num exercício estilístico
que revela a mestria do autor. A íntima sabedoria de Guardar
encontra-se precisamente no reconhecimento, mais do que poético,
filosófico, de que o eixo que faz girar o mundo é o paradoxo,
reconhecimento tão antigo e clássico quanto as sibilinas
palavras de Heraclito nos legaram, há cerca de 2500 anos. Transformar
essa consciência filosófica em imagética poética
é o grande mérito de Guardar, que opera essa construção/transfiguração
a vários níveis, tanto formal como de conteúdo, seduzindo
ainda pelo equilíbrio conseguido entre a musicalidade e a depuração
(que não deve ser confundida com aridez), pelo subtil e discreto
cantabile que nele habita.
01-03-2003

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