A outra Salomé
Maria João Cantinho
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"No mais profundo de
si mesmo, o nosso ser
rebela-se em absoluto contra todos os limites.
Os limites físicos são-nos tão insuportáveis
quanto
os limites do que nos é psiquicamente possível:
não fazem verdadeiramente parte de nós.
Circunscrevem-nos mais estreitamente do que
desejaríamos."
Lou Andréas-Salomé,
in citação de Stéphane Michaud,
na sua obra biográfica Lou Andréas-Salomé,
p. 204, Asa, Lisboa, 2002
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ela
disse Nietzsche, um dia, ser "de longe, a pessoa mais brilhante
que eu conheci". Se a afirmação é ou não
verdadeira tal não é pertinente, antes revela bem o fascínio
que a figura desta mulher exerceu sobre os vultos intelectuais mais importantes
da sua época, Nietzsche, Rilke e Sigmund Freud. Porém, se
na figura de Lou se confundem a personagem histórica com a lenda
em que se transformou, a excelente biografia de Stéphane Michaud
(recentemente traduzida pela editora Asa) procura esclarecer os contornos
que constituíram a personalidade controversa desta mulher fascinante,
que foi romancista, poeta, ensaísta, psicanalista e pioneira do
modernismo europeu.
Famosa pela sua beleza e notável inteligência, Liolia (1)
von Salomé nasceu em São Petersburgo, a 12 de Fevereiro
de 1861, filha de Louise Wilm e de Gustav von Salomé, quinze anos
mais velho que a sua mãe. Saída das altas esferas da nobreza,
Louise Wilm recebe as felicitações do czar, tal como o pai
da criança, Gustav von Salomé. Alemão dos países
bálticos e descendente de hugenotes de Avignon, Gustav ocupa o
cargo de conselheiro secreto do soberano, na corte imperial. Lou será
educada no luxo cosmopolita da corte, condição que lhe permite
desfrutar de uma ampla liberdade, como de um ambiente propício
ao contacto e aprendizagem das correntes filosóficas e literárias
em voga. Lou era a única filha (nasceu quando o pai já tinha
53 anos) e era excessivamente protegida, numa família de cinco
rapazes, dos quais apenas sobrevivem três: Alexandre, doze anos
mais velho que ela, Robert precede-a de nove anos e Eugène de três.
A presença tutelar dos irmãos projectar-se-á posteriormente
sobre todos os homens que Lou conhecerá. Igualmente, a figura do
pai transformar-se numa figura omnipresente que a dominará por
toda a vida.
Arrapazada, de cabelos curtos e frisados, a criança Lou revela
já aspectos que constituirão, mais tarde, a sua singularidade:
um olhar independente e firme, uma personalidade enigmática. Revelando
já a tendência imaginativa, fecha-se na solidão de
um mundo encantado. Mais tarde, em adulta, ela sublinhará à
amiga Frieda von Büllow a singularidade da sua infância, referindo
que teria sido para ela o período menos feliz da existência
(2). Durante a adolescência,
o mais pequeno pretexto serviria para que o pai a libertasse de todas
as obrigações. Terá, por isso, permanecido mais ou
menos alheada das actividades das jovens colegas.
O espírito crítico de Lou vai conduzi-la a uma atitude de
descrença perante a religião. Recusando o ultra-conservadorismo
do pastor Dalton, sedenta de independência e na sua impaciência
de viver rejeita cada vez mais a fé em Deus. Por fim, com a morte
do pai são completamente destruídas todas as esperanças
de pacificação com a religião e com Deus. Poucas
semanas após essa perda que a marcará por toda a vida e
tendo ouvido falar de um pregador em voga e defensor de novas ideias religiosas,
Liolia dirige a Gillot uma carta que é um pedido de socorro desesperado.
Suplica-lhe que a liberte das suas dúvidas e ouve-o pregar às
escondidas.
A intrepidez, a inteligência de Lou e a sua sede de aprender atraem
Gillot, que toma a sua educação a cargo. Lou tem dezassete
anos e Gillot quarenta e dois, é casado e pai de dois filhos. Lou
concretiza não apenas um sonho de pedagogo como substitui, pela
sua figura a imagem do pai perdido. A educação não
se limita apenas à religião, mas visa igualmente prepará-la
para os estudos universitários que fará em Zurique, na Suíça,
um dos raros países tolerantes que aceita mulheres nos cursos superiores,
possuindo ainda um activo centro universitário russo no Ocidente.
Gillot apaixona-se por Lou e propõe-lhe casamento, perspectivando
o divórcio. Embora o sentimento de Lou seja recíproco, como
mais tarde, nas suas Memórias o deixará transparecer
(3), foge de Gillot,
que vê como um obstáculo à sua liberdade. Exactamente
como fugirá, mais tarde, de outras relações, como
Paul Rée e Nietzsche, que a pedem em casamento, e de Rilke. O fascínio
por Gillot parece ter-se desintegrado brutalmente e confessará
posteriormente que no seu universo não há lugar para o desejo
nem para o sexo. Nem espaço para um casamento que, de forma alguma,
se desenha no seu horizonte.
Lou parte para Zurique, reconquistando a sua liberdade, em Setembro de
1880. Estuda lógica, história das religiões e metafísica.
Ainda que se revele sobredotada, a sua saúde é frágil.
Durante este período confirma também a sua vocação
literária, retomando os poemas escritos nos tempos da sua relação
com Gillot e procurando publicá-los em diversos círculos
universitários ligados a revistas literárias.
Lou parte em Abril para Roma, onde o clima mais ameno lhe permite o restabelecimento
da saúde. Pede ao seu amigo Kinkel uma carta de apresentação
para um dos espíritos mais livres do seu tempo: Malwida von Meysenburg.
Europeia convicta e adepta do livre pensamento, Malwida sonha com uma
sociedade humana liberta das cadeias da religião e dos seus dogmas,
lutando para que artistas e filósofos conquistem o lugar privilegiado
que devem ocupar. Defende ousadamente os direitos das mulheres e a sua
participação na vida colectiva. As suas arrojadas ideias
tinham-lhe valido o exílio definitivo da cidade natal e da Prússia.
Pedagoga, ensaísta e romancista, melómana, Malwida tem,
aos sessenta e cinco anos de idade, uma carreira repleta atrás
de si e o tempo de exílio que havia passado em Londres transformara-a
numa acérrima e feroz defensora de Wagner, que havia conhecido
em Londres.
Malwida segue atentamente tudo o que se passa em França. Cultiva
à sua volta um círculo de intelectuais, de escritores e
artistas que defende, apoia e protege da intolerância e incompreensão
dos seus contemporâneos. Tinha acolhido Nietzsche e dois dos seus
amigos em Sorrento, numa villa nas encostas do Pausilipo, onde
o odor das laranjeiras se confundia com a brisa marítima.
Doente, Nietszche havia pedido à universidade de Basileia uma licença
de longa duração e estava acompanhado por dois amigos. Um
deles era o jovem discípulo Brenner, que lhe servia de secretário,
e o outro era o filósofo Paul Rée, mais novo que ele cinco
anos. Este concluía a sua obra A Origem dos Sentimentos Morais,
enquanto Nietzsche trabalhava na redacção da sua obra Humano,
Demasiado Humano. O estado de saúde de Nietszche melhorara
nesse Outono, em que a família Wagner, nas proximidades, chegou
mesmo a recebê-los. Porém, na Primavera de 1882, quando Lou
chega, a atmosfera tinha-se alterado substancialmente. A sua relação
com Wagner degradou-se e Nietszche sentia na pele as consequências
do facto. A universidade de Basileia transformou a sua licença
de um ano numa reforma definitiva e o estado de saúde de Nietszche
agravou-se.
Rée, cujo temperamento neurótico já é visível,
também não é poupado. É este o contexto que
Lou encontra ao chegar e Malwida investe nesta mulher-criança livre
toda a sua paixão. O brilho intelectual, a sua audácia fascinam
Malwida e a rapariga torna-se uma frequentadora assídua do seu
círculo. Conhece Paul Rée e é cativada por este jovem
filósofo de trinta e três anos, de espírito aventureiro
e dado ao vício do jogo. Propõe-lhe viverem juntos, partilhando
a mesma casa e o amor aos livros, procurando transformar a casa num lugar
de reunião aberto a outros espíritos filosóficos.
Rée fica seduzido e, desconcertado, pede-a em casamento. Colérica,
Lou rejeita-o, explicando-lhe que desde a sua relação com
Gillot tinha posto um ponto final à sua vida amorosa.
Nessa altura e julgando servir os interesses de Lou, Rée escreve
a Nietzsche, que se revela predisposto a aceitar a relação
a três, igualmente fomentada pela sua amiga Malwida. Desembarca
de improviso em Roma e procura a "Russa" e o amigo.
Imediatamente seduzido pela jovem, Nietszche encarrega Rée de lhe
servir de intermediário e pedir-lhe a mão. Nova recusa de
Lou, que exige que Rée explique a Nietszche a sua aversão
pelo casamento e a perda financeira que isso representaria para ela, pois
teria de renunciar à pensão que recebe das autoridades russas,
na qualidade de aristocrata órfã. A natureza solitária
e a inteligência do filósofo não a deixam indiferente.
Rapidamente, a sua natureza aventureira é seduzida por Nietszche,
mas refreia essa atracção na relação terna
e protectora de Paul Rée, que a ama e que sofre com a sua indiferença
física.
Nietzsche permanece obcecado pela ambição de formar um discípulo
que pudesse ser iniciado nas consequências últimas da sua
filosofia. A inteligência e a independência de Lou imprimem-lhe
um novo rumo na sua existência. Em Lucerna, onde voltam a reunir-se
mais tarde, no Löwengarten, Nietszche pede-a novamente em casamento
e Lou deixa o filósofo estarrecido, com a sua obstinada recusa.
Interessa-lhe unicamente cumprir a vontade de viver e entregar-se ao estudo
da filosofia e da literatura.
Perante os projectos de Lou, que mantém firme a ideia de viver
com os dois filósofos, os irmãos tentam demovê-la
e impedir o escândalo, procurando fazê-la regressar a São
Petersburgo. Paul Rée intervém junto da mãe e as
tensões são pacificadas, pois este último tem vindo
a ganhar, junto de Louise, a sua confiança.
Entretanto, Nietszche introduz Lou em Bayreuth e no seu círculo
de artistas e intelectuais. A rapariga choca pela audácia e as
tensões atingem o seu auge perante a irmã de Nietszche,
Elisabeth, que vê com maus olhos a jovem mundana e cheia de vitalidade,
chegando mesmo à altercação violenta. A intriguista
e ciumenta Elisabeth empenhar-se-á (mesmo ao longo de toda a sua
vida) em destruir a relação entre o irmão e a jovem
russa.
Por fim, o amor de Nietszche transforma-se em amargura e decepção.
Não aguenta a sistemática recusa de Lou e entrega-se ao
desespero, que o leva à beira do suicídio. Só a embriaguez
do ópio o salva dessa dor lancinante. Após essa experiência,
sente-se amadurecido para começar a obra Assim Falava Zaratustra.
O filósofo redige a primeira parte da obra em apenas dois dias,
nesse mês de Fevereiro de 1883. A fulgurância da sua prosa
aproxima-se da leveza da poesia, onde a metáfora da dança
ocupa um lugar importante para referir o despojamento da linguagem e a
sua leveza.
Nietszche libertara-se do fascínio que Lou exercia sobre ele e
jamais voltariam a encontrar-se. Na verdade, a sua irmã Elisabeth
minara todas as relações entre os membros do círculo
e instrumentalizara todos ao seu serviço: Rée e a mãe,
Peter Gast, o músico, a própria Malwida. Não se sabe
até que ponto Nietszche terá finalmente compreendido os
nefastos efeitos da teia de intrigas produzida por Elisabeth. No entanto,
sabe-se o suficiente para conhecer que, a partir de certa altura, Nietszche
rompe com a irmã e ela parte para o Paraguai, onde casará
com o teórico racista Bernhard Förster.
O debate suscitado e os escândalos daí resultantes, alimentando
a voracidade de um público ávido, nas capas de revistas,
remete Lou para um silêncio do qual não voltará a
sair. Mesmo quando Freud a insta a falar sobre o assunto, muitos anos
mais tarde, ela recusará. Contra a calúnia baixa, ela responde
dignamente com um muro de silêncio que não ajuda a clarificar
a situação e que nem sequer lhe é benéfico.
Todavia, o afastamento de Nietszche não lhe provocará nenhuma
crise e Rée continua unido a Lou, que encontra junto dele, não
apenas a atenção e a ternura redobrada, como um certo apaziguamento.
Para ele, a presença próxima de Lou é-lhe profundamente
benéfica. Põe de lado a paixão pelo jogo e reencontra
a tranquilidade. Reúnem à sua volta diversos espíritos,
entre os mais promissores da época, na sua grande parte alemães
e berlinenses, mas também dinamarqueses, como o crítico
Georg Brandes, um dos primeiros autores a compreender o impacto da filosofia
de Nietszche, e livonianos, como o barão Carl von Schulz. Destes
personagens próximos de Lou, eclodirão novas ciências
e rumos decisivos, como é o caso de Hermann Ebbinghaus, fundador
da Psicologia, e Ferdinand Tönnies a Sociologia.
Alguns deles declarar-se-ão a Lou e ela recusa todos os pedidos.
Converte-os em amigos e mantém Rée junto de si. Em 1886,
porém, o amigo sente-se traído. A 1 de Novembro desse ano,
a celebração de um noivado secreto de Lou com alguém
cuja chegada Rée não se dera conta. Alguém que viera
ocupar o seu lugar e ele parte em princípios de 1887, pondo termo
a quatro anos de vida comum. Nessa noite, Rée pede-lhe que ela
não volte a procurá-lo. O sentimento de culpa atormentá-la-á
mais tarde, ao saber que Rée foi encontrado morto, em 1901, em
circunstâncias estranhas.
Quer Malwida, quer Rée, tão próximos de Lou, ignoram
tudo acerca de Andreas. Porque razão, a certa altura, Lou decide
casar e a questão fica no ar: "o que a motivou a tal?".
A diferença de idades é considerável. Ele tem 41
anos e ela 26. Príncipe e beduíno do deserto, perante uma
sociedade na qual não se integra e cujas regras tem dificuldade
em aceitar, ele é uma figura única: Tanto pela linhagem
como pela experiência de vida, pois é filho de um arménio
e nasceu na Indonésia, em Jacarta. O jovem estudara no liceu de
Genebra e destacara-se como aluno brilhante, pelas suas aptidões
musicais e linguísticas. Consagrara-se ao estudo das línguas
orientais e tinha obtido o doutoramento em 1868, dedicando-se à
leitura de manuscritos persas raros nas bibliotecas de Copenhaga. Em 1870
a guerra interrompera as suas investigações e ele conseguira
uma regência provisória na universidade de Kiel.
Para Lou, Andréas encarnava, em toda a sua perfeição,
o ideal do sábio universal das épocas anteriores, o príncipe
e o camponês, segundo o modelo russo de Lou. A aventureira deixara-se
fascinar por este sábio poliglota que se afastava dos intelectuais
que ela conhecera até então. Andreas destacava-se deles
por uma "soberania das mais reais", fazendo-a sonhar com viagens
à Pérsia e indo ao encontro desse lado selvagem de Lou,
que aprenderá de bom grado esse misto de doçura e de selvajaria
que tanto impressionaram o dramaturgo Hauptmann, como Rilke e Freud, posteriormente.
O casamento, em nada convencional, foi realizado em 14 de Junho de 1887
e, alguns dias mais tarde, Gillot celebrou uma missa que envolveu Lou
de modo mais profundo. O mesmo Gillot a quem Lou se recusara, na consumação
do amor carnal, oficiava e simbolizava a preservação do
interdito no novo casal.
O projecto de vida comum entre ambos limita-se a uma comunhão de
gostos e de estudos, uma união puramente intelectual. Lou obtém
de Andreas a garantia formal de que nunca teriam filhos. Revoltava-se
contra a ideia de pôr no mundo uma criança indesejada e não
suportava a ideia de dar à luz. Repudiava, com toda a sua convicção,
qualquer ligação entre amor carnal e casamento. Esta convicção,
que Andreas esperava ver alterada, jamais se modificará. Na sua
família circulavam rumores de que essa união não
era senão virtual.
A actividade social de Lou restringe-se e o temperamento do marido não
ajuda. O seu perfeccionismo e a permanência no Oriente haviam-lhe
trazido uma estranheza relativamente aos hábitos universitários.
Não consegue entregar dentro dos prazos estipulados a dissertação
que lhe trará o lugar de professor, passa por reveses humilhantes
e, finalmente, perde o lugar de professor. Quanto tempo aguentará
ainda Lou iludir a sua vontade de viver? Entretanto, dedica-se a estudar
e a escrever ensaio sobre a obra de Ibsen e de Nietzsche, de quem conservara
as cartas.
Em 1890, a adesão do casal à Associação do
Teatro Livre e a entrada literária nesse ano, vem proporcionar
a Lou os contactos que faltavam. Recorre aos amigos e conhecidos que lhe
possam possibilitar o acesso às redacções. Conhecem
ambos Georg Brandes, crítico dinamarquês, e Andreas pede-lhe,
para Lou, uma carta de apresentação para a Deutsche Rundschau.
Entretanto, Wilhelm Bölsche, crítico, romancista e ensaísta,
introduz o casal no círculo de Friedrichsagen, onde reside. Lou
conhece aí jovens escritores para quem a literatura, bem longe
de ser um passatempo frívolo, é uma necessidade ou imperativo
de ordem existencial e adere imediatamente a esses talentos que aí
encontra. Começa a escrever para duas publicações
berlinenses de renome, colaborando com a vanguarda literária e
artística mais prestigiada da época (de Tolstoi a Maupassant,
de D'Anunzio a Knut Hamsun). Publica o estudo que originará mais
tarde o ensaio Personagens Femininas em Ibsen (Berlim, 1892) e,
quatro meses mais tarde, escreverá uma série de artigos
sobre Nietszche, os quais serão incluídos num volume futuro
intitulado Friedrich Nietszche nas suas Obras (Viena, 1894).
Nesta boémia literária, em que a fantasia se afasta em tudo
da austeridade e da disciplina do círculo de Rée, a mulher
de quase trinta anos conhece Georg Ledebour, por quem se apaixona. Ledebour
é conhecido pela sua liberdade, não se deixando subjugar
à religião nem às convenções sociais,
e é por essa fusão entre delicadeza e firmeza que ele atrai
Lou. Embora sensível ao fascínio desse terno amigo que lhe
declara o seu amor, Lou resiste-lhe. Tal paixão acarretar-lhe-á
uma profunda crise do casamento.
Esse aspecto doloroso da sua vida reflecte-se na sua obra, numa fase em
que escreve com uma tenacidade obstinada, apesar das dificuldades, actividade
essa que foi injustamente negligenciada, em virtude da sua dispersão
pelas várias colunas de jornais. Dedica-se igualmente à
ficção, apesar da entrega à actividade ensaística
e crítica. Após a publicação, em 1885, de
Combate Por Deus, publica Ruth, o seu segundo romance (1895),
onde trabalha, ainda, a sua obsessão: a relação com
Gillot.
Em 1894, no final de Fevereiro, a escritora desembarca em Paris, onde
será aceite na sociedade boémia e literária, pela
mão de Paul Goldmann, seu amigo. Conhece os críticos mais
influentes e é admirada como escritora e ensaísta. Começa
a corresponder-se com o escritor Schnitzler, que admira profundamente
e que irá, mais tarde, reencontrar em Viena. Mas desse tempo de
Paris, onde reconhece descobrir os prazeres mundanos e boémios,
Lou confessa um certo desencanto, não avançando no seu trabalho.
Retorna a Berlim, permanecendo aí durante o tempo estritamente
necessário. Lou traz de tal modo entranhado o gosto pelas viagens
que parte, ao fim de seis meses, para S. Petersburgo, onde revê
a família e Gillot. Regressa a Viena, onde a atmosfera é
semelhante a Paris, igualmente boémia, espiritual e ligeira, nada
semelhante com a vida austera de Berlim. Em Viena, Lou reencontra Schnitzler
e trava conhecimento com Hofmannsthal e Beer-Hofmann. Essa fase da sua
vida atesta uma lenta eclosão, que faz com que o seu amigo Schnitzler
anote no seu diário esta curta, embora decisiva, frase: "A
mulher começa a despertar em Lou" (4).
Lou anima uma sociedade brilhante, é extremamente requisitada,
apreciada pela sua capacidade de comunicação. Schnitzler
traça dela o retrato de uma mulher volúvel, deslumbrante
e desinibida, de uma euforia e um gosto pela vida invulgares.
Em Viena, Lou Salomé conhece Friedrich Pineles, a quem a ligará
uma intensa e duradoura relação. Pineles é médico
e tem na altura vinte e sete anos. Lou tem trinta e quatro. A solidez
e a serenidade do rosto e da personagem desse médico fascinam-na.
Quando Lou e Rilke se encontram, o poeta é um jovem de 21 anos,
com um talento prodigioso, em busca de reconhecimento literário.
Colabora com vários jornais e revistas e é, ele próprio,
editor de uma revista que pretende divulgar as novas tendências
da poesia.
A relação que se estabelece entre ambos é a de uma
mãe-amante de trinta e seis anos para com um filho. No final de
Maio, procuram um refúgio nas montanhas, longe do bulício
da cidade. A partir de meados de Junho, Lou, Frieda e Rilke instalam-se
em Wolfratshauen durante longas semanas, entrecortadas por algumas ausências.
Rilke procura compensar, no amor por Lou, a relação frustrada
com a sua própria mãe, nunca inteiramente recuperada pela
morte da sua irmã mais velha. Sob o seu olhar, a escrita de Rilke
desabrocha e inicia-se um novo período, de intensa produtividade.
Quanto a Lou, é fascinada pelo ardor do poeta e pela sua virilidade
amenizada pela sua doçura. Essa maternidade que ela assume sobre
o jovem poeta encontra a sua primeira representação simbólica
num baptismo. Rilke tinha recebido o nome próprio de René
Maria. Lou procede a um reequilíbrio em benefício do elemento
masculino: converte o nome René em Rainer.
Esse nascimento a que Lou preside não se limita apenas ao nome,
mas arrasta o poeta para um despojamento e uma simplicidade, em que a
sua poesia se liberta de todo o sentimentalismo, retornando à essencialidade
das coisas. O poeta trilha o caminho de uma poesia claramente existencial,
celebrando a vida e o mundo. Todavia, a relação entre ambos
não é isenta de tensão, pois o elemento carnal da
relação é banido e Rilke refreia o desejo, sublimando-o
através da poesia. Stéphane Michaud (5),
na sua biografia, refere que a fase mais intensa da paixão entre
ambos ocorreu entre 1897 e 1901, mas Lou, de comum acordo com Rilke, queima
as cartas relativas a esses anos e a troca de correspondência só
é retomada a partir de 1903 a 1921. Torna-se difícil seguir
o rasto a partir desses fragmentos esparsos.
A 26 de Abril de 1898, Rilke, Andreas e Lou deixam Berlim e chegam a Moscovo.
Sobretudo após a segunda passagem por Moscovo, o poeta reconhece
que a Rússia se tornou o seu mundo e a escrita permite-lhe transfigurar
essa viagem espiritual e rica. Os viajantes partilham a mesma paixão
pela Rússia antiga, pelas suas paisagens e pelo povo dos campos.
A viagem de Rilke na companhia de Lou dará origem a um ser novo.
Ele compõe em Agosto desse mesmo ano o ciclo dos «Czares»,
seis peças que irão integrar a segunda edição
do Livro das Imagens, que sairá em 1906, e depois em Setembro
e Outubro «As Preces», a forma original do que virá
a ser o Livro das Horas (1905). Mais tarde, dedica-se à
aprendizagem da língua russa e traduz A Gaivota, de Tchekov,
bem como os poemas do poeta camponês Drojine.
Paradoxalmente, essa viagem na companhia de Rilke, deixa vislumbrar o
apagamento do amante. Em vez de magnetizada pelo olhar do poeta, a narrativa
de Lou reproduz a sua visão. E o que a toma, o que a fascina é
a imagem do pai perdido, cuja ternura lhe falta.
O seu diário de deixa compreender como a imagem do pai se sobrepõe
à do amante e a angústia existencial de Rilke indispõe-na,
transformando-o numa figura que a ameaça. Aos quarenta anos, a
vida vem de novo ao seu encontro, reencontrando na mítica Rússia
essa serenidade. A presença de Rilke incomoda-a, pesa-lhe e Lou
quer recuperar a sua liberdade. Força-o à partida, sem remorso,
considerando natural que se afastem para que ambos cresçam.
Pela mão do psicoterapeuta sueco Poul Bjerre, inicia-se no estudo
da psicanálise. Acompanha-o ao congresso internacional de Psicanálise,
em Weimar, em Setembro de 1911. Afastando-se da posição
teórica de Bjerre, que se distingue de Freud, Lou torna-se de uma
fidelidade inquebrantável, relativamente ao fundador da psicanálise,
durante vinte e cinco anos. Só a morte de Lou porá termo
a essa relação. Freud confia-lhe também a orientação
da filha Anna, estabelecendo-se entre os três uma cumplicidade intensa.
Lou sofre dificuldades económicas, após a guerra e, muitas
vezes, é o seu dedicado amigo Freud quem a ajuda.
Na última fase da sua obra, Lou procura conciliar a influência
da psicanálise - ela própria torna-se psicanalista - com
a literatura. Nascem, então, os mais estranhos contos, povoados
por figuras e personagens que se apresentam como representações
simbólicas intensas. De alguma forma, a sua obra surge numa contra-corrente
literária, pois na literatura alemã distinguem-se outros
autores, mais marcados pela vanguarda da estética expressionista,
mais trabalhada pela política, como é o caso de Döblin,
de Kastner ou, ainda, de Werfel. Finalmente, escreve As Memórias,
obra que se revelará posteriormente, um manancial e um testemunho
da sua vida, mas que também se pauta pela postura discreta e reservada,
mesmo relativamente aos factos mais importantes e relevantes da sua vida.
Lou sabia exactamente que compunha, ainda, a derradeira imagem com que
havia de deixar o mundo: a de uma mulher com uma beleza que a acompanhará
até ao final da sua vida, tendo sempre do seu lado a vida (como
dela disse um dia Rilke) e uma capacidade de dádiva que apenas
se encontra nas almas superiores. Disso são prova as relações
constantes e duradouras que manteve com os homens (amigos e amantes) até
ao final da sua vida. E essa vida termina a 5 de Fevereiro de 1937, pouco
antes de completar sessenta e seis anos.
Lou teria gostado que as suas cinzas fossem dispersas pelo seu jardim.
De acordo com o seu desejo, esse seria, certamente, o modo poético
de reconciliação com a terra, o elemento que ela tinha amado.
Porém, as autoridades recusaram-lhe esse gesto último e
a urna que encerra as cinzas foi enterrada ao lado do corpo de Andreas.
Uma morte discreta a celebrar o esplendor do que foi a sua vida, guiada
por uma liberdade radical.
[1]
É Gillot quem, mais tarde, lhe dará o nome de Lou.
[2] Stéphane Michaud,
op. cit., p. 34.
[3] E também nos
poemas "Prece à Vida" e "A Dor".
[4] Diário de
Schnitzler, 1893-1902.
[5] na sua obra biográfica,
já anteriormente citada, Lou Andreas-Salomé, p. 155.
Artigo publicado originalmente na revista
STORM
19-01-2003

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