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Por atalhos vamos...Luís Cláudio Ribeiro |
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| 1. Como se escreve em nota de edição, este livro é o fecho de um ciclo que começou com Teoria da Literatura (1997) que "incluiu os livros Outono (1978), Gótico (1999) e Grotesco (2000)". Este título faz eco do livro do autor O Caminho da Montanha (Angelus Novus, 2000) ao qual junto um outro, recentemente traduzido para português, Caminhos de Floresta (Holzwege, coord.trad. Irene Borges-Duarte, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002) de Martin Heidegger. Sirvo-me da possível tradução deste último cruzando-se com O Caminho da Montanha para explicar o título da obra em leitura. |
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| Fernando Guerreiro Caminhos de Guia, Black Sun, Lisboa, 2002 |
O significado de ambos encontra-se preso a um percurso na maioria das vezes feito por nós quando pretendemos entrar nos domínios de algo que é distintamente uma massa vegetal ou mineral, uma floresta e uma montanha. |
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| Para dar ênfase ao enigma ou caminho sem fim à vista, Heidegger socorreu-se das veredas traçadas na floresta pelos seus visitantes ao longo dos séculos, atalhos que desaguam noutros caminhos igualmente imprevisíveis quanto ao seu terminus; ou acabam de repente. Percorrer estes caminhos é deixar que a montanha ou a floresta tome conta de nós, nos engula completamente. Fernando Guerreiro não se serve apenas dessa interrogação no coração das trevas, mas evoca, sobretudo, um mapa onde os percursos estão há muito desenhados e são actualizados periodicamente: são os caminhos que os guias fazem, o que pode significar que o autor quer fechar um ciclo teórico e poético tentando traçar percursos que respondam, no leitor, às constantes demandas sobre o significado da sua obra, seus conteúdos e, sobretudo, suas afinidades electivas. E julgo, no meu entender, que acertou absolutamente no alcance do título, pois com alguma facilidade se sente nesta obra o "pathos" originário e corrente da poesia de Fernando Guerreiro: uma espécie de desejo visceralmente carnal ergue-se por entre as palavras exigindo um novo e contínuo sacrifício, um sacrifício essencial onde a verdade se funda: "o de erguer pelo som o corpo já extinto e surdo da literatura". 2. Quase todos os caminhos da montanha se abeiram de falésias, de covões e de precipícios (palavras muito usadas pelo poeta) e, por vezes, de labirintos enigmáticos, produtores de ecos (a poesia parece ser aqui um eco e uma evocação). Para esses desfiladeiros todos caminham pois algo de transparente e inaudito precisa ser encontrado, algo que rectifique a figura e as formações, já sem as promessas da literatura que repousam, quase sempre, numa longa metáfora. Mas para podermos avistar e admirarmos a paisagem da montanha não podemos deixar de escrever, pois só pela escrita ganha sentido e é erguido o mundo penetrado: os caminhos fazem-se caminhando. Por esta razão, aliada ao varrimento contínuo da superfície pela escrita, o que o impede de ter "uma perspectiva turística sobre o abismo", o escrever, no entender do autor, e não só, contém em si um enigma estranho que torna este ofício num acto inocente, pois todos os caminhos querem chegar ao abismo, que não é mais do que uma porta de saída para o corpo e para a sua insustentabilidade, o que significa também, e inequivocamente, o seu desaparecimento, resumindo a vida "a uma forma / mal consentida de suicídio". No entanto, nos Caminhos de Guia, o poeta oculta-se, desaparece no caminho da leitura, pois "o ponto de vista de quem escreve [...] é o do guarda / da montanha que abandona as rezes / para observar de longe a sua livre / queda". Aqui, o autor precisa do sacrifício dos outros para poder observar "a paisagem de que a alma se ergue", se ao invés se entregasse haveria a produção de um obscurecimento que não serve a obra de arte. 3. A grande tradição, no entender de Fernando Guerreiro, é a da revelação da morte e não do ditado poético, que no entender de Heidegger (dichten), é a origem da arte e responde à humanidade sobre a sua função mostrando-se como reveladora dos abismos e em tempo da indigência humana, a única saída, e o resto é Poesie. No entanto, a poesia narrativa por que optou, sugere que a sua poesia é um caminhar tacteando, uma desmistificação do acto poético e, sobretudo, do dom da palavra "porque não há mistério da palavra / que não seja o da miséria / da nossa rendição à vida". Para este poeta, o edifício que a cultura ocidental materializou em versos mais não serve do que mapear continuamente a experiência dos sentidos ao criar, na e pela linguagem, híbridos de carne que "alteram a realidade". Por esta ocupação, a língua desenvolve, cria ou vivifica órgãos (incluindo o da metamorfose) que "permitem ao corpo / obedecer melhor / às exigências do destino". Mas há aqui uma pequena inversão ou outro ponto de vista: quando se pode pensar que o poema resulta (como toda a escritura) do espírito que procurando a carne encontrou as palavras (ou como escreveu Wittgenstein nas suas Investigações Filosóficas: "onde a nossa linguagem permite supor um corpo e nenhum existe, aí, gostariamos de dizer, está o espírito") na poesia e na teoria de Fernando Guerreiro dá-se conta da invenção de outro corpo, outra carne, no qual se realizam os desígnios do discurso: são "os monstros da linguagem". (Vai bem longe na história da linguagem este pensar: o da escrita como algo exterior ao humano e à língua, que exige um Outro, uma separação, e por este caminhar se vai ao encontro da catástrofe e do monstruoso que está na escrita e simultaneamente o (a) constitui). 4. A leitura que aqui trazemos não foi mais do que um tentar alguns atalhos, alguns caminhos, abeirando-nos dos precipícios, voltando atrás, na própria obra, para encetar novos percursos. Só assim se pode ler este autor que tenta em cada livro refazer um mundo, dando figura "a todas as visões / que os deuses excluíram / da sua ideia de paraíso". Livro de muitas referências culturais, mas sem o nome de quem o escreve, (já desfeito no Poema), como aliás acontece com outras obras do autor, estes três conjuntos de poemas revelam-se próximo de alguns elementos que sendo em outras poéticas sinais de vida são aqui de uma provável morte: a natureza é atravessada por este frio que vindo do futuro se senta à porta pela qual teremos, enquanto leitores, de entrar. |
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| 25-01-2003 | ||||