| ... / | ARTES | ENVIE DEBATA | ||
|
|
Hobsbawm e a hora da naturezaJosé Pedro Martins
|
|||
| Eric B. Hobsbawm Tempos interessantes: Uma Vida no Séc. XX Porto, Campo das Letras, 2002 |
Outro efeito radical de "A Era das Revoluções", em mim e creio que em boa parte dos colegas que leram o livro, foi o de propiciar a devida perspectiva histórica para a luta dos movimentos pela democracia e os direitos humanos, tão caros à geração dos anos 60 a 80 do século 20. A luta pela redemocratização - e, claro, pela implantação do socialismo - no Brasil, ou em qualquer outro país em desenvolvimento que um dia foi colônia, tem suas sementes lançadas no período enfocado pela obra-prima de Hobsbawm. Pois acabo de sofrer um novo choque cultural com a leitura de "Tempos Interessantes - Uma vida no século XX", a autobiografia do historiador marxista nascido em Alexandria, criado em Viena e Berlim mas que sempre foi eminentemente britânico. Mas desta vez o choque não foi positivo. Pelo contrário, não pude disfarçar, ao final da leitura, uma sensação de desencanto e desamparo. |
|||
![]() |
Como todo bom intelectual que se preza, Hobsbawm usa um tom cético quando avalia as perspectivas mundiais, mas como bom marxista e humanista não abdica da fé na possibilidade de um novo momento, mais justo e igualitário, na história da humanidade. Claro, o historiador dá uma nova aula, não deixando de ser crítico com relação a algumas posturas de esquerda que, na sua avaliação, mais prejudicaram do que contribuíram na formulação de um novo modelo de sociedade global, marcado pelo respeito aos direitos humanos e pelas liberdades que moveram os personagens de "A Era das Revoluções". Enfim, "Tempos Interessantes" é (quase) perfeito para se entender o século 20, sob a ótica de um dos seus principais observadores. O choque que eu tive, ao acabar de ler o livro, é que, apesar de ser um antenado pesquisador, sintonizado com as tendências de seu tempo, Hobsbawm não comenta, com sua agudez e profundidade característica, a emergência e o crescimento de um dos principais movimentos de idéias do século 20, que foi o do ecologismo - ou ambientalismo, como queiram. O movimento ecológico, que nas últimas décadas tanto empolgou a Europa de Hobsbawm, e que tanto se beneficiou dos novos ares culturais proporcionados pela revolução comportamental dos anos 60, passa longe da autobiografia do mestre da história social. O foco das atenções de Hobsbawm é o ambiente econômico e político, o que é perfeitamente compreensível em um historiador marxista. A esquerda tem historicamente, como tanto já se disse, muita dificuldade em lidar com as questões ambientais, às vezes deixadas em segundo plano no momento da crítica ao capitalismo. A prioridade continua sendo o foco econômico e social. Mas no caso de Hobsbawm a lacuna ambientalista é menos aceitável. Ele deixa claro, ao longo de sua autobiografia, como foi importante para sua formação, nos tempos de juventude, o contato com as ciências naturais. Ele confessa o seu "prazer ornitológico", descreve com satisfação suas passagens como amante da vida ao ar livre e sua experiência de escoteiro. Em vários momentos deixa entrever que poderia muito bem seguir a carreira de biólogo ou algo do ramo. A emoção com que o autor descreve o seu primeiro contato com "o grande pica-pau negro, de mais de 45 centímetros, com sua crista de um vermelho vivo, batucando num tronco em uma clareira, como um eremita louco em miniatura, solitário sob a calma das árvores", é um indicativo de como o mundo natural foi impactante para a formação do jovem Hobsbawm. Nesse sentido, depois de ler "Tempos Interessantes", fiquei diante de mim com um claro enigma. Por que alguém com tanta credencial como Eric Hobsbawm, ao dissecar o espírito do século 20, cujo itinerário se confunde com sua própria vida, acaba não dialogando com uma das principais novidades, e talvez únicas esperanças, do mundo contemporâneo, que é o movimento ecológico ou ambientalista? No limite, por que continua tão difícil, para os pensadores de extração marxista, lidar com a temática ambiental, da mesma maneira brilhante como abordam os assuntos econômicos, sociais e políticos? Confesso, então, que fiquei com um pouco
mais pessimista ao acabar de ler o livro. Mas será que não é muito, também,
pedir a um historiador desse gabarito que se preocupe com outras questões
que não aquelas em que ele se especializou com sucesso? Será que é possível
alguém, neste mundo tão contraditório e complexo, dar conta de tanta coisa
ao mesmo tempo? É claro que não. Ele mesmo dá a dica sobre a magnitude dessa tarefa, em um dos raros momentos em que tangencia a "questão ecológica" em sua autobiografia: "Dada a dramática aceleração do ritmo do controle da humanidade sobre a natureza nesse breve período, especialmente nas últimas dez ou vinte gerações, o conjunto da história até agora pode ser visto como uma explosão de nossa espécie, um tipo de supernova biossocial que se expande para um futuro desconhecido. Esperemos que não seja catastrófico. Enquanto isso, e pela primeira vez, dispomos de uma estrutura adequada para uma história genuinamente global, restaurada a seu devido lugar central, nem englobada nas humanidades ou nas ciências naturais e matemáticas, nem tampouco separada delas, porém essencial a ambas. Gostaria de ser jovem o bastante para poder escrevê-la". Com a palavra os jovens, então. José Pedro Martins é jornalista e escritor brasileiro, autor de "A Década Desperdiçada - O Brasil, a Agenda 21 e a Rio+10" (Editora Komedi) |
|||
| 24-01-2003 | ||||