Fernando Echevarría ou a busca do ser

José Fernando Guimarães


 
Fernando Echevarría,
Aquí, ahora,
ed. bilingue,
col. Generación del vértice, 8, Celya, Salamanca, 2002



 

Eis mais um livro belíssimo de Fernando Echevarría. Poeta da geração de 50 (com Fernando Guimarães, António José Maldonado, entre outros, e com a revista Eros - herdeiros de Mallarmé e Vitorino Nemésio), a sua poesia segue vectores explícitos. Trata-se, antes do mais, de uma poesia que não ancora na realidade. A realidade, ainda que presente e omnipresente, não é a realidade que vemos, que sentimos, que tocamos, que cheiramos, não é uma realidade que provenha dos sentidos. É, pelo contrário, uma realidade abstraída da realidade, uma realidade metida entre parêntesis (a epochê husserliana). Por outras palavras, é uma realidade que é o conceito de realidade. Ora, ao ser uma poética que trabalha o conceito da realidade, encontra-se com a tradição fenomenológica: Husserl, Heidegger, Gilson - é em Étienne Gilson, o grande medievalista, estudioso atento de Agostinho, que a poética de Echevarría entronca. Em Gilson, encontra o conceito de dádiva - posteriormente trabalhado por Jean-Luc Marion (que lhe interessa vivamente) e por Derrida. Por seu lado, a fenomenologia abre-lhe caminho, por exemplo, a conceitos como pulso, inteligência, sinónimos da intencionalidade da consciência. E, já que falamos da fenomenologia, não se esqueça que um dos livros de Echevarría se chama precisamente Fenomenologia (1984); outro chama-se Introdução à filosofia (1981); outro ainda, heideggeriano no título, Sobre os mortos (1991). Dos livros mais recentes, lembremo-nos de Uso da penumbra (1995), Geórgicas (1998) e Introdução à poesia (2001). E, aqui chegados, repare-se no papel do conceito de introdução na poética de Echevarría: introduzir é conduzir para, é conduzir para a suspensão do gesto, que é dádiva, que é o poema como dádiva. Como neste exemplo:

A luz opera, sobretudo, em nome
do nome duma luz desconhecida.
Que a si se punge, ao fundo do seu longe,
a dar somente aquilo que retira
para o sítio invisível para de onde
em negrura nos chega. Ou em enigma
a dar sinal. E, até a dar-se. Só que
o dar-se tem recuo de subida.
De solavanco côncavo de noite
que, apenas textual, a sua intriga
entrega de um amor que perde o nome
no drástico recuo que cintila.


Este poema, de Introdução à poesia (p. 28), encontra eco em Aqui, agora neste poema (curiosamente também da p. 28):

Ou, se houver nome, um nimbo de respeito
inaugura a tensíssima distância
de um recuo tensíssimo. Em aberto.
E em sempre iminência de palavra,
desde que, nela, a usura do conceito
funde. Mas, funde, sobretudo, a entrada
por uma via que demanda excesso,
sendo o excesso esse princípio de alma
que a inteligência acolhe, quando é certo
que há infinito no finito. E a falta
satura tanto o tão aberto
que além disso parece haver mais nada.
A não ser a insistência do apelo
aonde cada nome se idolatra
antes de se abismar em seu silêncio.
E este, às vezes, estremecer na alma.

Paremos perante algumas ideias (que iremos tratar de forma anónima, incógnita, sem aspas). Primeiro: aberto, derivado de tensíssimo. Segundo: iminência de palavra. Terceiro: usura do conceito. Quarto: via que demanda excesso. Quinto: excesso igual a princípio de alma, que a inteligência acolhe. Sexto: infinito no finito. Sétimo: falta e aberto. Oitavo: apelo. Nono: o nome idolatrando-se. Décimo: silêncio. Décimo primeiro: estremecer na alma. Ora, este estremecer na alma, tensíssimo, excessivo, é o que Heidegger chama terra, por oposição a mundo, o aberto, o nome idolatrando-se, a historicidade. Mais: o combate primordial entre terra e mundo em Heidegger é, também, um combate entre infinito e finito. Tal como em Nietzsche, aliás, na luta primordial entre dionisíaco e apolíneo. O que nos conduz a este conceito: apelo. Apelo de quê? Nem mais nem menos do que apelo dessa luta primordial, que é dádiva e estremecer na alma.

Poética do deslumbramento, a poesia de Fernando Echevarría conduz-nos ao coração do ser, o indefinível nas palavras de Heidegger. Tal como nos conduz, ainda nas palavras de Heidegger, à obra de arte como obra fazendo-se, como obra operando-se em si mesma, buscando a verdade.

10-07-2003