| ARTES ENVIE DEBATA | ![]() |
||||
Fernando Echevarría ou a busca do serJosé Fernando Guimarães
Eis mais um livro belíssimo de Fernando Echevarría. Poeta da geração de 50 (com Fernando Guimarães, António José Maldonado, entre outros, e com a revista Eros - herdeiros de Mallarmé e Vitorino Nemésio), a sua poesia segue vectores explícitos. Trata-se, antes do mais, de uma poesia que não ancora na realidade. A realidade, ainda que presente e omnipresente, não é a realidade que vemos, que sentimos, que tocamos, que cheiramos, não é uma realidade que provenha dos sentidos. É, pelo contrário, uma realidade abstraída da realidade, uma realidade metida entre parêntesis (a epochê husserliana). Por outras palavras, é uma realidade que é o conceito de realidade. Ora, ao ser uma poética que trabalha o conceito da realidade, encontra-se com a tradição fenomenológica: Husserl, Heidegger, Gilson - é em Étienne Gilson, o grande medievalista, estudioso atento de Agostinho, que a poética de Echevarría entronca. Em Gilson, encontra o conceito de dádiva - posteriormente trabalhado por Jean-Luc Marion (que lhe interessa vivamente) e por Derrida. Por seu lado, a fenomenologia abre-lhe caminho, por exemplo, a conceitos como pulso, inteligência, sinónimos da intencionalidade da consciência. E, já que falamos da fenomenologia, não se esqueça que um dos livros de Echevarría se chama precisamente Fenomenologia (1984); outro chama-se Introdução à filosofia (1981); outro ainda, heideggeriano no título, Sobre os mortos (1991). Dos livros mais recentes, lembremo-nos de Uso da penumbra (1995), Geórgicas (1998) e Introdução à poesia (2001). E, aqui chegados, repare-se no papel do conceito de introdução na poética de Echevarría: introduzir é conduzir para, é conduzir para a suspensão do gesto, que é dádiva, que é o poema como dádiva. Como neste exemplo:
Paremos perante algumas ideias (que iremos tratar de forma anónima, incógnita,
sem aspas). Primeiro: aberto, derivado de tensíssimo. Segundo: iminência
de palavra. Terceiro: usura do conceito. Quarto: via que demanda excesso.
Quinto: excesso igual a princípio de alma, que a inteligência acolhe.
Sexto: infinito no finito. Sétimo: falta e aberto. Oitavo: apelo. Nono:
o nome idolatrando-se. Décimo: silêncio. Décimo primeiro: estremecer na
alma. Ora, este estremecer na alma, tensíssimo, excessivo, é o que Heidegger
chama terra, por oposição a mundo, o aberto, o nome idolatrando-se, a
historicidade. Mais: o combate primordial entre terra e mundo em Heidegger
é, também, um combate entre infinito e finito. Tal como em Nietzsche,
aliás, na luta primordial entre dionisíaco e apolíneo. O que nos conduz
a este conceito: apelo. Apelo de quê? Nem mais nem menos do que apelo
dessa luta primordial, que é dádiva e estremecer na alma.
10-07-2003 |
|||||