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Entre dois paradigmas antropológicos:
José Fernando Guimarães
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Não é impunemente que esta exposição de
Carlos Mesquita se intitula Paying my rent everyday in the tower of
light, título poético trespassado - apetece dizer: rasgado - pelo
quotidiano, pelo banal, onde conflui o pagamento diário da renda com uma
torre de luz, onde o dia-a-dia se justifica e se metamorfoseia sob o peso
d(est)a metáfora. É evidente que Carlos Mesquita faz, aqui, alusão à produção
artística em duas dimensões: uma dimensão social (que implica a sobrevivência
do artista, um homem entre outros homens) e uma dimensão estética (o papel
da luz e da torre). E também não é impunemente que esta exposição se intitula
Paying my rent everyday in the tower of light, até por causa dos
dois artistas que o título convoca: Duchamp e Beuys (que são a torre)
- isto apesar da influência decisiva destes trabalhos ir ao encontro de
Matisse (que é a luz).
De Duchamp, Carlos Mesquita trabalha a noção
de ready-made, assim como trabalha o triângulo conceptual obra
de arte / espaço museológico ou galerístico / espectador. Aliás, estas
caixas de luz parecem ser ready-made. Sê-lo-ão, de facto? São-no
e não o são. E esta afirmação não configura uma evasiva. É, pelo contrário,
uma constatação, a minha constatação, pelo menos. Vejamos. São ready-made
na sua asserção final, até enquanto objectos propiciadores de um certo
voyeurisme, tão próprio e próximo de Duchamp (lembremo-nos de Étant
donné (La chute d'eau) gaz d'éclairage). São ready-made e não
o são pelo evocar da cultura pop, da pop art, mais próxima
de Lichtenstein do que de Jasper Johns ou de Warhol ou de Wesselmann (ainda
que, para Wesselmann, a cor seja da máxima importância, aliada que está
a uma ausência de texturas) - estas caixas de luz estão, aparentemente,
próximas dos outdoors publicitários que vemos nas ruas, são uma
aparente reconstrução de outdoors publicitários, tal como, pelo
menos a partir de determinada altura, Lichtenstein trabalha a banda desenhada,
cada vinheta da bd (mas não se esqueça que o que Lichtenstein trabalha
é o granulado, a malha, a textura tipográfica da produção serial típica
da bd de jornal ou revista, e a descontextualização da mensagem contida
nos vários tipos de balões, a ponto de subverter essa mensagem em si mesma
- o que indirectamente, por antinomia até, pode remeter para o trabalho
de Carlos Mesquita). Não são ready-made pela sua aproximação à
op e à minimal art.
O outro nome que Paying my rent everyday
in the tower of light convoca é Beuys. E é-o mais por causa da luz
- que podia desempenhar o papel do feltro em Beuys, a matéria da salvação.
E é-o, ainda, por causa da célebre afirmação de Beuys: "A revolução somos
nós". E é-o, finalmente, por causa de um gestualismo que vem atravessando
o trabalho de Carlos Mesquita (que num primeiro tempo foi claramente expressionista,
próximo do movimento Die Brücke de Dresden, derivando, depois,
para um gestualismo próximo do ritual subjectivo de Pollock ou do místico
de Rothko ou do impessoal de Ad Reinhardt e do expressionismo abstracto
em geral).
Mas, na senda ideológica e política que o
trabalho de Carlos Mesquita assume de modo contido, há a marca inconfundível
das vanguardas russas: o suprematismo de Malevich, o caso de Tatlin, o
cubofuturismo e o construtivismo, em torno da revista Lef, de Popova,
Rodchenko, o caso de El Lissitzky, ou, colaborador do grupo inicial da
revista De Stijl, Mondrian e o neoplasticismo. A uns e a outros
Carlos Mesquita foi buscar o quadrado, o vermelho, a luz - marcas irredutíveis
da sua obra mais recente, em particular a que agora dá a ver - e elementos
preponderantes da Bauhaus, que foi, sintomaticamente, proposta artística
e escola de arte.
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Mas, se o quadrado, o vermelho e a luz são
elementos axiais do trabalho de Carlos Mesquita, como o são o jogo de
horizontais e verticais, são também elementos axiais o branco, o negro
e as respectivas manchas caligráficas que os corporizam. Aqui a herança
é fundamentalmente surrealista (se procurarmos bem, há manchas caligráficas
negras que, no mesmo trabalho, se tornam em manchas caligráficas brancas,
num jogo típico do surrealismo), numa espécie de cadavre exquis
gestual, gesto primeiro da libertação do inconsciente nas palavras de
Breton, lidas em Freud.
Ora, é justamente aqui, neste cadavre
exquis gestual, que tudo se joga no trabalho de Carlos Mesquita. Como
se, por acaso (o conceito de acaso é de primordial importância no trabalho
de Carlos Mesquita), as poéticas surrealista e expressionista (tanto a
de Die Brücke como a do expressionismo abstracto) se sobrepusessem
sob o olhar racional das vanguardas russas, do neoplasticismo de Mondrian
ou da Bauhaus. Como se, por acaso, as poéticas surrealista e expressionista
se sobrepusessem sob o olhar racional da pop, da op ou da
minimal art. Como se houvesse no trabalho de Carlos Mesquita uma
luta entre dois paradigmas antropológicos: de um lado, o paradigma antropológico
do homo ludens, do jogo, do irracional, do aleatório; do outro,
o paradigma antropológico do homo faber, do lógico e do construtivo,
do racionalismo e do funcionalismo. Quanto ao dadaísmo (Duchamp, eventualmente
Picabia, para só citar aqueles que me parece terem marcado mais o trabalho
de Carlos Mesquita), enquanto complemento dialéctico das tendências construtivistas
e da abstracção geométrica, assume-se como uma anti-vanguarda de signo
anarquista. Signo, esse, que Beuys, um dos precursores da arte povera,
assume plenamente ao encarar a arte como predicação ético-política. Sem
a mínima hesitação, Carlos Mesquita partilha o signo ideológico e político
de Duchamp e Beuys. Só que esse cadavre exquis gestual, que habita
o seu trabalho, vai ainda mais longe. Vai ao encontro do informalismo
e do abstraccionismo lírico, de Fautrier e de Dubuffet. Vai ao encontro
do grau zero das linguagens plásticas, o gesto (Hartung, Soulages).
Vai ao encontro do caligráfico (Michaux). Que é onde, na oposição da figura
e do fundo, encontra Matisse - para se encontrar a si próprio, como é
o caso de Paying my rent everyday in the tower of light, onde a
ausência de texturas sublinha justamente esse encontro. Ora, não será
a obra de arte, qualquer obra de arte, justamente essa possibilidade de
encontro, o encontro tornado possível?
<Publicado originalmente no catálogo da exposição Paying my rent
in the tower of light de Carlos Mesquita (galeria Fuga pela escada,
Guimarães, de 16 Maio a 17 Junho)>
01-06-2003