25 rosas brancas
para Joana

José Fernando Guimarães
     
 
 
 
 

Silence (2002) é, para mim, o trabalho a partir do qual se pode tentar compreender o percurso da obra de Joana Rosa (que se inicia em 1976, numa exposição colectiva da Alternativa Zero). Durante cerca de vinte minutos, assistimos, aí, a uma montagem de um texto (por vezes propositadamente contraditório, outras vezes propositadamente assertivo, mas que em ambos os casos tem o seu quê de manifesto - não será, todavia, um falso manifesto?) corporizado num insert sobre os lábios, os dentes, a língua de uma mulher (que até pode ser a própria Joana Rosa, mas isso não interessa). Qual a razão porque digo que o locutor é uma mulher? É simples e objectiva essa razão: por causa da voz. O que temos, pois, em Silence é, antes do mais, uma voz, uma voz que se repete, que se engana, que volta atrás, que recupera o discurso, que insiste no discurso, que o torna penoso, potencialmente agressivo (para o locutor e para o auditório) no seu minimalismo. Uma voz, portanto - é essa a presença de Silence. Mas a voz, qualquer voz, tem um suporte que a permite, que a torna visível: lábios, dentes, língua. Porque uma voz não é visível; não se pode ver uma voz. O percurso de Heidegger a Walter Benjamin, de Benveniste ou Blanchot a Derrida ou Giorgio Agamben anda em torno disto precisamente, que é, afinal, o problema da linguagem e da morte. Mas não é disso que trata Silence. Ou talvez seja. Porque, para todos os efeitos, uma voz enuncia um apelo. Uma voz chama. Não me chama a mim ou a qualquer espectador de Silence em particular. Não. Uma voz chama a origem do real. Uma voz chama o humano e o inumano. Uma voz chama e é uma chama - queima. E queimando, afirma-se na sua individualidade, é a sua individualidade. Ora, é nesse acto de queimar, próprio da voz, que se afirma o silêncio. Um silêncio das origens, que é o espanto heideggeriano perante o real. Por isso, a voz implica sempre a transcendência. E Joana Rosa sabe-o. Só que curto-circuita essa transcendência; só que deixa o plano da transcendência em suspenso; e, deixando-o em suspenso, armadilha-o: remete-o para a imanência. Daí, justamente, a voz como corpo (lábios, dentes, língua). A voz como corpo incógnito (desconhece-se, em absoluto, de quem é aquela voz; pode-se suspeitar de quem é, mas só isso, suspeitar, e nada mais). A Joana Rosa não interessa o trabalho sobre "une voix venue d'ailleurs" (Blanchot). Tal como a Joana Rosa não interessa o trabalho sobre a voz como dádiva. A transcendência é um adquirido no trabalho de Joana Rosa, e que esta não questiona. Pelo contrário, o que lhe interessa trabalhar é o corpo da voz, a voz tornando-se num corpo para que fique ao rés do nosso olhar o silêncio, a impossibilidade de ver uma voz - que é, nem mais, do que o incógnito da voz. Por outras palavras: não há em Joana Rosa um trabalho de des-subjectivação; há, isso sim, um trabalho de anonimato, como em Schwitters ou no situacionismo, particularmente em Guy Debord - não se esqueça que o teórico do conceito de incognito é Baudelaire, mas isso são outras rosas, por sinal também brancas, só que desconheço se vinte e cinco. Mas devem ser.

Ora, é desse anonimato que vem o quotidiano. É o anonimato que implica e potencia o quotidiano. Como quem diz (transformo abusivamente a Joana Rosa em locutor): - "Anónima, toco o quotidiano. E, tocando-o, torno-me anónima". Jogo de forças duplo. E, também, jogo de pulsões. Onde o tocar, o manipular, o mexer são conceitos que fazem interagir essas forças, essas pulsões. Onde estes conceitos revelam a imanência - que era o que não sucedia com a voz. Mas, agora, a voz já não é voz. Agora a voz é lábios, dentes, língua. Agora a voz é sexo. Agora a voz é doodle. Agora a voz é colecção de objectos anónimos, de ready-made. Agora a voz é incorporação desses objectos anónimos, desses ready-made. Agora a voz é o perfil de uma mesa e de uma cadeira. Agora a voz é do tamanho de um menhir. Agora a voz é negra, cada vez mais negra. Agora a voz é branca - e é segredo e, sendo segredo, pode ser também um scribble. Agora a voz é um espelho e um scribble. Agora a voz é o silêncio - Silence. Agora a voz é a armadilha, a tentação, o desejo. Agora a voz é aquela que queima. E a que deixa feridas: doodle e/ou scribble. Agora a voz é mão. Agora a voz é a não-figuração - sou eu no outro, um e outro tornados, pela voz, subitamente anónimos. Agora a voz é o silêncio. Agora a voz é a distância tornada sensível (Blanchot). Agora a voz tanto pode ser a paixão como a morte.



É esta a armadilha do percurso do trabalho de Joana Rosa. Remetendo-se para o anonimato (escreve Joana Rosa em 2000: "I am refusing a "signed by me" art"), de que os doodle, as esculturas de arame, as esculturas de plasticina ou os scribble são exemplo, situa-se no plano da imanência, onde as figuras se impõem. Mas, por outro lado, remetendo-se para o anonimato, de que os desenhos negros, cada vez mais negros, ou de que os desenhos brancos com segredos (o conceito é de Joana Rosa), ou de que os espelhos com texto (simultaneamente scribble e segredos, como em Silence) são exemplo, situa-se na voz transformada em antes, situa-se na voz das esfinges, cuja resposta é o silêncio. Por um lado, a voz é sexo, é vida, é imanência. Por outro lado, a voz é silêncio, é originária, é transcendência. Como resolve Joana Rosa a dicotomia, se é que há resolução?

Em A sociedade do espectáculo, Guy Debord escolheu como epígrafe para o primeiro capítulo, intitulado A separação acabada, esta citação de Feuerbach, retirada do prefácio à segunda edição de A Essência do Cristianismo: "E sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser… O que é sagrado para ele não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que para ele o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado". E esta dicotomia, que percorre os textos de Baudelaire (beleza eterna e beleza artificial, fugidia, efémera), Nietzsche (apolíneo e dionisíaco, verdade e mentira, moral do rebanho e moral do homem nobre), Benjamin (o valor cultual da arte: a noção de aura e a sua perda), Heidegger (a abertura ao Ser e a impossibilidade da sua definição; a luta primordial entre mundo e terra), encontra eco nesta afirmação de Debord: "O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens". Ou, como escreve Joana Rosa em Scribbling and doodling (2000): "There are people doing scribbles and doodles on their everyday life all over the world. There are even universal forms like biting a pen or breaking a match with their teeth. Doodling and scribbling are one of the many shared activities without frontiers. The fact that they exist as an impulsive/compulsive and subconscious almost "visionary" act, makes similar qualities as the positions of the artists in our society outstand… Through them an obsession, a certain sense of bet, of prairie/praying, of guilt… In doodling and scribbling there is no compromise as in the artist work. Although as pointing out to the existence of these, I am refusing a "signed by me" art, confining myself only to an interaction with scribbling and doodling". Onde se encontra, em Joana Rosa, o eco de Guy Debord é aqui, nesta frase: "confining myself only to an interaction with scribbling and doodling"; que corresponde, em Debord, a esta frase: "uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens". Acontece, todavia, que Joana Rosa define esses actos de doodling e de scribbling como "quase "visionários"", próximos da oração, da culpa. Heraclito escreve num dos seus fragmentos: "O Senhor cujo oráculo está em Delfos, não exprime nem dissimula nada, mas indica". "Le terme "indique" - escreve Blanchot em "Une voix venue d'ailleurs"- fait ici retour à sa force d'image et il fait du mot le doigt silencieusement orienté, "l'index dont l'ongle est arraché" et qui, ne disant rien, ne cachant rien, ouvre l'espace, l'ouvre à qui s'ouvre à cette venue". A esfinge, "nada dizendo, nada escondendo, abre o espaço, abre-o a quem se abre a esta vinda". E esta vinda tanto pode ser o angelus novus de Benjamin, como o Ser de Heidegger, como a dádiva de Derrida. E esta vinda também pode ser a desmesura do gesto de Schwitters. E esta vinda pode ainda ser o silêncio - onde a voz (que é) sexo é a voz (que é) originária. No silêncio não há fronteiras, não há a individuação (apesar de haver uma subjectividade), não há a autoria. O silêncio é, nas palavras de Heraclito, "o indicador cuja unha foi arrancada". É este, também, o silêncio de que fala o trabalho de Joana Rosa. É esta a voz do seu silêncio - aí onde "o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado", da verdade.

04-05-2003