Jorge
Molder
ou o instante absoluto
José Fernando Guimarães
As várias séries de fotografias que Jorge Molder tem vindo
a trabalhar desde meados dos anos setenta vivem em torno de dois vectores
essenciais: a duplicidade e a serialidade. A duplicidade advém da
encenação dos auto-retratos ou das auto-representações,
jogo quase omnipresente em torno de alguém que nos olha como se fosse
um duplo do artista, um seu fantasma. Já a serialidade provém
de duas características, em que uma delas é operativa e a
outra é cognitiva. Por um lado, fotografar é funcionalmente
um acto de reproduzir, é um dispositivo reprodutivo - de pessoas,
coisas, ambientes, situações. Todavia, esse dispositivo reprodutivo
como que suspende o tempo, como que fixa o instante. E, fixando o instante,
reflecte-o, torna-o reflexo, isto é, capaz de ser reenviado
outra vez. Mas, por outro lado, a serialidade, para usar as palavras de
Walter Benjamin, traduz a perda da aura.
De facto, para Benjamin qualquer obra de arte tem um valor de culto,
um valor cultual diferente do valor de uso ou do valor de troca - que
o cinema e a fotografia ilidem, apagam. O cinema ilide esse valor de culto,
esse valor cultual porque é um trabalho de equipa, porque é
o produto de um colectivo que deriva para a esfera do valor de troca ao
submeter-se às regras do mercado. Por sua vez, a fotografia, ao
reproduzir e apropriar-se da obra de arte, des-individualiza-a, massifica-a,
retira-lhe o seu valor cultual, que se dissolve inevitavelmente nesse
movimento de massificação. Razão tinha, pois, Baudelaire
quando dizia que o espectador do museu do Louvre, como conhece as reproduções
dos quadros mais célebres, pára pouco ou nem mesmo pára
diante dos quadros para os contemplar. Mas, apesar de tudo, é da
contemplação que fala sempre Molder nas suas várias
séries, onde um olhar fixa um outro olhar atentamente.
 A
quem pertence o primeiro olhar, o primeiro acto de percepção
e de atenção? Ao artista, sem dúvida. Donde, o segundo
olhar pertence ao olhar do duplo - aquele que, comprometido numa escrita
em suspenso que o obceca, suspende o corpo e o olhar do espectador. São,
assim, as fotografias de Jorge Molder: fotografias de duplos - pela dimensão
aterradora da vertigem (quase sempre fotografias com mais de um metro
quadrado de superfície), pela dimensão tendencialmente microscópica
da polaroide, ou pela dimensão média dos zincos.
Sejam esses duplos a encenação do próprio corpo de
Molder ou, raramente, aliás, a encenação de outras
figuras e objectos. Figuras sempre carregadas pelo claro-escuro, pela
contraposição luz e sombra. Figuras sempre impecavelmente
vestidas - como quem se prepara para a redenção. E, preparando-se
para a redenção, só a luz há-de consagrar
esse último reflexo que a sombra há-de absorver. De igual
modo, só os objectos hão-de, também, testemunhar,
em silêncio e imóveis, essa cintilação desmedida,
esse peso inenarrável, indizível, das próprias coisas
e das figuras.
Note-se que não há nas séries de Molder qualquer
narração. Mesmo uma das últimas séries de
zincos fixa o instante, e nada mais do que isso, no rosto das mulheres
- um instante absoluto, portanto. Como acontece nas séries dos
auto-retratos e das auto-representações. Ora, dado que aquilo
que Molder persegue é esse instante absoluto, as suas séries
podem ser desmembradas como um baralho de cartas (o ás é,
aliás, um dos objectos de uma das séries). Por outras palavras:
podemos trocar a ordem das fotografias nas séries sem que estas
se corrompam, se decomponham, porque a troca de olhares que se instituiu
entre as fotografias é suficientemente forte para as suster.
Mas, de que troca de olhares se trata? Do nosso olhar, do olhar dos espectadores
de cada uma destas séries (repare-se como o corpo do espectador
se movimenta, num jogo de aproximação e de afastamento,
na percepção destas imagens)? Evidentemente que não.
Até porque somos espectadores em segunda mão. O espectador
em primeira mão é o duplo do artista. Assim, o que sustem
as séries de Molder é a circulação entre o
olhar do duplo e o olhar do artista (consciência aguda do instante
absoluto). Por isso, aquilo de que as séries de Molder tratam é
não só da percepção como da atenção.
Melhor: questionam o tipo de atenção que pressupõe
a actividade estética (a fotografia é, aliás, operativamente
perceptiva).
Tem-se falado das ligações do trabalho de Molder com Magritte
- pintor surrealista, pintor de duplos, pintor onde os espelhos se situam
sempre mais além do olhar, que é ocultado aos espectadores.
Como também se tem falado das ligações com Conrad,
Melville, Hermann Broch, Malcolm Lowry (pode-se, até, questionar
o trabalho fotográfico de Molder como um trabalho de escrita),
Francis Bacon (tal como em Molder não há na pintura de Bacon
qualquer narrativa e as suas figuras são construídas, para
Deleuze, num «lógica da sensação», isto
é, a sua pintura remete para a cor e para as impressões
que daí derivam; por outro lado, é conhecido o interesse
de Bacon pela fotografia, em particular a de Muybridge), série
B do cinema norte-americano, o expressionismo de Fritz Lang e Murnau,
os romances policiais de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Nuns, é
o peso dos duplos que se impõe. Noutros, a decadência do
gentleman, o fascínio do seu olhar perante a morte (carne ou crucificação,
tanto faz) e o consequente grito inaudível. Nuns e noutros, todavia,
é o conceito de outsider que se destaca, a sua assimetria
com o mundo, o seu delírio, a sua angústia, o seu desejo
de ser Deus, como proclamava Nijinsky. Ora, é este estatuto existencial
que Molder persegue: ele é o jogador, o prestidigitador, o coleccionador.
Daí ser o (seu) duplo, indiscutivelmente, um personagem do século
XIX ou um personagem desesperado dos anos vinte e trinta do século
passado, um personagem que transporta uma memória. Mas, que tipo
de memória?
Logo no início de À la recherche du temps perdu,
Proust fala de dois tipos de memória: a memória voluntária
ou memória da inteligência e a memória involuntária.
A primeira consiste num acto de contracção e concentração
do tempo, de atenção desmedida, de percepção
aguda. A segunda, pelo contrário, consiste num acto de dilatação
e distensão do tempo, de atenção difusa, de percepção
distraída - em suma, é aquela que faz com que o inconsciente
seja capaz de nos dar pistas, de nos fornecer indícios, sobretudo
pelas sensações (Proust) ou pelas associações
livres (psicanálise, surrealismo). É, aliás, à
memória involuntária que Benjamin liga o conceito de aura
(e para Benjamin o presente, num projecto existencial e/ou artístico,
visa alcançar o futuro para resgatar o passado, angelus novus
ou instante absoluto). Tal como a noção de memória
involuntária se articula com o conceito de durée
em Bergson (uma pista filosófica, eventualmente fecunda, para analisar
o plano da imanência no trabalho de Molder; é, também,
no plano da imanência que se situam as impressões de que
fala Cézanne a propósito da pintura, a sua em particular).
Ora, as séries de Molder são o lugar dessa memória
involuntária. Só que, na sua serialidade íntima,
asfixiam qualquer possibilidade narrativa, deixando em suspenso as sensações,
as figuras, os sintomas que essas figuras implicam. Os sintomas, sabemo-lo
desde Freud, são o regresso do recalcado: o duplo de si mesmo,
a reprodução do mesmo. Que só as sensações,
imbricadas no claro-escuro, na luz e na sombra, conseguem trazer à
superfície do espelho (que, até, pode ser água petrificada
em gelo, como acontece numa das séries) por um instante, o instante
absoluto do jogo, da prestidigitação, da colecção.
Será
esse instante absoluto um outro nome para um determinado cadavre-exquis,
tão ao gosto dos surrealistas, e que cada série consagraria?
É possível, apesar do cadavre-exquis ser uma narrativa
do inconsciente, típica das associações livres, mas
também um outro nome para o acaso, para o jogo, para a prestidigitação,
todos passíveis de colecção. Como acontece com as
séries de Molder (o ás, o dado, os punhos ou o colarinho
imaculadamente brancos, as caixas enquanto guardiães do tempo),
onde a metamorfose e o castelo (de cartas, de arbítrio), evocadores
de Kafka, surgem inequivocamente. A metamorfose evoca o instante da passagem
de algo ao seu estranho (uma desterritorialização, para
usar o conceito de Deleuze e de Guattari, donde o lugar de um discurso
não-institucional) só que, aqui, à sombra de um passado
tutelar (quem domina o castelo é, afinal, o duplo) onde as imagens
têm ainda o peso da aura.
É, pois, esta tensão entre presente e passado que possibilita
a não-narratividade das séries de Jorge Molder. É,
ainda, este jogo de des-significação das imagens que o duplo
potencia. Só que, por detrás dele, no instante absoluto,
um outro olho espreita - mais predador em relação ao duplo
do que em relação a si próprio. Afinal, a estética
romântica passou por aqui. Tal como, consequentemente, passa por
aqui a não resolução do plano da transcendência
e do plano da imanência, melhor, uma resolução que
Molder quer que esteja em suspenso. Entre um e o outro, o instante - o
absoluto.
15-02-2003

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