Nossa Senhora de Burka

João Craveiro

No lançamento do livro de Maria Azenha
20 de Fevereiro de 2003, Atrium Saldanha, Lisboa


E
ste é um tempo de terror, um tempo de máscaras, um tempo de príncipes sem coroa e resta-nos um instante, um novo e livre século para ser. Mas como dizer, continua Maria Azenha, como dizer o pequeno barulho da guerra? Não vou classificar esta poesia na urgência de um catálogo qualquer pós-moderno, a nossa era não é a pós-modernidade: é a pós-humanidade!

Mandai-me todos esses homens e mulheres que não têm abrigo, e eu os cantarei, alerta a autora. E nunca um livro é apenas um livro, mas uma memória suficientemente magoada para se soltar por palavras, pois a vida é demasiado breve para que o seu testemunho seja apenas vivê-la. Não há arte a não ser de uma angústia que não se demonstra na vida e há tudo por dizer, diz aqui um poema, há tudo por dizer.

Há dois mil anos andava à procura de um filho que perdera, há dois mil anos posso muito bem compreender a dor humana, replica Nossa Senhora de Burka. Como compreender a guerra? A guerra responsabiliza a poesia como último reduto da dignidade humana, a poesia não entra no Capitólio, mas caiu desamparada das torres gémeas, agonizou calcinada num abrigo iraquiano, a poesia andou nua pelos desertos com um grande sino de sangue... A poesia, plagiando Maria Azenha, entra pela janela dos humilhados, e canta pelos oprimidos.

Este livro tem dois lados. Um lado A, da guerra. Um lado B, da morte. E aqui se canta a morte que não morre, os quotidianos fragmentados, os comportamentos erráticos da esperança, choro choro choro, porque o meu cão morreu. Ah! é preciso dizer que hoje as crianças sentam-se à mesa e só começam a comer com anestesia local, é preciso dizer que este país parece um alferes melancólico, é preciso dizer «temos que ser uns para os outros», como objectou mesmo a menina sem nome da caixa do supermercado!

Este livro de poemas namora o infinito pelos caminhos que afrontam o Pentágono e todos os concílios do ódio, porque a poesia também vai por aí e por onde os ditadores têm palácios e posters pintados nos olhos das crianças. A poesia é ainda, como cantava Gabriel Celaya, uma arma carregada de futuro, uma arma de construção maciça.

Não sei avaliar esta poesia, mas eu sou um mero contista do virtual, um narrador que não existe, porque a internet - embora instrumento privilegiado da comunicação global: a internet é a noosfera, argumenta Baigorri (recuperando T. Chardin) - pode fazer desaparecer todos os versos, avisa a autora de Nossa Senhora de Burka, que hoje em dia um poeta vale menos que um cão.

Mas a guerra altera a poesia, e já nem precisamos da guerra. Virginia Woolf precisou da guerra para criar Septimus, a personagem-suicida em Mrs. Dalloway, a personagem que é talvez a própria escritora «na margem de um rio», diz Virginia, «na margem de um rio onde passeiam os mortos, que a morte não existe. Ali estava a sua mão; ali os mortos. [...] Mas Septimus não se atrevia a olhar». Nós não precisamos da guerra, basta-nos o seu rumor e o cortejo antecipado das vítimas. Já há mortos suficientes cuspidos pelos séculos.

A guerra alterou o traço de Goya, a tirania interrompeu o canto de Lorca, e agora mesmo é que Nova Iorque tem colunas de lodo e um furacão de negras pombas... A guerra impôs a sua paisagem de cemitérios na poesia de José Gomes Ferreira, e a realidade aparece aí em epígrafe, antes de cada poema o poeta toma essa precaução contra um frio de todos os tempos... «sim, [dizia o poeta], no século XX ainda se saqueiam cidades. E nos séculos XXI, e XXII e XXIII...». A guerra habita em cada crónica de José Eduardo Agualusa e transborda as suas «fronteiras perdidas» (seu livro premiado, de contos)... A guerra está em todo o lado, mesmo onde ninguém fala da guerra.

A guerra tem efeitos colaterais e intangíveis porque também mata a alma humana. Os efeitos intangíveis da guerra estão neste livro de Maria Azenha, no seu lado B. Uma inquietação sem lugar, com o excesso de tempo e de espaço da globalização, uma incerteza global. Vivemos os tempos da desrealização, isto é, do desreal, e assistimos à volatilidade das macro-narrativas que asseguravam a erudição da História e estabilizavam os amanhãs que cantam. Trajectórias colectivas e individuais tornam-se (mais) imprevisíveis. Por isso (ou nem por isso) a arte se fragmentou, estilhaçando as grandes audiências.

Este é um tempo de terror, um tempo de máscaras. O depois da guerra já o sabemos. Mortos nas goteiras, mortos nas nuvens, um céu forrado com a pele dos mortos (José Gomes Ferreira). É preciso continuar a fingir vida.

Este é um tempo de máscaras, mas as máscaras têm também a sua beleza e são necessárias. Como transcrevia Erving Goffman «as coisas vivas em contacto com o ar adquirem necessariamente uma cutícula, e não podemos acusar as cutículas pelo facto de não serem corações». Podemos acusar as palavras de não serem sentimentos? Podemos acusar a poesia de não evitar a guerra?

O que podemos fazer é abrir a porta à Nossa Senhora de Burka e, que mais não seja, oferecer-lhe um chá de cidreira.


Este texto foi também publicado na Nova Gazeta do Montijo.

01-03-2003