Balzac: o charme nada discreto
de um burguês
Helena Vasconcelos
publicado em Storm
Magazine Ao
longo de vinte anos, trabalhou praticamente sem interrupção,
numa obra monumental, “A Comédia Humana”, e morreu
aos cinquenta, praticamente sozinho e sem ter tido tempo para se dedicar
a mais nada, gasto pelo esforço de escrever continuamente para
manter um determinado nível de vida. Apesar da imagem de homem
forte e imponente que legou à posteridade, alimentava-se principalmente
de cafés, que tomava uns atrás dos outros e tinha por hábito
trabalhar toda a noite. Jantava às cinco da tarde, deitava-se logo
a seguir e chegava a dormir apenas duas horas, para depois retomar o trabalho,
sem ter comido, para que a “digestão não interferisse
na escrita”. Quando acabava um romance dormia vinte horas seguidas,
empanturrando-se de seguida com tudo o que o estômago comportasse.
A contínua exigência dos seus editores, que lhe publicavam
as histórias em jeito de folhetim, não lhe dava um momento
de descanso. Para além deste afã, Balzac passava o tempo
a rescrever e a corrigir obsessivamente. No entanto, mesmo os seus mais
fervorosos admiradores, como Baudelaire e Flaubert, reconheciam que ele
era medíocre, um escritor que utilizava os clichés mais
absurdos e as metáforas mais banais. Flaubert teve este desabafo:
“Que homem extraordinário teria sido Balzac se soubesse escrever
! Essa era a sua única falha. Ao fim e ao cabo, se tivesse sido
um verdadeiro artista, nunca teria conseguido ir tão longe e com
tanta energia.” Na verdade, “A Comédia Humana”,
com os seus 3.500 personagens, onde até estão incluídos
alguns animais, é um monumento desmesurado e avassalador em que,
como observou Baudelaire, até os “porteiros são génios”.
Balzac
é um romancista que utiliza como base de trabalho a própria
sociedade, conferindo-lhe o estatuto de um mito que comporta as bases
fundamentais que fornecem ao homem (e à mulher) a sua essência,
o seu princípio e o seu fim. O universo balzaquiano assenta na
ideia da sociedade total, ou seja, numa estrutura definitiva em que se
desenrola a “comédia humana” e onde existem, por um
lado, os seres que alcançam a “salvação”
porque se integram numa máquina em que todas as partes são
solidárias umas com as outras e, por outro, os que pretendem viver
à margem dessa organização inexorável e que,
por isso, estão condenados. É, no fundo, uma representação
da eterna luta entre aqueles que não abdicam de uma ordem antiga,
acabando esmagados e aqueles que abraçam as inovações
impostas pela História, adaptando-se aos tempos modernos. Na “Comédia
Humana”, os frequentadores da alta sociedade, os ricos, poderosos
e arrogantes, bem como os intelectuais, são obrigados a coabitar
com os mais pobres e destituídos, com as prostitutas, os criminosos
e os malandros, num mundo construído sobre os alicerces de uma
“ordem nova”, assente nas ideias da Revolução
Francesa de 1789.
Balzac foi um terrível moralista,
uma espécie de profeta da emergente sociedade burguesa. Trabalhou
afanosamente para pagar as suas múltiplas dívidas e manter
um estilo de vida que, até então, fora apenas privilégio
da aristocracia. Desejou ardentemente ganhar não só dinheiro
mas fama e honrarias, o passaporte seguro para os luxos das noites de
ópera, dos jantares opíparos, das amantes e das viagens.
Apesar de gastar fortunas com roupas, nunca conseguiu ter a imagem de
“dandy” com que sonhou. Era baixo e entroncado e com uma grande
barriga. Segundo o muito snob Alfred de Vigny, tinha ainda outras desvantagens:
falava pelos cotovelos e salivava abundantemente porque perdera um dente
da frente. Em 1835 escreveu a uma das suas amigas, dizendo que vivia carregado
de dívidas num luxo que escondia as suas “miséres”.
Tinha a teoria que a melhor forma de se manter, mesmo acossado pelos credores,
era gastando cada vez mais. (Por exemplo, quando o alfaiate lhe apresentava
uma conta, encomendava mais uma dúzia de fatos, em vez de pagar).
Apesar de ter sempre em mente um grande número de esquemas práticos
para ganhar dinheiro, esquemas esses que, aliás, muitos dos seus
personagens utilizam com sucesso, ele próprio só fazia uso
de fantasias que cada vez o colocavam em situação mais difícil.
Tinha ideias completamente absurdas, que raiavam a loucura, e era totalmente
destituído de bom senso. As mulheres, que ficavam fascinadas com
os seus escritos, quando o conheciam melhor, achavam-no ingénuo,
desajeitado e insensível.
HONORÉ DE BALZAC E AS MULHERES
O termo “balzaquiana” tem sido
aplicado a um certo tipo de mulheres, com características que não
estão totalmente definidas. Tem-se a tendência para restringir
a classificação a uma determinada faixa etária que,
até há bem pouco tempo incluía os quarenta anos mas
que, nos dias de hoje, se pode bem estender até aos cinquenta e
muitos.
Mas qual a origem da atracção
que Balzac sentia por mulheres mais velhas ? Uma compensação
pelo facto de ter tido uma mãe fria e inatingível ? Uma
segurança económica procurada desenfreadamente, ao longo
de toda a vida? A experiência sexual para quem era imaturo, nesse
campo? A disponibilidade para ouvir e amparar, no que diz respeito à
escrita ? A sofisticação que lhe faltava no âmbito
social e artístico? Recorde-se que as mulheres que mais o atraíam
eram independentes de corpo e espírito, inteligentes, cultas e
seguras de si, amantes de prazeres, mas com os pés bem assentes
na terra.
É verdade que Balzac não possuía
um aspecto físico atraente. No entanto, depois da sua morte, foram
encontradas, entre os seus papéis, mais de dez mil cartas de admiradoras.
O seu espírito e, segundo dizem, o seu olhar brilhante e arrebatador,
faziam dele um amante apetecível. Chegou a correr o boato de que,
“vários homens tinham obtido os favores de senhoras muito
respeitáveis, fazendo-se passar por Balzac”. Ele, pela sua
parte, procurou sempre nas mulheres que amou (e que o amaram), a inteligência,
a cultura e a experiência. Junto delas sentia-se seguro e confiante.
Balzac nasceu a 20 de Maio de 1799. Seus
pais eram de origem campesina mas o jovem Honoré frequentou a escola
e a família prosperou, tirando proveito dos tempos conturbados
que a França atravessava. Aos dezasseis anos, começou a
trabalhar num escritório de advocacia e a escrever ao mesmo tempo,
sob vários pseudónimos. Tentou ingressar no mundo dos negócios
mas só contraiu dívidas. Finalmente, aos trinta anos, publicou
as suas primeiras obras de sucesso, “ Os Chouans” e “A
Fisiologia do Casamento”, sendo esta ultima uma sátira em
torno do tema do marido enganado, que lhe granjeou fama imediata e um
enorme sucesso entre as mulheres. A primeira que ele desejou ardentemente
impressionar foi a própria mãe, uma mulher frívola
que não lhe proporcionou nem afecto nem amor. Anne-Charlotte tinha
dezanove anos quando casou com o pai de Balzac, que tinha cinquenta e
um. Os filhos foram uns empecilhos que ela colocou rapidamente ao cuidado
de amas. Honoré, talvez por nunca ter conhecido verdadeiramente
a mãe, teve sempre uma acentuada tendência para gostar de
mulheres mais velhas. Louise-Antoinette-Laure de Berney tinha quarenta
e cinco anos quando iniciou uma relação com o escritor,
nessa altura com vinte e três. Era uma mulher experiente que vivera
na corte de Versalhes durante o reinado de Luís XVI e de Maria
Antonieta, que era, aliás, sua madrinha. Quando estalou a Revolução
foi feita prisioneira, escapando à guilhotina por um triz. Já
casada, desapareceu durante cinco anos com um amante corso, de quem teve
um filho. Exerceu enorme importância na vida de Balzac, ajudando-o
a concentrar-se na escrita, tomando conta dele e perdoando-lhe as múltiplas
aventuras amorosas, excepto quando se tratou do romance entre o escritor
e Laure Permon, Duquesa de Abrantes, que também era bastante mais
velha e tinha uma grande experiência da vida de sociedade, na corte
imperial de Napoleão. Madame de Berney conseguiu interromper abruptamente
essa relação, talvez por sentir que Laure era uma adversária
de peso. Foi amiga fiel de Balzac até à morte, estimulando
nele o gosto pelas letras, no que foi secundada por outra mulher, Louise-Marie-Julienne
Bechet, que era dona de uma editora e conhecia todos os que eram alguém,
na cena artística e literária da época, contribuindo,
com a sua enorme lista de contactos, para o sucesso de Honoré.
Houve ainda Zulma Carraud que, quando iniciou
uma ligação com Balzac, também andava na casa dos
quarenta e muitos e era mãe de nove filhos. Ao contrário
das outras, aristocratas e citadinas, Zulma era republicana e vivia no
campo. Proporcionou ao escritor um refúgio calmo e acolhedor, onde
ele ia descansar das loucuras de Paris. Tratava-o com zelo e carinho,
preocupando-se em criar um ambiente onde ele pudesse trabalhar sem interrupções.
Mas foi com Eveline Rzewuska Hanska que Balzac casou. Ela era uma riquíssima
condessa Ucraniana que começou por ser uma das múltiplas
admiradoras, quando da publicação de “Fisiologia do
Casamento”. Trocaram correspondência durante anos. Quando
ela enviuvou, Balzac viajou até S. Petesburgo para a conhecer.
Depois de muitas vicissitudes, conseguiu convencê-la a casar, vendo
assim solucionadas as suas preocupações financeiras, um
triunfo tardio porque a morte o surpreendeu poucos meses depois, não
permitindo que gozasse plenamente o tão almejado desafogo que a
fortuna considerável de Eveline lhe proporcionou. É indispensável
acrescentar duas outras mulheres a este rol de amantes e admiradoras :
sua irmã Laure, que sempre o acompanhou, e a sua grande “amiga
literária”, a escritora George Sand (que, como se sabe, também
teve como amantes os frágeis Chopin e Musset), com quem discutia,
infindavelmente, por carta, as obras respectivas. Henry Lewes fez notar
que “…Sand, com a sua grande experiência de vida, conhecia
bem as paixões porque as sentia. Balzac sentia menos e observava
mais.”
Balzac escreveu:. “Só tenho
duas paixões na vida: o amor e a glória”. Mas, para
ele, a glória era a única forma de encontrar o amor.
Alguns ditos de Balzac :
“O amor é um jogo em que todos fazem batota.”
“Por detrás de todas as grandes fortunas, está sempre
um crime.”
“A solidão é agradável. Mas precisamos sempre
de alguém a quem o dizer.”
“Quando uma mulher nos ama, perdoa-nos tudo, até mesmo os
nossos crimes; quando não nos ama, não reconhece nem mesmo
as nossas virtudes.”
“É mais fácil ser-se amante do que marido pela simples
razão de que é mais difícil ser-se sempre espirituoso
todos os dias do que dizer palavras bonitas de tempos a tempos.”
“Nada torna uma amizade mais forte do que a certeza por parte de
cada um dos amigos de que é superior ao outro.”
20-06-2003

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