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Germano
de Almeida
Entrevista conduzida por Fernando
Nunes
O escritor cabo-verdiano Germano de Almeida
nasceu em 1945, na ilha da Boavista. Aos 18 anos veio estudar direito
para a Universidade Clássica de Lisboa, tendo regressado,
após conclusão do curso, à ilha de São
Vicente, onde foi durante muitos anos Procurador da República.
O seu romance mais recente tem por título As Memórias
de um Espírito e, à semelhança de todos
os outros, é mais um retrato pícaro e mordaz da sociedade
cabo-verdiana contemporânea. Actualmente exerce advocacia
e mantém a sua actividade editorial com o jornal literário
Água Viva, preparando também uma Viagem
à Historia das Ilhas, a editar em breve.
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P. Como é que o Germano de Almeida aparece como escritor?
R: Apareço de uma forma interessante,
pois logo a seguir à independência a produção
literária em Cabo Verde parou. Numa conversa com mais dois amigos,
no início dos anos oitenta do século passado, verificámos
que não havia nada e decidimos criar a revista Ponto e Vírgula.
Esta revista durou três anos e teve uma importância muito
grande pois era única. Eu, nessa altura, já tinha alguns
contos escritos e nunca tinha publicado. E pensámos: "Há
muita gente que tem coisas para publicar e não tem onde".
Portanto estávamos à vontade para acreditar que a revista
fosse obter muitas colaborações". Mas não tivemos
e, em último recurso, foram publicados os meus contos com a aprovação
dos meus outros colegas da revista. Eu ganhei coragem e comecei a publicar.
P: Cabo Verde tinha necessidade de escritores?
R: Pois, a ausência criou esse momento
especial. O que nós não entendíamos era uma terra
onde se falava muito de cultura e onde não apareceu de 75 a 81
uma novela, uma revista...nada! E foi isso que nos fez criar o Ponto
e Vírgula, onde publiquei muitos contos com pseudónimo,
o que em Cabo Verde é impossível pois todos querem imediatamente
saber quem é, já que é tudo gente conhecida.
P: Como é que aparece o primeiro
romance?
R: Após a publicação
de muitos contos no Ponto e Vírgula surgiu a ideia de publicar
o Testamento do Senhor Napumoceno que eu já tinha escrito
e pretendia oferecer a uma amiga como prenda de aniversário. Em
1989, ofereci-lhe a novela de que ela gostou muito e fez-me essa sugestão.
Como não havia onde o fazer em Cabo Verde, porque existia apenas
o Instituto Cabo-verdiano do Livro com fraca actividade editorial, nós
resolvemos fundar uma editora - a Ilhéu Editora - da qual sou sócio
e que começou a publicar os meus livros.
P: Qual foi a reacção da
sociedade cabo-verdiana à sátira implícita no "Testamento
do Senhor Napumoceno"?
R: Muito boa. As edições cabo-verdianas
naquela altura rondavam os trezentos exemplares. Nós decidimos
fazer uma edição de setecentos e cinquenta exemplares, não
porque achássemos que iria vender, mas porque ficava praticamente
pelo mesmo preço. Esgotou-se em três meses, o livro foi muito
bem aceite. Foi um recorde, um best-seller de setecentos e cinquenta exemplares.
Depois as pessoas começaram a insistir e fizemos novas edições,
tendo sido feitas nove, das quais foram vendidos nove, dez mil exemplares
em Cabo Verde.
P: Este livro deu origem a um filme realizado
por Francisco Manso que viria a vencer, em Agosto de 1997, o prémio
de Cinema de Gramado. Como é que viu a transposição
do romance para o ecrã?
R: Eu distingo sempre duas coisas: uma é
a obra literária e outra é a obra cinematográfica.
Isto é, eu não aceito a ideia de impor ao realizador fazer
o meu filme. Porquê? Porque quando eu leio um livro faço
um filme, do mesmo modo que outras pessoas fazem o seu filme. De maneira
que quando ele vai realizar é o seu filme e não o meu filme.
Daí que eu diga que há coisas no "Testamento..."
que eu gostaria de ver tratadas de outra maneira eventualmente, mas não
me permito sequer criticá-las porque é a minha forma de
ver que não pode ser igual à forma do Manso e não
posso obrigá-lo a fazer o filme que eu gostaria de fazer.
P: A partir daqui nunca mais pára
de escrever...
R: Não, porque isto é uma bola
de neve. Eu já tinha muitas coisas escritas e foi só uma
questão de publicá-las. Eu costumo dizer que se quisesse
publicaria um livro de seis em seis meses. Mesmo agora, que estou mais
preguiçoso, tenho muita, mesmo muita coisa escrita.
P: "As Memórias de Um
Espírito" é o seu livro mais recente e retrata
de novo a sociedade cabo-verdiana com o mesmo lado satírico e cómico...
R: É o meu livro mais recente e é
um livro escrito em forma de brincadeira. Vinha sendo escrito há
muito tempo e, como já não publicava há algum tempo,
achámos que estava na altura de o lançar. Como todos os
meus livros, anda à volta da realidade de São Vicente, que
permite ser satirizada porque as pessoas são muito especiais, são
muito bem-humoradas, mas os valores das gentes de São Vicente,
que são essencialmente pessoas vindas de outras ilhas, fez com
que criasse pessoas com um instinto de sobrevivência mais desenvolvido.
As pessoas foram para lá para fugirem da fome das outras ilhas,
mas não encontram de facto a terra prometida. Mas precisam de encontrar
modos de vida e se for preciso fazer contrabando fazem, se for preciso
enganar os outros enganam e isto sobretudo no porto...
P: Há uma preocupação
da sua parte em fazer transparecer através dos seus livros a realidade
cabo-verdiana?
R: Não. Aconteceu que eu fui para
São Vicente adulto, já formado. Fui para São Vicente
enquanto procurador da república. Portanto, uma profissão
que me permitia ter uma visão bastante alargada, ampla, da sociedade.
Por outro lado, não sendo dali, eu estava virgem naquela sociedade,
naquela realidade, o que me permitia ter dela uma visão completamente
diferente das pessoas que estão lá inseridas. Vi São
Vicente com os olhos de um estranho, o que continuo a fazer e permite
que continue a ver coisas que a eles não lhes chamam a atenção
e a mim chamam.
P: Como é ser um dos escritores
mais lidos em Cabo Verde, mesmo que uma boa edição não
ultrapasse os mil exemplares?
R: Eu nunca me defini como escritor, a minha
profissão é advogado, mesmo que nos últimos tempos
eu tenha vindo a advogar cada vez menos, e é esta profissão
que me dá o meu ganha-pão. Os livros são um complemento,
não tenho qualquer compromisso. É errado pensar que alguém
possa ganhar dinheiro com os livros em Cabo Verde. Daí que ser
escritor é uma coisa lúdica, eu escrevo quando me apetece
escrever. Eu vou publicar daqui a uns meses um livro que se chama Viagem
sobre a História das Ilhas e que fiz com o próprio prazer
de ler e estudar a história de Cabo Verde. Eu faço o livro
e apresento ao editor, se gostam, publicam, se não publicamos em
Cabo Verde, se a editora quiser. Já aconteceu publicar livros com
edição de autor porque a editora de quem eu sou sócio
não os quis publicar.
P: Fala-se e escreve-se muito pouco sobre
as diferentes realidades cabo-verdianas. Como vê o Germano de Almeida
a história de Cabo Verde após a independência de 1975?
R: A independência constituiu-se numa
verdadeira revolução para Cabo Verde. O desenvolvimento
verificado desde 75 até 90 não o tivemos durante os quinhentos
anos de tempo colonial. Isto, de facto, representou imenso para nós,
quer a nível económico, quer a nível social. Tivemos
acesso a bolsas de estudo em quase todas as partes do mundo. Criámos
de facto um escol de quadros como talvez não haja outro nos países
de língua oficial portuguesa e esse aspecto representou imenso
para Cabo Verde. A nível económico fomos criando estruturas
económicas, algumas boas outras más, aproveitaram-se muito
bem os auxílios que foram dados a Cabo Verde. Infelizmente, nas
eleições pluripartidárias em noventa ganhou o MPD
(Movimento Para a Democracia), um partido que se tornou liberal depois
de ganhar as eleições e provocou a privatização
de quase tudo o que havia de valor em Cabo Verde. Neste momento está
outra vez o PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde)
que é um partido que, não se opondo neste momento aos compromissos
que o MPD tinha tomado sobre a questão das privatizações,
está a tentar fazer com os nossos interesses fiquem de alguma forma
salvaguardados. Porque com o MPD o que aconteceu foi que toda a nossa
estrutura económico-financeira passou para a mão dos portugueses.
A Caixa Geral de Depósitos é dona do Banco Comercial do
Atlântico, dona da Garantia, da Promotora, das grandes instituições
financeiras. A Telecom foi vendida à Telecom portuguesa e outros
empreendimentos. Neste momento, Cabo Verde é um país que
não tem praticamente nada.
P: E como é que um advogado e
escritor se posiciona perante essa realidade?
R: Eu penso que aquilo que tivemos dificilmente
teremos outra vez e a situação não é agradável.
Repare, fala-se na globalização da economia que interessa
a certos países, mas não a Cabo Verde que só tem
gente para exportar. Temos gente a mais nas ilhas e não temos trabalho
para eles, porém não nos querem como emigrantes. É
neste sentido que um país como Cabo Verde, sem uma economia de
estado forte, fica numa situação extremamente difícil.
P: Como está actualmente a vida
literária cabo-verdiana?
R: Bastante forte. Há editoras, no
ano passado publicaram-se mais de cinquenta títulos, o que para
uma população de quase quinhentos mil habitantes é
bom. Nós fazemos edições de mil, mil e quinhentos
exemplares, mas o livro é lido por muita gente, isto é,
como as pessoas estão próximas, as pessoas conhecem-se e
o livro não é um bem que a gente compre para ler e guardar.
É como se o livro fosse qualquer coisa transitável, como
se as pessoas não considerassem o livro como uma coisa para se
guardar.
P: Os leitores portugueses do Germano
de Almeida podem lê-lo mensalmente na revista Pública...
R: Solicitaram-me há alguns anos atrás...essas
crónicas servem para dar a conhecer a realidade cabo-verdiana.
P: E como é a realidade cabo-verdiana
actual?
R: Não dá para ser definida,
pois não há um aspecto comum... eu tento citar os vários
pormenores por que ela é composta. Não há um modelo
que se possa dizer: "ela é assim". E de ilha para ilha
vai mudando, pois tem pessoas diferentes.
P: Como vê a relação
existente entre os escritores africanos de língua oficial portuguesa?
R: Se é verdade que nós temos
muito boas relações pessoais, também é verdade
que o conhecimento dos livros que estes escritores publicam é praticamente
inexistente. Até agora ainda não se conseguiu fazer com
que os livros que são publicados em Angola, Moçambique ou
São Tomé, chegassem a Cabo Verde e inversamente. Exceptuando
o caso de Portugal, em que conhecemos o que aí é publicado
e que constitui uma referência para nós, existe um grande
desconhecimento. Tudo o que não é editado em Portugal não
chega até nós.
Fevereiro de 2003
15-03-2003

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