"Não serviremos"

Carlos Leone


1. No primeiro artigo que escrevi para a revista NON!, subintitulado "(notas à espera de um ensaio)", tentei falar sobre aquilo que ainda hoje não posso fazer muito mais do que isso mesmo, tentar falar, ou escrever. A ideia era vincular a incapacidade geral de exprimir uma palavra pessoal, de convicção e razão em vez de estrito apetite e conveniência, ao silenciamento de tudo aquilo que pudesse ser minimamente problemático. Dessa incapacidade de deter uma palavra, "a minha palavra", deriva o irrisório e insignificante de todo o ruído que se produz em notícias e polémicas sortidas. Os casos indicados na altura (princípios de 1999) poderiam hoje ser facilmente substituídos pelos "escândalos" dos finais de 2002: da Casa Pia ao ministro Morais Sarmento, do Prestige à "aposta nos jovens" do sr. Boloni. Nesse artigo de 1999 não faltavam referências várias e confusamente sociológicas ao fechamento dos subsistemas sociais portugueses, tema caro a Manuel Villaverde Cabral e que eu gostava de poder desenvolver; em particular o fechamento do subsistema da comunicação social. Um pretexto sério para voltar de forma útil ao tema é Maquinações e Bons Sentimentos, de Fernando Venâncio, editado em 2002 pela Campo das Letras.


Fernando Venâncio,
Maquinações e Bons Sentimentos,
Porto, Campo das Letras,
2002

2. O volume reúne quase duzentas páginas de opiniões e polémicas em torno da vida literária portuguesa nas duas últimas décadas do século XX. Quase todos os artigos foram publicados no JL e em nenhum, ou quase, o problema que motivou o meu artigo de 1999 ocorre. É uma grande virtude de Fernando Venâncio, uma das maiores: comete deliberada e repetidamente a inconveniência de assinar por baixo (a sua palavra) tudo o que escreve sobre os outros (as palavras que não foge a escrever).

O título remete para a organização do livro: Maquinações; Bons sentimentos, Mais maquinações; Mais bons sentimentos. Mas pelo menos para mim a diferença sente-se sobretudo da primeira para a segunda parte, em que o tom dos artigos é bastante mais conciliador; as duas restantes ficam perto do tom da primeira. Talvez seja só efeito secundário da impressão desusada que a viseira aberta (termo caro a Venâncio) do crítico causa logo na abertura e que, depois do contraste com os textos menos controversos da segunda parte, retorna nos dois últimos capítulos. Seja como for, pela natureza dos artigos ou pela sua simples disposição no livro (não cronológica), o conjunto é muito mais coerente e ordenado do que é norma em volumes de recolha de textos de Imprensa e permite identificar uma série de traços característicos do crítico e, o que é mais importante num país tão dado a capelinhas, da crítica. São eles: a independência do gosto; a sinceridade na crítica (também dita "singeleza"); a prática permanente da regra defendida. Como é natural num livro assim, tão pouco português, não falta o índice onomástico.

3. A independência do gosto do crítico Fernando Venâncio surge tanto no modo como no tempo. Isto é, do mesmo modo que não pretende ter descoberto Saramago antes de toda a gente (para dar apenas um exemplo), também não se coíbe de insistir em nomes (temporariamente) desconhecidos pelo mérito que efectivamente lhes reconhece. Curiosamente para alguns, Venâncio antecipa-se a Miguel Real em alguns anos ao falar de uma geração de contemporâneos que marcariam os 90's portugueses (em rigor, já num nº da Vértice dedicado ao neo-realismo, em que Venâncio aparece integrado numa mesa redonda, usara a expressão geração de 90 que em 2001 criticou a Miguel Real em termos desajustadamente duros mas que, aí como aqui, não se furtavam a dizer o nome e a enunciar as suas razões). A autonomia do gosto é uma condição sine qua non da crítica, literária ou não, e em artigos como os deste livro vê-se bem como ela não depende de uma educação estética ou sentimental particularmente cuidada (embora isso só a ajude), mas sim de uma disposição para o exercício da liberdade pessoal de escolha sem servidões voluntárias aos consensos de cada época, para os quais Fernando Venâncio reserva habitualmente muito do seu melhor engenho.

4. Convém não perder de vista como os textos de polémica crítica se diferenciam. Com Frias Martins, por exemplo, o registo é do melhor que se pode encontrar em Portugal (em Português) quanto a correcção e inteligência no debate sobre alguns recônditos da nossa crítica de hoje (e não da nossa literatura, como se afirma na contracapa do livro). Pena é ser muito breve: com mais fôlego decorreria inevitavelmente a discussão do que Frias deixa omisso na sua posição, a saber, que a crítica literária não é feita por jornalistas mas sim por académicos, o que ambos sabem mas só Venâncio se preparava para comentar (parece-me). E como seria oportuno ter havido esse esclarecimento há uma década, quando em 2002, a pretexto da poesia e da poética, a Inimigo Rumor veio de novo lançar a confusão a este respeito. Por falar em Guerreiro: mais numerosas, e mais previsíveis, são as trocas de mimos com António Guerreiro e Eduardo Prado Coelho. Da parte de Venâncio o tom mantém-se equilibrado, com um e com outro; de Guerreiro, além das manias de sempre (a crítica acabou, o romance acabou, já só a cultura da MittelEuropa nos pode salvar), fica pelo menos um modo de escrever que permite uma discussão produtiva; com Prado Coelho é sempre o que se sabe e, se mérito há nas polémicas que Venâncio aqui reúne (creio que não serão todas as mantidas), é perceber-se perfeitamente a diferença entre um crítico e quem lhe veste a pele, ocasionalmente, nos salões.

Menos comuns são discussões entre críticos e autores. Com Vergílio Ferreira, mas sobretudo com Saramago, Fernando Venâncio mostra como se pode fazer. Com Saramago é quase sempre exacto, com Vergílio é por vezes exemplar. Como anunciado na controvérsia com Frias Martins, tanto com críticos como com autores o confronto não se faz por meias palavras. "Eu, que sou singelo, mas não sou parvo, tenho perguntado a alguém mais íntimo: de quem é que vocês exactamente têm medo? Vocês dependem de alguém? Nunca dependem, os sacanas. Mas não andam tranquilos. E, em momentos de temor por mim, segredam-me: "Olha que tu, com esse, vê lá, não te metas!" Nunca sabem dizer donde vêm os pressentimentos, mas sobre a dimensão os perigos não lhes sobram dúvidas. Eu fico, claro, impressionado, mas nada esclarecido." (p. 24) Tivesse eu a mão de Venâncio para escrever bem (cf. pp.147-157 para uma definição a bem dos necessitados) em 1999, ou hoje, e tê-lo-ia escrito sem precisar de citar.

5. A prática não merece que eu continue a escrever sobre ela - este artigo está a ficar frouxo e de qualquer modo o livro é todo ele, literalmente da primeira à última página, a melhor exposição dela que se pode procurar. Citar também não serve, pois haveria uma multidão de passagens. Ficam só duas. A primeira é a que dá título a estas notas:

"Não, a salvação estaria num portentoso, num vasto e colectivo Não serviremos. Nenhum académico permitiria, a partir de hoje, que o seu trabalho, ou o de um colega, se dobrasse a pressões que não fossem as da liberdade intelectual. Em acção conjunta, velariam por que, na hora das avaliações, contassem tanto o conhecimento da "memória colectiva" como a capacidade de geri-la." (p. 42)

Uma outra, mais longa, serve bem para terminar, entre tantas outras possíveis só que com o inconveniente de serem mais breves:

"Isto para dizer o quê? Que me reconheço uma espécie de cavador literário. E que é exactamente por isso que a literatura do meu tempo me apaixona. Pretendo fazer nela o que quisera ter visto feito há um século: falarem-nos mais do tempo deles, iluminando aquilo que depois se nos tornou invisível, ofuscado como estamos pelo "cânone" entretanto formado. Tivessem-no ele feito, e outros autores se teriam estimulado, produzindo o que por falta de alento não produziram, estando hoje mais altos na escala canónica ou simplesmente salvos do olvido. Mas é evidente: tivessem eles feito aquilo que eu queria que se fizesse, a história literária era agora outra. Para isso, para esta nostalgia, meu caro, não há saída. Uma história "alternativa" da literatura é inencontrável. Ou irreconhecível, o que vem a dar ao mesmo. E, no entanto, isto não me larga. Quereria fazer hoje a história "alternativa" do meu tempo. Quereria que alguém no futuro, observando por sua vez esta nossa época, pudesse dizer que nós fizemos, que alguém fez, o que era preciso que se fizesse. E é procurar esse olhar exterior, esse olhar já "histórico", o que me fala ao ouvido, Já percebeste: eu desejaria poder escrever, hoje, a nossa história futura." (pp. 168/9).

05-01-2003