Talvez um par de estalos

Sarah Adamopoulos

Nunca hei-de compreender o que leva uma mãe a fomentar no seu filho ainda criança o gosto pela exposição televisiva. Sei perfeitamente que é preciso pagar as contas e comprar comida – não sei eu outra coisa. E até entendo que ver uma conta bancária crescer sem grande esforço constitua nestes tempos difíceis um motivo de felicidade. Mas aceitar que uma criança falte de forma recorrente à escola para andar a debitar frases em telenovelas e anúncios publicitários não é coisa de que seja capaz.

Isto que para aqui escrevo é um grito de indignação, é um grito que me vi forçada a reprimir quando recentemente, no âmbito de uma peça jornalística, me cruzei com uma mãe cuja principal actividade é caminhar para os plateaus. Com o filho pequeno pela mão, toda contente, embora talvez pretendendo-se incomodada com a frequência das solicitações das produtoras de televisão, que maçada. Que fica sempre bem uma certa resistência, a fingida.

Penso nesta mulher e só me apetece chorar de solidão. Eu que dessintonizei a TVI do alinhamento dos canais do cabo por excesso de acefalia e que controlo qual pide raivoso os conteúdos e minutos de televisão que a minha educanda vê por dia, nunca hei-de compreender isto que nos está a acontecer. Isto de a televisão se ter transformado num monstro que transforma por sua vez pessoas que até teriam as suas virtualidades em monstros de passividade, desprovidos de qualquer sentido crítico, com vidas regidas pelos horários dos shows televisivos.

Eu já sabia que era assim. Quero dizer que há largos anos que penso nisto e que o digo – ou escrevo, é igual. Quem me lê de forma regular sabe que sou uma seguidora do preconizado pelo livre pensador Boris Vian, que numa canção defendeu as potencialidades artísticas e conceptuais de ter na sala um televisor com o cinescópio virado contra a parede. Mas só agora que me cruzei com esta mãe é que compreendi as verdadeiras dimensões desta questão, que naturalmente permanece por debater em Portugal.

Se é certo que a televisão transformou muitíssimo o universo da actividade teatral (há muito quem pense que os actores de telenovela não são actores a justo título), também é certo que a produção televisiva precisa de crianças. Sendo a ficção para televisão uma representação da vida e fazendo as crianças parte da vida, é normal vê-las na televisão. Por outro lado, e embora contra a filosofia de muitos, a televisão é o veículo de excelência para a promoção comercial de todo o tipo de produtos de consumo. Isto não é sequer questionável. E também para a publicidade são precisas crianças.

Há pais que com veemência se opõem a que os seus filhos participem em programas ou anúncios de televisão. Mas também há quem não se oponha e até quem fomente o gosto pela exposição pública das crianças, questão sobejamente polémica. Em França, por exemplo, o debate em torno do direito à imagem – entenda-se à sua preservação – determinou, entre outras coisas, que os pais não possam ter acesso aos honorários pagos pela uso da imagem dos filhos em anúncios publicitários. Em Portugal está tudo por fazer. Pensar, levar a debate, legislar.

Há um livro chamado Les Petits Enfants du Siècle da já desaparecida Christiane Rochefort que conta a história de umas crianças que são trazidas ao mundo em função das necessidades dos pais em matéria de electrodomésticos. Trata-se de um texto que critica impiedosamente o Estado Providência francês e que denuncia a subversão oportunista que os esquecidos de Deus fazem dos direitos e garantias adquiridos. Benesses criadas não para os proteger da absoluta miséria material, mas para os incentivar a multiplicarem-se sem terem de renunciar aos bens de grande consumo (caso das máquinas de lavar roupa), contribuindo desta forma para o rejuvenescimento de uma população patologicamente envelhecida.

Como escreveu Leonel Moura num pequeno romance recentemente editado, Portugal é um país pacato onde dorme um vulcão social. Convém por isso reflectir sobre as verdadeiras motivações que levam uma mãe a pôr os seus filhos a render nos plateaus das produtoras de programas e anúncios de televisão. É que enquanto as crianças se distraem a fazer televisão, faltam à escola. E as professoras até nem se importam, de tal modo é avassalador o orgulho que sentem por ver os seus alunos nos écrans.

Há qualquer coisa que é preciso parar. Talvez seja uma máquina. Talvez surja inofensiva. Talvez seja diabólica. Talvez um par de estalos.

24-06-2003