O estúpido raciocínio da praxe

Ricardo Coelho

O raciocínio inerente à praxe é básico: o ensino superior é um privilégio e como tal ser estudante universitário implica pertencer a uma elite. Mas não basta passar todas as barreiras sócio-económicas inerentes à entrada na faculdade, como o numerus clausus ou a (in)disponibilidade de rendimentos, para que se pertença a esta elite. É necessário ainda passar-se por um ritual iniciático de "integração" no qual o novo aluno se sujeita às ordens humilhantes proferidas por outros estudantes que já passaram pelo mesmo.

Torna-se assim clara a relação de causalidade entre a elitização do ensino superior e a existência de praxes. Enquanto que o acesso a uma educação superior não for entendido como um direito básico de cidadania, é natural que se ache normal a ideia de que há que sofrer para pertencer à elite de quem aspira a ter um canudo. É igualmente natural que os estudantes que pertencem a essa elite se convençam de que formam uma classe à parte do resto da sociedade. Neste contexto surgirá o traje universitário, que terá o duplo fim de os uniformizar entre si e de os destacar do resto da população.

Diz quem está por dentro que a praxe é uma escola de vida. Não poderia estar mais de acordo. Num mundo dominado por um sistema injusto, a submissão e a supressão do livre pensamento são fundamentais para a garantia da "paz social". Estas tarefas são em grande parte asseguradas pelo sistema de ensino que não é mais que o ensino do sistema e do qual a praxe é a mais macabra faceta.

Pelo mesmo raciocínio se depreende a veracidade do argumento de que a praxe é um ritual de integração. A questão é: integração em quê? Não interessa em quê, dizem, o que interessa é que nos integremos no rebanho sem fazer perguntas.

Uma integração deste tipo exigirá hierarquias bem definidas, quer entre estudantes quer entre faculdades. Ordem e disciplina são as palavras-chave, tal como nos tempos do Estado Novo. Exige-se assim respeito pela ordem estabelecida e uma dedicação corporativa à faculdade onde se estuda. "Dura praxis, sed praxis", dizem.

Obviamente que perante um sistema concebido desta forma, atropelos à dignidade humana e à integridade física como os que ocorreram no Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros serão, mais que frequentes, previsíveis. A partir do momento em que a praxe se organiza através de uma hierarquia de tipo militarista onde se ascende acumulando inscrições, isto é, chumbando indefinidamente, o que elimina qualquer vestígio de democracia, basta que haja um grupo de indivíduos que a utilizem como via de auto-promoção e de terapia contra as suas frustrações para que fenómenos de violência ocorram. E esta é a regra, não a excepção. Qualquer distinção entre "boas praxes" e "más praxes" peca por ser simultaneamente arbitrária e artificial.

Basta observar a realidade para ver que casos de violações dos direitos humanos resultantes de praxes abusivas (passe o pleonasmo) não ocorrem apenas em pequenas e médias cidades, não afectam apenas os cursos menos prestigiantes e as faculdades com menos nome e não envolvem apenas alunos pouco conhecedores da "tradição académica". São múltiplos os casos de abusos que ocorrem nas faculdades públicas de medicina ou de direito, no Porto ou em Coimbra, envolvendo alunos "das melhores famílias" e fiéis à "tradição". Os estudantes universitários sabem que isto é verdade, pois as notícias circulam rapidamente no meio académico.

Muitas associações de estudantes preferem no entanto fechar os olhos a esta realidade, quer porque se encontram dominadas pelas comissões de praxe, quer porque preferem manter uma posição dita neutral para não perderem votos. Quanto aos conselhos directivos e às reitorias, seguem o exemplo dos governos que arquivaram 9 casos de denúncias desde 1997 sem sequer realizar qualquer tipo de averiguação: são cúmplices da situação por não fazerem nada para a combater. A esta actuação está sempre inerente a absurda ideia de que a praxe constitui um mundo à parte, onde a lei não se aplica e a polícia não actua.

Mas o que são abusos de praxe afinal? Não é um abuso pôr um/a aluno/a de quatro, usando fraldas e orelhas de burro, enquanto se o insulta e se lhe diz que é um ser reles sem direitos? Não é um abuso fechar várias pessoas numa sala durante um dia inteiro sem comer? Não é claramente um abuso por o chamado "bicho caloiro" num caixão fechado durante horas?

Dizem os praxistas que só vai à praxe quem quer, ao mesmo tempo que admitem que quem não for à praxe pode sofrer represálias, entre elas a ostracização. Independentemente de isto ser ou não verdade (e na esmagadora maioria dos casos não o é), haverá sempre muita gente a aderir a este ritual apenas pelo medo das consequências que essa opção pode acarretar ou pela necessidade de não se excluir de uma prática na qual a maioria alinha. Repare-se a este propósito que o argumento utilizado para convencer as pessoas a ir à praxe é sempre um do tipo: "se não fores acontece-te isto e aquilo", com variadas mentiras pelo meio. Aliás, se a praxe fosse efectivamente divertida e facultativa, bastaria colocar um cartaz num sítio visível da faculdade divulgando a sua existência e explicando em que consiste para que os estudantes do 1º ano aparecessem, sem que fosse necessário andar a persegui-los pelos corredores.

É tempo de evoluir, abandonando esta "tradição" medieval. Mas o fim da praxe não passa por proibições ou regulamentos que vêm "de cima" e que podem até ser contraproducentes. Passa por um 25 de Abril nas faculdades, que restaure a igualdade de direitos entre estudantes, desaparecida nos anos 80, e que substitua a praxe por uma recepção igualmente divertida para todos aqueles que nela participam.

Eu, por mim, recusei a praxe. E fui feliz na mesma.

31-01-2003