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Silêncio e tanta gentePaulo Pamplona Côrte-Real
Tive mais um exemplo recente de que o "politicamente correcto" em Portugal é cada vez mais (e até mais do que nos E.U.A.) objecto de comentários pseudo-jocosos. Ser politicamente correcto é portanto uma fantasia de pessoas pouco maleáveis (cujo sentido de humor é aliás notoriamente inexistente), e a fantasia atinge um grau tal que a utilidade de qualquer discussão em torno dela é obviamente nula, ao ponto de poder por isso ser reduzida a mero pretexto de piadas fáceis. Não sei ao certo até que ponto as minhas posições públicas (e sobretudo internáuticas) terão prejudicado ou estarão a prejudicar a minha vida quer pessoal quer profissional. A realidade é que por mais que toda a gente à minha volta tenha sido posta ao corrente dessas posições, a reacção aparente não existiu: é que toda a gente as leu e toda a gente as comentou - mas não comigo. Pelo contrário, a única reacção que tive (salvo muito raras excepções) foi o silêncio. É que o silêncio é óptimo: por um lado, está em perfeita consonância com a vontade de fingir que qualquer problema relativo à homossexualidade não existe (se é que a própria homossexualidade existe...) e por outro, é obviamente absurdo estar a classificar o silêncio de preconceituoso. E, afinal, todos sabemos que bem mais grave do que ser preconceituoso seria, naturalmente, parecê-lo. O escândalo da pedofilia na Casa Pia
veio mais uma vez confirmar os horrores apoiados pelo silêncio;
porém, e independentemente do mérito óbvio da investigação
jornalística, o tratamento mediático da questão tem
sido extremamente questionável. Jornais e televisões alimentam
despreocupadamente (e mais ou menos intencionalmente) a confusão
entre pedofilia e homossexualidade (na boa tradição recente
de "responsáveis" da Igreja Católica nos E.U.A.).
Etimologicamente, a palavra "democracia" não significa "regra da maioria" e muito menos "ditadura da maioria"; a palavra pretende designar um sistema político em que o poder é detido por toda a população e possivelmente exercido pelos seus representantes. É fundamental perceber-se que se opta pela regra da maioria apenas porque é extremamente difícil conseguir resoluções unânimes - ou seja, por uma questão de mero pragmatismo. Torna-se evidente então que a opção pela regra da maioria só será verdadeiramente democrática se se tiver em especial atenção a necessidade de salvaguardar os direitos das minorias não representadas. É isso que significa ser politicamente correcto: apenas ser democraticamente correcto. Em Portugal, a expressão "politicamente correcto" tornou-se, pouco tempo depois da sua importação, um sinónimo de falta de maleabilidade e de sentido de humor (uma crítica aliás também anacronicamente importada de um país com condições bem diferentes das portuguesas). E se é verdade que há algum puritanismo exagerado nalguns dos defensores originais da correcção política, a ideia subjacente é fundamentalmente sã: em democracia, uma minoria que é vítima de desigualdade é vítima antes de mais da falta do reconhecimento dessa condição - não tendo sequer a igualdade de oportunidades necessária para a combater. Há por isso inevitavelmente um apoio (mais ou menos consciente, mas necessariamente negativo) à manutenção de situações desiguais quando se desdenha o intuito antidiscriminatório da "correcção política". É que aí já se teve acesso à informação de que essa discriminação existe, mas optou-se por subvalorizar a questão. E só pode subvalorizar a questão quem não é - pelo menos conscientemente - vítima dela (e aliás, só se pode também criticar a tal "ausência de sentido de humor" depois de se sofrer uma situação de desigualdade e de se tentar perceber se há sentido de humor que resista...). Pela minha parte, inevitavelmente, continuarei a (tentar) ser "PC"[1]. Ora, ser "PC" implica não só reconhecer a existência de situações de desigualdade, mas também identificar os elementos que as perpetuam - e combatê-los activamente. Um desses elementos é, inevitavelmente, o silêncio. É o silêncio que permite que casos como o da Casa Pia se prolonguem ao longo de décadas. Mas há aqui dois silêncios: o silêncio dos que têm o poder (do qual abusam) e que têm medo de o perder e o silêncio dos que não têm poder mas têm medo de quem o tem - e de quem dele abusa. São dois medos muito diferentes - e são dois silêncios muito diferentes. E como o primeiro não desaparece voluntariamente, é fundamental criar todas as condições para que o segundo possa desaparecer. Ora, um pedófilo beneficia do primeiro silêncio que encobre as suas práticas ilícitas, de abuso de poder; um homossexual, pelo contrário, é vítima do segundo silêncio: um silêncio imposto por uma maioria que abusa dessa condição para afirmar que ele não existe e, sem qualquer justificação ética, que ele não deve existir. É esse silêncio que faz com que um jornalista associe despudoradamente pedofilia a homossexualidade: como a última afinal não existe, não há problema em atribuir-lhe mais uma conotação negativa. Contraria-se assim com um à-vontade notável a luta sistemática de afirmação homossexual e de reconversão política do termo "homossexualidade" para designar uma orientação sexual e/ou afectiva que é tão legítima como qualquer outra desde que o seu exercício (tal como o de qualquer outra) seja voluntário e entre adultos. Ora este tipo de associações, consequência do silêncio passado, vai estimulando a imposição de um silêncio futuro, assim como as inevitáveis consequências no plano dos direitos. Quando se denuncia um pedófilo, elimina-se um silêncio horrível; quando se associa a pedofilia à homossexualidade, garante-se pelo contrário a manutenção de outro silêncio horrível que, caso venha a ser quebrado, continuará a gerar consequências cuidadosamente silenciosas - à excepção, claro, de eventuais condenações mais vocais por parte da família, essa instituição em que os abusos já são permitidos. Daí que, mesmo (paradoxalmente) quando está a ser utilizada para quebrar silêncios, outro dos elementos de perpetuação de desigualdades seja a própria linguagem: é que a escolha dos significantes é também e afinal um instrumento poderoso de criação e cristalização de significados. A construção democrática implica a democratização da informação e os media podem ter um papel absolutamente fundamental na construção de uma democracia cada vez mais inclusiva e, logo, verdadeira - mas, por terem esse poder, têm também uma obrigação acrescida de compreender a importância do uso da linguagem e de fazerem escolhas formais conscientes das suas implicações substanciais. Ser politicamente correcto passa portanto por conseguir pensar a democracia, por conseguir identificar relações de poder e por reconhecer que nenhum silêncio é de ouro, tentando sempre garantir condições para a sua denúncia. O combate ao silêncio e à ignorância é extraordinariamente exigente. É por isso que a correcção política tem que ser uma escolha - mas uma escolha que implica, como sempre, uma responsabilidade.
<Página Pessoal de PPCR em http://ppamp.home.sapo.pt> 05-01-2003 |
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