Iznogoud
Miguel Vale de Almeida
Não, não foi nas
aulas de História que ouvi falar de Bagdad pela primeira vez, ou
dos grandes reinos da Mesopotâmia e Suméria que ocupavam
aquelas paragens na Antiguidade. Bagdad surgiu-me na banda desenhada –
mais exactamente nas páginas da revista Tintin. Goscinny
(o mesmo de Asterix) e Tabary assinavam uma série chamada
Iznogoud. A acção desenrolava-se naquela cidade do médio-oriente
e as duas personagens principais eram o Califa e o Grão-Vizir,
chamado Iznogoud. O Califa era um jovem gordo, preguiçoso
e ingénuo; o Grão-Vizir era o astuto e perverso primeiro-ministro,
que manipulava o poder a seu bel-prazer – começando pela
manipulação da moleza congénita do Califa. Desde
então que procuro sempre os “Califas” e os “Grão-Vizires”
em toda e qualquer situação onde o jogo do poder institucional
se desenrole: numa empresa, numa faculdade, no governo de um país.
Tivemos já uma boa dose
de Califas. Mário Soares, embora astuto politicamente, tinha essa
característica bonacheirona, fazendo a política mais numa
conversa entremeada de “pás” e asneiras suaves do que
em negociações recheadas de cinismo e hipocrisia. Jorge
Sampaio também é um Califa, pelo menos no espanto infantil
das suas expressões, na tendência para se emocionar e lacrimejar.
Eanes foi a excepção e talvez por isso não tenha
deixado saudades.
Mas o cerne da questão é
este: há sempre alguém que exerce o poder de modo maquiavélico,
que manipula, que calcula, que acha que os fins justificam os meios. Em
situações extremas, a sua job description pode
incluir a tomada de posições que prejudiquem a própria
coisa que eles representam – um país, por exemplo –
se acharem que os benefícios ulteriores o justificam ou se lhes
for conveniente em termos de jogo político imediato.
Ora, assistimos nos últimos
dias a uma coisa espantosa. O nosso grão-vizir, perdão,
o nosso primeiro-ministro, assinou um documento com mais sete grão-vizires
europeus, apoiando a política de guerra de Bush. Os motivos são
claros (isto é, não o são, mas nós percebemo-los):
em primeiro lugar, garantir margem de manobra no jogo dos países
mais pequenos contra o eixo Franco-Alemão; em segundo lugar, promover
internamente a imagem de força autoritária guerreira que
confirme que estamos mesmo num regime de direita.
No fim das histórias, Iznogoud
perde sempre. De alguma forma a justiça triunfa e os desígnios
maquiavélicos da Segunda Figura (em Portugal, por acaso, até
é terceira) são revelados. O maquiavelismo tende sempre
para a trapalhada e algures no percurso falha qualquer coisa. Felizmente
não precisamos de esperar pelo fim da história. Durão
Barroso já cometeu dois graves atentados: o primeiro, contra a
democracia representativa, ao ter tomado uma decisão daquela gravidade
sem consultar a Assembleia da República. O segundo, contra a União
Europeia, ajudando a criar uma brecha e enfraquecendo-a face aos EUA.
Se quiséssemos ser mais
papistas que o papa, não seria legítimo dizer que, uma vez
que Portugal é membro da UE - e esta já é mais do
que mera aliança económica (de certo modo é um país
maior que o país) - Durão Barroso acaba de “trair
a Pátria”? Para conseguir os seus intentos, Iznogoud passava
a vida a fazer isso mesmo... E o Califa ficava calado.
Mas um Iznogoud nunca funciona
sozinho. Precisa de distribuir benesses, é certo. O seu maior apoio
vem daqueles que se apaixonam pelo pragmatismo e pela força, pelo
“realismo” da política. Em Portugal, parecem ser proporcionalmente
mais as ocasiões de apoio a Bush do que na própria América.
Não por parte da população, mas por parte de mil
e um Iznogouds em posição de influenciar toda a gente. Num
mesmo dia leio artigos em jornais e revistas americanas contra Bush e
a guerra, incluindo um abaixo assinado ocupando uma página inteira
da New York Review of Books (não, não é
um pasquim de esquerda universitária...) onde constam nomes sonantes
da América; e leio um Público cujo director incita
à guerra, ou vejo o mais-bushiano-que-Bush Luís Delgado
nomeado para director da agência noticiosa nacional....
Iznogoud decidiu que a Base das
Lajes deve ser disponibilizada para a guerra dos americanos. Iznogoud
decide estas coisas sozinho, desprezando a democracia representativa.
Iznogoud trai a União Europeia. Iznogoud faz tudo isto aliando-se
a personagens do mundo do crime como Berlusconi. Iznogoud deixa o seu
ministro dos Estrangeiros dizer candidamente que a coisa foi feita para
ter efeitos mediáticos. Iznogoud goza connosco, o Califa deixa
e nós também. This is not good.
P.S.: No dia 15 haverá uma manifestação contra a
guerra no Iraque. Espero, desta vez, não ter que aturar discursos
de 52 organizações do PCP disfarçadas de organizações
de velhos, de sindicatos, de mulheres, de jovens, de paz e do diabo a
sete. Só desejo uma manif contra o absurdo e que mostre
claramente que os portugueses acham que Durão Barroso is no
good. Se lá estiver a carrinha de som da CGTP e subir ao palco
um senhor da Associação-do-Sul-e-Ilhas-dos-Técnicos-de-Contas-pela-Paz-e-Amizade-e-Cooperação-
entre-os-Povos, venho-me embora.
mvda@netcabo.pt
http://valedealmeida.no.sapo.pt/
09-02-2003

|