Remédio Mortal

Michel Lotrowsk



Líderes dos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia tentaram dar um tom de otimismo ao relatório final da reunião de cúpula do G8, que aconteceu nos primeiros dias de junho, em Evian, na França. No entanto, as organizações da sociedade civil presentes foram unânimes em afirmar que os compromissos assumidos não passam de mais uma estratégia das nações mais ricas para ampliar suas riquezas.

O Plano de Ação em Saúde, por exemplo, aprovado durante a reunião, sacrifica soluções para um maior acesso a medicamentos essenciais em nome de interesses políticos e comerciais. Trata-se muito mais de "um plano de inação", já que a versão preparada pela França foi substituída para atender a interesses defendidos claramente por países como os Estados Unidos.

O plano francês que vinha sendo negociado com a sociedade civil era considerado um progresso nas negociações em saúde. Garantia incentivos para o acesso a medicamentos genéricos por meio da implementação do acordo de Doha, no qual as questões de saúde deveriam estar acima de interesses comerciais; estabelecia preços diferenciados de medicamentos para países em desenvolvimento; estimulava a produção local e a transferência de tecnologia; e criava financiamentos de longo prazo para o Fundo Global de Combate à Aids, Malária e Tuberculose.

Após a aprovação do Plano de (in)Ação em Saúde, a única seção que mostrava alguma determinação era a referente à Síndrome Respiratória Aguda Grave. As doenças típicas de países pobres e que trazem conseqüências mínimas para as grandes economias mundiais não receberam a mesma urgência.

Na prática, o G8 está oferecendo às nações em desenvolvimento um remédio amargo e difícil de engolir. Os financiamentos para saúde irão diretamente para os bolsos das indústrias farmacêuticas do Ocidente, em vez de contribuírem, em longo prazo, para a oferta de mais medicamentos em um mercado competitivo e com preços acessíveis.

Barrados(as) no baile

Apesar dos distúrbios observados durante o encontro, provocados principalmente por ativistas antiglobalização, boa parte da sociedade civil presente – do lado de fora – lembrou, de forma pacífica, aos líderes dos países mais ricos do mundo sobre os compromissos assumidos em 2000, na reunião de cúpula do G8 em Okinawa, Japão.

Durante a reunião em Okinawa, os líderes do G8 prometeram combater as doenças infecciosas, estipulando metas para 2010 como a redução dos índices de jovens infectados pelo HIV em 25%, redução do índice de mortalidade por tuberculose e de casos de malária em 50%. Esses objetivos, no entanto, estão longe de serem alcançados. Dados epidemiológicos indicam que a situação dessas três enfermidades piorou nos últimos 3 anos.

O número de crianças infectadas pelo HIV triplicou, pulando de 1,3 milhão, em 2000, para 3,2 milhões, em 2002. A prevalência da tuberculose cresceu 1,5% nos dois últimos anos, sendo que na África esse crescimento foi de 4%. E o número de novos casos de malária permanece inalterado, apesar da mortalidade de crianças com menos de 5 anos de idade ter crescido cinco vezes em algumas partes da África devido ao aumento da resistência aos medicamentos utilizados contra a doença.

Mãos à obra

A organização internacional de ajuda humanitária Médicos sem Fronteiras realizou duas grandes exposições itinerantes pela França para informar e educar a sociedade sobre como os interesses comerciais e políticos podem interferir de forma negativa na vida de milhões de cidadãos de países em desenvolvimento.

Na exposição "Muito pobres para serem tratados" o público pôde vivenciar o que passam as vítimas de doenças negligenciadas, tais como malária, tuberculose e leishmaniose. Típicas de nações em desenvolvimento, essas doenças não recebem a devida atenção por parte da indústria farmacêutica, interessada apenas em lucros, não em vidas.

No evento, os visitantes entravam numa espécie de ônibus, onde se passavam por pacientes com doenças que muitas vezes têm tratamento disponível, mas que está inacessível para eles. Outra exposição, essa de fotografias, levada para Evian foi "Trópicos Abandonados".

Durante a reunião de cúpula do G8, o MSF organizou ainda um espetáculo – "Vidas em Suspenso" - apresentado duas vezes ao dia. Voluntários se jogavam de uma torre de 6 metros de altura em direção a um enorme medicamento. Incapazes de alcançar a pílula, caíam no vazio.

Só hoje, cerca de 19 mil pessoas no mundo morrerão de doenças infecciosas que têm tratamentos, mas, devido aos altos custos, não estão acessíveis. São 6 mortes a cada 30 segundos. Ao todo, 14 milhões deverão morrer este ano por não terem condições de arcar com o preço dos remédios.

Michel Lotrowsk é representante da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais da organização MSF no Brasil.

Publicado em Novae

23-06-2003