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Obviamente demita-se!Leonel MouraCaro Ferro Rodrigues, tive a sorte de viajar pela Europa nesta última semana e assistir a uma animação social, uma alegria contagiante e empenhamento de tanta gente em torno da organização das centenas de manifestações de ontem, como não experimentava desde o 25 de Abril. Vi jovens excitados com a sua primeira descida às ruas e senhoras de casaco de peles a distribuir autocolantes "Não à guerra!". Vi taxistas com cartazes afixados nos vidros, lojas e cafés com declarações anti-guerra pintadas nas montras, escolas animadas com a produção de material para o evento, e muita gente sorridente e cúmplice de proclamação pacífica ao peito, num gesto de pertença e orgulho. Vi, como é tão pouco frequente, artistas, músicos, escritores, actores e praticamente todos os produtores de cultura, unidos à volta de uma palavra de ordem tão simples mas tão carregada de vontade de civilização. Vi cientistas, sempre reservados, a escreverem manifestos. Vi políticos rendidos à nobreza do momento e a, por uma vez, pensarem mais nos seus concidadãos do que nos seus respectivos partidos. Mas não o vi a si em lado algum. Ou melhor vi-o, com a desculpa das más companhias, a ficar em casa ao lado dos que defendem a estupidez da guerra. Com tanto medo em encontrar alguns tresloucados, o senhor preferiu afinal ser cúmplice dos malvados. Caro Ferro Rodrigues, o senhor de certeza conhece a evidência, pois sei que prefere ler jornais e ver televisão a enfrentar realidades. E por isso sabe como pelo mundo e por toda a Europa o povo é maioritariamente contra esta demência bélica e esta escalada de palavras e imagens de inspiração fascizante. Não engane os portugueses querendo fazer crer que os milhões de pessoas que em seiscentas cidades do planeta desceram às ruas, são todos apoiantes de Saddam ou pobres criaturas que não entendem a complexidade da geopolítica. O senhor sabe, melhor do que ninguém, que se colocou contra um movimento social impar na história e pelo menos dois terços dos seus próprios compatriotas que diz pretender um dia governar. O senhor traiu legítimas e humanistas expectativas da maioria da população e prestou-se ao trabalho sujo da divisão e da confusão. Até porque o senhor não desmentirá que no acto não foi só esta guerra conjuntural que foi posta em causa, mas acima de tudo se tratou do futuro da própria Europa. Dividida pelos políticos, ontem a Europa foi reunificada pelos seus cidadãos. E o senhor não só não participou nesse evento singular, como se colocou declaradamente no campo anti-europeu. Em vez de se consumir com desculpas de ocasião, cabia-lhe ter explicado aos portugueses o que realmente está em causa nesta questão. E demonstrar que outro Portugal e outra Europa são possíveis, para lá desta onda direitista e mal formada que nos quer condenar, a todos, a uma condição subalterna e a aventuras guerreiras. Caro Ferro Rodrigues, o seu gesto não tem desculpa, nem perdão. Mesmo pensando da forma estreita como parece ser a sua, lembro-lhe que por essa Europa fora a grande maioria dos partidos socialistas não tiveram medo das más companhias e até, entre nós, um homem com a magnitude política e ética de Mário Soares lhe mostrou o que é um democrata e quais os valores que obrigatoriamente ele defende hoje. A enorme bofetada na cara que lhe deram os seus pares europeus e tantos socialistas portugueses, só podem cobri-lo de vergonha. O senhor desbaratou décadas de património do PS, como partido que de forma activa e clara sempre se bateu pela Europa, contra os vários nacionalismos retrógrados e as visões tacanhas dos que têm medo do futuro. Caro Ferro Rodrigues, o senhor é uma nódoa política. Que mancha o seu partido e as nossas vidas. E a quem nada mais resta do que demitir-se e reduzir-se à pequena dimensão que afinal, nesta hora decisiva, provou ter. <leonel.moura@mail.telepac.pt> 16-02-2003 |
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