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Mandou a mulher ver o que se passava. Esgueirando-se pelo emaranhado de vielas do campo - um enorme bairro de lata - ela viu apavorada os cadáveres que começavam a juncar as ruas. A vingança pelo atentado contra Gemayel já estava em curso, e o alvo eram os palestinianos, enfraquecidos pela saída forçada de Yasser Arafat e dos combatentes da OLP de Beirute, na sequência da invasão israelita do país e do cerco e bombardeamento a Beirute ocidental.
"Eram realmente os falangistas. Eles entravam de casa em casa, em silêncio, e usavam facas para matar sem fazer barulho." Monib lembra-se de um amigo que ouviu perto de si o gorgolejar de alguém a ser degolado e pensou que era um dos seus carneiros. Não era.
Ao confirmar que uma matança estava em curso, um grupo de vizinhos de Monib decidiu formar uma delegação para ir negociar com os israelitas e os falangistas. Ele recusou-se a acompanhá-los. "Disse-lhes que se fossem já não voltariam mais". E assim foi. A decisão salvou-lhe a vida.
FUGA PARA O HOSPITAL
Monib Daher sobreviveu ao massacre
porque conhecia bem o território e porque só ¾
do campo estavam cercados pelas tropas israelitas. A sorte levou-o a
decidir mandar a mulher e os filhos para o hospital Gaza, um edifício
de cinco andares hoje totalmente destruído. Ele ficou mais atrás,
com a filha mais velha. Apesar do testemunho da mulher e dos vizinhos,
queria ver tudo com os próprios olhos. Polidor e pintor de móveis
de profissão, a guerra civil e a luta pela sobrevivência
tinham empurrado Monib Daher para a participação activa
na guerra. Organizador militar ligado à FPLP, facção
pró-síria de Georges Habache, ele era já na altura
um combatente experiente. Mas logo se apercebeu que nada havia a fazer
além de fugir. Viu mulheres e crianças chorando, corpos
por todo o lado, e sentiu as balas a zunir à sua volta. As armas
de fogo tinham já substituído as armas brancas. "Todos
os palestinianos que escaparam ao massacre foram levados para interrogatório.
Na verdade, o objectivo era impedi-los, durante o máximo de tempo
possível, de revelar o que tinha acontecido. Punham-nos numa
área minada para que não pudessem escapar."
Quando chegou ao hospital Gaza, a família já lá estava e muitos outros palestinianos acorriam ao refúgio. Os funcionários, porém, pediam-lhes que não ficassem, porque não podiam garantir-lhes a segurança, só a do próprio pessoal e dos doentes. Mas não havia para onde ir. Decidiram ficar. As mulheres e as crianças foram mandados para a cave, e os homens ficaram de vigia nos andares superiores. "Durante dois dias, quem saísse era morto", lembra Monib.

Só
no fim desse prazo as ambulâncias do Crescente Vermelho foram
autorizadas a entrar em Sabra e Chatilla. Na mesma data, os refugiados
do hospital puderam sair em liberdade. Mas israelitas e falangistas
ainda andavam por lá, ocupados a fazer desaparecer os vestígios
da matança. "A minha filha, que trabalhava como voluntária
do Crescente Vermelho, viu quando os corpos foram empurrados por buldozzers
para dentro da vala comum e cobertos de cal." A cena está
documentada fotograficamente, e alguém que olhe de relance esta
imagem de horror não deixará de evocar os enterros maciços
de judeus nos campos de concentração nazis. A fotografia
foi transformada em outdoor e está, com as cores já esmaecidas,
a marcar o espaço cercado onde se encontra o terreno da vala
comum, 20 anos depois. Cercado, este descampado poderia passar despercebido
a quem entre pela rua principal do campo, hoje transformada numa imensa
feira de vendedores ambulantes, que estendem as suas mercadorias à
frente das casas semidestruídas, as paredes esventradas e os
ferros retorcidos a exibir o pesadelo que ainda não foi esquecido.
Monib Daher não tem dúvidas sobre as responsabilidades do massacre que deverá, na sua opinião, ter tirado a vida a 2.500 pessoas (a cifra oficial é 3.000 mortos): "O meu amigo Maher Serrour, que teve toda a família morta menos uma filha de oito anos, viu Ariel Sharon a sair de uma casa dentro do próprio campo. Os comandantes do massacre vieram com Sharon de helicóptero e depois juntaram-se aos falangistas em carros especiais. Feita a matança, deixaram Sabra e Chatilla e ficaram só os seus aliados libaneses."
As primeiras notícias do massacre - cujas responsabilidades ainda assombram o actual primeiro-ministro israelita - causaram uma onda de indignação mundial e as tropas da ONU voltaram a Beirute para proteger o campo de refugiados. Durante muito tempo Monib tinha medo não só dos israelitas como também de qualquer pessoa que levasse vestido um uniforme.
ESQUECIDOS DO MUNDO
Hoje, que a paz voltou ao Líbano,
a vida de Monib Daher não mudou muito. Regressou à antiga
profissão e continua a viver em Sabra. "A ONU arrendou o
campo por 99 anos", explica. Vive no primeiro andar de um precário
edifício de três pisos que nenhum 
arquitecto
explicaria como ainda se mantém de pé. Aos 60 anos, mora
com o irmão deficiente, a mulher e um dos filhos. Tem oito filhos
e 18 netos. Caloroso, convidou a reportagem da ZN a entrar na sala da
sua residência e ofereceu um delicioso café turco ao jornalista
e ao fotógrafo (nem o intérprete, nem ele e a família
tocaram na bebida, porque aguardavam o pôr-do-sol para pôr
fim ao jejum diurno do Ramadão). Mostra-nos com orgulho os documentos
que atestam a sua condição de refugiado palestiniano.
"Sou dos refugiados de 1948, vim para o Líbano com os meus
pais, quando tinha apenas seis anos. Nasci em Deir Al Kassi." Mas
sente que os refugiados de 1948 foram esquecidos. "Os refugiados
de 67 ainda podem contar com a Autoridade Palestiniana e a esperança
de voltar às suas casas.
Mas nós, os de 48? As nossas casas estavam no território que é hoje Israel." Ainda assim, Monib quer que os seus filhos e netos mantenham o estatuto de palestinianos e não escolham uma outra nacionalidade. "Mas se por acaso decidissem adoptar outra, que pelo menos fosse de um país europeu, onde há mais preocupação com os velhos. Veja o meu caso: tenho 60 anos. Daqui a pouco ninguém vai me dar mais trabalho, o que é que eu faço?"
O sol já vai baixo e, nas ruas, a azáfama das pessoas que se apressam a chegar a casa para pôr fim ao jejum é grande. Mesmo assim, ainda pedimos a Monib que nos acompanhe a uma volta pelo campo. Ele acede, um sorriso nos lábios. Mostra-nos os locais onde ocorreu a primeira explosão, as casas ainda metralhadas, o lugar onde o amigo ouviu o barulho que atribuiu ao carneiro a ser degolado. Aquelas ruas fazem lembrar outros lugares muito distantes, as favelas do Rio de Janeiro. De repente, quase com susto, descobrimos uma bandeira brasileira pintada num muro. Perguntamos se há brasileiros a viver ali (há uma enorme colónia libanesa no Brasil). Que não, que aquela bandeira apenas significa que os palestinianos de Sabra e Chatilla apoiaram a selecção brasileira no último mundial. Monib não estranha que a ajuda internacional não tenha sido canalizada para melhorar as ainda péssimas condições daquele bairro de lata. "Há outras prioridades, Gaza e a Cisjordânia."
BANDEIRINHAS PELO RAMADÃO

Chegamos
à rua principal, à grande feira onde se pode comprar,
por exemplo, um frango assado por menos de um euro (em qualquer lugar
de Beirute custaria quatro). "A maior parte destes vendedores não
são palestinianos, são sírios que vieram para aqui
no final da guerra", comenta Monib. O movimento é agora
infernal, um buldozzer de recolha do lixo impede o tráfego de
carros, motas, bicicletas, e as buzinas não param de tocar. As
pessoas fazem as últimas compras antes de irem para casa comer.
Passamos por um bar engalanado de pequenas bandeirinhas a fazer lembrar
a decoração dos nossos santos populares. A diferença:
nas bandeirinhas há inscrições do Corão.
Naquele lugar haverá festa depois do pôr-do-sol, porque
o Ramadão é um mês de alegria, de festa e de partilha
para os muçulmanos. Chegou a hora de nos separarmos. Monib Daher
despede-se com a mesma gentileza com que nos acolheu.
Vinte anos depois, as marcas do massacre de Sabra e Chatilla ainda estão vivas e as feridas de quinze anos de guerra ainda estão abertas, como de resto em todo o Líbano. Mas a vida prossegue e os refugiados palestinianos, apesar das péssimas condições, apesar de muito se sentirem esquecidos pelo mundo, ainda conseguem sentir as alegrias dos dias de festa. Quanto tempo ainda irá demorar até que o mundo se lembre deles?
Não são precisos mais de 15 minutos de carro para chegar de Sabra e Chatilla ao centro de Beirute. Antes, passa-se pelo bairro xiita, onde nos sentimos no Irão. Nas ruas irregulares e entre as casas pobres, posters de líderes espirituais turbante, de políticos xiitas e de jovens que são considerados mártires da luta contra a ocupação israelita. Mas pouco depois, se o quase sempre engarrafado trânsito da capital do Líbano ajudar, já vamos estar a atravessar a avenida da Unesco (baptizada assim por começar junto à sede dessa instituição). A cidade é a mesma, mas a sensação que dá é que atravessámos uma fronteira invisível e entrámos noutro mundo. As lojas chiques sucedem-se, os mercedes classe E e os jipes dominam o parque automóvel, os cafés e as esplanadas largas lembram uma capital europeia. Ainda falta atravessar a avenida Hamra até chegar ao já famoso centro reconstruído da cidade, onde desemboca a antiga "linha verde", que separava a Beirute ocidental (muçulmana) da oriental (cristã).
O actual centro foi totalmente reconstruído depois de se ver praticamente arrasado durante a guerra civil. Em 1992, o então primeiro-ministro Rafiq Hariri, um rico libanês de origem saudita, foi designado pelo Parlamento para criar a Companhia Libanesa para o Desenvolvimento e a Reconstrução do Distrito Central de Beirute, que ficou conhecida pelo acrónimo Solidere (do nome da empresa em francês). Os proprietários dos terrenos receberam acções da companhia, que captou também dinheiro no exterior para os trabalhos de reconstrução.
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Na prática, os antigos proprietários viram-se com papéis na mão que cedo se desvalorizaram e a promoção imobiliária acabou por ir parar quase toda à posse de empresas multinacionais.
"Vêem os andares de cima destes edifícios? Estão quase todos vazios ou são escritórios de empresas. Ninguém tem dinheiro para morar aqui", explica-nos uma francesa que mora na cidade há anos. Estamos numa esplanada de um restaurante francês, em pleno centro de Beirute, e ninguém diria que o nome daquela cidade já foi sinónimo de guerra civil. "Em contrapartida, se vierem aqui à noite, vão encontrar estas ruas cheias de gente e o desfile de carros de luxo não acaba mais." Do ponto onde estamos, não se vêem as cancelas e os soldados armados que controlam a entrada na zona. O Líbano está já em paz há mais de dez anos, mas a presença militar ainda é uma constante: soldados libaneses, sírios, milícias do xiita Hezbollah perto da fronteira sul.
"O Líbano é um país onde não se fazem estatísticas desde 1932, para não alterar o equilíbrio de forças entre as confissões religiosas", explica ainda a nossa interlocutora. Foi um recenseamento feito nessa data que serviu de base ao Pacto Nacional que estabelece que o presidente da República tem de ser necessariamente um cristão maronita, o primeiro-ministro um muçulmano sunita e o presidente do Parlamento um muçulmano xiita. O princípio mantém-se até hoje, mas os grandes derrotados na guerra civil foram os laicos. Não há casamentos civis no país - só religiosos. E assim como o país está praticamente retalhado entre as zonas de influência confessionais (o sul é predominantemente xiita, o Monte Líbano druso ou o vale do Bekaa cristão), também Beirute é retalhada por muros invisíveis.
CICATRIZES EXPOSTAS

A
única fronteira que ainda está bem à vista é
a que resta da "linha verde", a rua que dividia as duas Beirutes
durante a guerra civil. Basta sair do centro da cidade para voltar a
observar nela as cicatrizes dos combates, que já víramos
em Sabra e Chatilla. Prédios esventrados, pejados de buracos
de balas, alguns ainda assim habitados. Uma inflexão, porém,
para o lado oriental, e lá passámos de novo uma fronteira
invisível. Do lado cristão, até o espaço
sonoro é dominado pelos sinos das igrejas, algo impensável
em qualquer país árabe, onde o som dos apelos à
oração veiculados pelos altifalantes dos minaretes das
mesquitas sempre domina o ambiente. Uma ruazinha faz lembrar as escadas
de Monparnasse, Paris.
Mais à frente, um grupo de trabalhadores está acocorado numa rotunda empunhando colheres de pedreiro, espátulas e outros instrumentos. "São sírios, estão à espera que alguém os vá contratar para algum pequeno trabalho", explica-nos o intérprete. A maioria dos trabalhadores que recolhem o lixo da cidade são também nacionais do país fronteiriço. Mais uma nova contradição gritante. A presença militar síria (que tem vindo a reduzir-se) foi decisiva para pôr fim à guerra civil. "Mas um sírio ganha 10 dólares por dia (cerca de 10 euros, ou dois contos) a recolher lixo, e com esse dinheiro consegue sustentar a família inteira no seu país". Nas obras também há muitos sírios. Já as empregadas domésticas e dos hotéis são na sua maioria filipinas. Isso quer dizer que os libaneses são prósperos? O custo de vida é altíssimo, e há sem dúvida muitos ricos. E muito, mas muito ricos. Conhecido em tempos como a Suíça do Médio Oriente, o Líbano é ainda um importante offshore. Por isso, para além dos muros confessionais, há também os muros sociais. Duas bicas numa esplanada na Avenida Hamra podem custar sete euros. Mas uma deliciosa sandes de falafel (uma espécie de croquete de grão) e uma bebida custam 2 euros num bar popular. Diante de tanta disparidade, o país não corre o risco de explodir de novo? "Há muitas coisas que estão erradas, mas gostaria de deixar bem claro que o país progrediu muito desde a guerra", insiste o intérprete.
24-01-2003