Os monstros e seu criador
Luís Carlos Lopes Há
quase 200 anos atrás Mary Shelley publicava sua novela (1818),
Frankenstein, cuja história se tornaria muito conhecida no século
XX, por efeito de suas inúmeras versões cinematográficas.
A mesma peça de terror continua ainda viva e com incrível
força, metamorfoseando nossos dias.
A
idéia de um médico, representando os progressos da ciência,
produzindo um ser desfigurado, simbolizando as misérias da humanidade,
continua atual. Rompia-se e, ao mesmo tempo, reafirmava-se o tabu criacionista.
Aludia-se aos mistérios do progresso tecnológico e os das
suas conseqüências. Nada mais atual do que a contradição
entre as possibilidades das tecnologias e o senso moral dos seus usos.
Frankenstein era o homem criado pelo homem,
a última fronteira da ciência, a capacidade de se intervir
diretamente no mundo natural. O mundo da vida social confundia-se com
o que existia antes de si mesmo. Tudo era passível de se modificar.
Agia-se na fronteira entre a vida e a morte e pagava-se o preço
de tal intervenção.
Diferentemente do passado, onde isto era
apenas fruto da imaginação prodigiosa de uma escritora jovem
e talentosa; hoje, vemos, a cada momento, repetir-se a lógica do
médico e do monstro, agora parafraseada nas relações
entre povos e culturas.
A tecnologia da destruição
chegou a ponto de permitir que, se acionada in totum, destrua a espécie.
Isto criou um certo freio, representado pelo período da Guerra
Fria e do equilíbrio do terror nuclear. Este equilíbrio,
abalado pelo desaparecimento da URSS, não se esfacelou por completo,
mas foi ferido de morte.
Foi dada licença ao Dr. Frank para
criar novas monstruosidades, em novas formas e conteúdos, tais
como as do “Choque e Pavor” e do cinismo do uso dos bombardeios
cirúrgicos e da destruição metódica das cidades
e de suas populações.
Se a novela de Shelley fosse reescrita hoje,
o drama sairia do laboratório isolado de um só médico
e passaria a se desenvolver nas fábricas e laboratórios
da indústria armamentista. Estas instituições estariam
em conluio com governos, corporações, banqueiros e as pessoas
que se pensam como superiores, eleitas por Deus e donas do planeta Terra.
Shelley tratou da diferença entre
forma e conteúdo. Lembrou que a criatura almejava ser igual ao
criador. Como isto não lhe era possível, restou-lhe o desejo
de sua morte Nada mais simbólico para a situação
atual. O mundo e suas populações foram unificados em um
só mercado, um sistema de trocas interligado de dominação
para além dos interesses de cada cultura.
A globalização central foi
a do dinheiro, do vil metal, que circula em escala planetária.
O criador – o capital – não permite que suas criaturas
sejam iguais a ele, fomenta a dissensão e a rebeldia. As novas
elites pós-coloniais, o caso do Iraque é um bom exemplo,
só são úteis se rezam na mesma cartilha. Não
podem ter projetos próprios e nem explorar com alguma independência
suas próprias riquezas.
Estabeleceu-se o direito de caça do
criador sobre as criaturas e das criaturas sobre o seu criador. Foi Israel
que criou a necessidade do Estado palestino e a resistência ao seu
ímpeto de crescimento. As criaturas querem ter os mesmos direitos
ou pelo menos salvaguardar algumas de suas possibilidades. A dialética
entre o criador e suas criaturas é letal para quem vive no lado
mais fraco. Isto não impede a ação destas últimas,
baseadas no desespero de sua destruição. Não há
uma só criatura demonizada em nosso tempo que não tenha
sido criada pelo mesmo sujeito – o grande capital.
Na novela de Shelley, criador e criatura
se autodestroem. Não há como prever como acontecerá
na vida real. O que sabemos é que o século XXI será
um século belicoso, tal como os anteriores. A população
civil, desta vez, sofrerá ainda muito mais do que no passado. A
tecnologia militar produziu monstruosidades de dar inveja ao Dr. Frank.
As baixas civis se multiplicam e não há muitas opções
de fuga e proteção. A vitória em uma guerra significará
a abertura de outra, outras e outras. Os ideais de paz, respeito mútuo
e de autodeterminação dos povos viraram peças de
retórica dos políticos e burocratas, e idéias-força
das vozes que vêm das ruas.
O que há de novo sob o sol é
o retorno velado do fascismo e do etnocentrismo. Idéias semi-adormecidas
ressurgiram com novas roupagens, colorindo de sangue as bandeiras das
nações. Talvez estejamos assistindo à repetição
do drama do século XX. As respostas não podem ser as mesmas,
porque as anteriores falharam nas suas promessas de paz e de entendimento
entre os povos. Urge que se encontrem proposições capazes
de romper o impasse. É preciso ouvir as novas gerações,
sobretudo, os que lutam por um mundo melhor e não querem ser apenas
criaturas do monstro do capital.
25-05-2003

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