Big Brother e Lula em Davos

José Pedro Martins

Como era esperado, Lula foi a sensação no Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, Suíça, encontro que reúne a nata do capitalismo internacional. Ao ser o primeiro presidente da República a visitar o Fórum Social Mundial e o Fórum de Davos, Lula quis assinalar um gesto concreto, uma busca de entendimento entre os dois encontros que mais simbolizam, hoje, tendências políticas e econômicas distintas. De um lado, o megaencontro de líderes políticos e empresários que incensam a globalização no atual formato e, de outro, a reunião de partidos de esquerda e organizações não-governamentais para quem "outro mundo é possível", e que lutam portanto por uma alternativa à globalização neoliberal, que está aumentando as distâncias entre ricos e pobres e agrava a devastação ambiental.

Por sua postura, e pelo que falou em Davos, justamente na linha de tentativa de criar uma ponte entre os dois Fóruns, Lula foi muito criticado por alguns altos participantes do Fórum Social Mundial, para os quais não é possível um entendimento entre duas concepções de mundo tão distintas. Sobrou para o presidente do PT, José Genoíno, que levou uma torta na cara, no momento em que aplaudia as posições de Lula na Suíça, por parte de uma manifestante do movimento anti-globalização.

É preciso pôr os pingos nos "ís". A atual globalização, dirigida pelas corporações transnacionais e pelo sistema financeiro internacional, de fato acentuou o distanciamento entre Norte e Sul e alimentou a escalada da destruição ambiental no planeta. Entretanto, não é possível esquecer que algumas características que facilitaram a globalização é que viabilizaram um encontro como o do Fórum Social Mundial. O encontro de Porto Alegre, e que agora em sua versão global deve ser realizada na Índia em 2004, foi possível entre outros fatores por causa da Internet, que aumenta o poder de mobilização das ONGs em escala mundial, e por outras facilidades de comunicação e transporte que também foram cruciais para a nova etapa da globalização.

Seria obviamente um absurdo pedir hoje para um manifestante anti-globalização que, se fosse coerente, teria de deixar de usar a Internet para enviar suas mensagens contra a guerra no Iraque ou por uma maior atenção da comunidade internacional para as guerras na África que já estão matando milhares de pessoas. Afinal, a Internet tem tudo a ver, por exemplo, com Bill Gates, um dos mais festejados participantes de Davos. Seria um retrocesso igualmente pedir aos milhares de manifestantes de vários países que foram a Porto Alegre que deixassem de usar os potentes aviões que permitiram a sua presença no encontro anti-globalização.

A globalização está aí, é irreversível, o importante é que exista uma forte corrente internacional para reverter os seus rumos e permitir que ela adquira outra face, mais humana e mais reverente em relação à vida no planeta. Nesse sentido a ida de Lula a Davos foi um gesto histórico, quebrou a falta de diálogo que estava aumentando a distância entre os dois encontros e, por tabela, entre os dois mundos de hoje, o mundo dos ricos e privilegiados e o mundo dos pobres e excluídos.

Em um momento histórico de tanta facilidade de comunicação, de proliferação da mídia como um dos setores políticos e econômicos mais poderosos de todos os tempos, é inconcebível a falta de diálogo, de conversa, entre setores que pensam diferente. A falta de comunicação é o maior combustível para a cristalização de idéias, para o fundamentalismo que não é encontrado somente no campo religioso, mas também político, e que é muito perigoso para a humanidade e para o planeta em geral.

A intolerância que tem sido vista em muitos países do chamado Primeiro Mundo, em relação aos migrantes que têm de sair de seus locais de origem, ou o fundamentalismo político e religioso que continua explodindo em várias partes do planeta, são os sinais da falta de comunicação em um mundo saturado de comunicação. E o corolário da falta de comunicação, de diálogo, é a violência, manifesta de várias formas, sempre bárbaras e destruidoras.

A violência não é, então, somente o ato bárbaro em si, catalogado e registrado ad nauseam nos últimos anos. Violência é o rompimento das relações sociais, é o desacreditar da política como algo essencial para o desenvolvimento comunitário, é o exílio do diálogo, é a execração da polêmica, é o óbito da palavra como o componente definidor do ser humano. Nesse sentido, abdicar da atividade política e do saudável hábito da conversa é alimentar o fundamentalismo, de qualquer natureza, que é um dos grandes ingredientes das guerras que continuam ameaçando a integridade da vida na Terra.

É muito curioso, e não deixa de ser irônico, que a controvérsia envolvendo a ida de Lula ao Fórum Social Mundial e a Davos aconteça justamente no momento em que, no Brasil, boa parte do País está mais interessada na terceira edição do Big Brother Brasil. O programa é a metáfora da exclusão da política da agenda nacional e internacional.

O que se passa "lá fora", na esfera pública, não interessa. Violência, desemprego, Efeito Tango ou Efeito Estufa, dengue, crise na Venezuela, guerra no Iraque - todas essas são preocupações para os mortais comuns, não para os moradores acidentais daquela residência mais fortificada e transparente do Brasil do início de 2003.

Pois a grande tragédia brasileira e mundial, nesse começo de Novo Milênio, é justamente o banimento da atividade política das preocupações cotidianas. A arte de fazer política, de procurar o bem da polis por meio dos mecanismos democráticos conhecidos ou por inventar, foi deteriorada por episódios seguidos de corrupção, impunidade e outras modalidades não menos deletérias de injustiça. Os culpados por esses crimes estão soltos, mas a palavra política foi abalada de morte.

Desterrada a política, o pacto social incipiente, duramente costurado no Brasil depois de décadas (séculos?) de autoritarismo e tendo a Constituição de 1988 como norte, foi igualmente golpeado. Interesses corporativistas passaram a falar mais alto. A desconfiança tornou-se o prisma das relações sociais em geral e da política em particular.

Se a dissidência é proibida ou no mínimo marginalizada, e se o debate franco e honesto sucumbe diante do ditador que habita dentro de cada um de nós, o diálogo construtivo é rotulado de traição. A não conversa com B que detesta C que não fala com ninguém. Tudo para satisfazer o eleitorado de A, os protegidos de B e os apaniguados de C, em prejuízo de uma nação toda.

O mesmo panorama pode ser projetado para o cenário internacional. A falta de diálogo, de conversa entre os distintos campos de pensamento, é um dos sintomas do abalo da atividade política e da vitória dos fundamentalismos, que se alimentam da miséria, da morte e das injustiças. É preciso reverter esse quadro, resgatando a importância do diálogo e da atividade política como arte da procura do bem comum - arte que hoje necessita tanto das megamanifestações de rua, como as que impulsionaram o movimento anti-globalização e as que hoje pedem paz no mundo, como também da conversa em alto nível entre chefes de Estado e poderosos senhores do dinheiro.

A situação do planeta é muito frágil e delicada, há sinais de que a barbárie e a destruição estejam avançando a passos largos em muitos lugares. Sem um entendimento global, sobre melhores e mais seguros caminhos para a humanidade e o planeta, todos estaremos jogando mais lenha na fogueira da guerra, da destruição e da morte. Por isso o gesto de Lula é histórico, por isso é desejável um entendimento cada vez maior tanto aqui, no Brasil, como lá fora, em escala internacional, em direção a um outro mundo, que é possível sim, como reiteram os generosos participantes do Fórum Social Mundial.

31-01-2003