E agora, Cuba

Jesús Gómez

Publicado originalmente em La Insignia

De acordo com a Amnistia Internacional, 1526 pessoas foram executadas no ano passado em todo o mundo. 81% do total morreram nos Estados Unidos, no Irão e na China, se bem que aquela organização humanitária afirme que a verdadeira cifra de assassinatos legais possa ser muito superior. Agora parem por um momento e releiam. Mil quinhentas e vinte e seis pessoas, uma atrás da outra, mortas. Imaginem as motivações políticas, sociais, culturais, que os verdugos utilizaram para tirar-lhes a vida a sangue frio. Tentem colocar-se no lugar dos juízes, líderes religiosos ou políticos que assinaram as sentenças. Sejam compreensivos, esqueçam as vítimas, pensem que não são mil quinhentos e vinte e seis seres humanos, mas sim mil quinhentos e vinte e seis delinquentes, traidores de Estado, espiões, elementos anti-sociais, sequestradores, etc. Ficará melhor assim? Por certo que não, para a maioria de vocês. Por certo que a maioria de vocês possui o coração e a inteligência necessários para deplorar um acto tão atroz como a pena de morte.

O problema para determinado tipo de gente – a qual procurarei não adjectivar aqui – aparece quando se alteram as circunstâncias, ou, mais exactamente, o nome dos países. Então um assassinato pode deixar de ser um assassinato e converter-se num mal menor, num detalhe sem grande importância dentro de determinado contexto, ou em algo de aborrecido mas no fim de contas desculpável se a causa for suficientemente boa. Porém, não importa onde, como, quando, porquê: quem relativiza essa versão do terrorismo de Estado chamada pena capital, será sempre um reaccionário que apenas merece desprezo.

Há alguns dias, o governo cubano ordenou a execução de Lorenzo Enrique Copello Castillo, Bárbaro Leodán Sevilla e Jorge Luis Martínez. Existirá certamente quem tenha procurado ou venha a procurar utilizar estas mortes em proveito próprio, mas elas lamentavelmente estão aí, são reais, não são invenções do imperialismo ianque nem um sonho mau. Os factos são implacáveis, não existe construção linguística ou fraude intelectual que possam negá-los: o governo cubano ordenou o assassinato de três pessoas. E, como todos sabemos, também há quem neste preciso instante tenha começado a procurar justificações.

Seria difícil contabilizar o número de articulistas e de políticos, especialmente da esquerda latino-americana, que têm passado os dias a produzir declarações e a escrever textos cada um mais indigno do que o outro. Nenhum deles – até este momento – defendeu de forma explícita os assassinatos, mas todos o fizeram de forma implícita, todos procuraram encontrar atenuantes, todos evitaram sublinhar a barbárie, todos se esforçaram para, palavra atrás de palavra, encobrirem o sucedido, de forma a que possamos acreditar que a execução de três pessoas não é a execução de três pessoas, mas antes um factor, nada de pessoal, algo de quase mecânico inserido na geopolítica, e outras elocubrações.

Disse-se que devemos compreender a especial situação política de Cuba. Disse-se que os três cadáveres constituem uma mensagem necessária para Washington. Disse-se que o governo cubano actuou com inteligência. Disse-se que as mortes de hoje impedirão as de amanhã. Disse-se que se mata muito mais em outros lugares. Disse-se que três execuções são pouca coisa num mundo desequilibrado. Disse-se até – no cúmulo do cinismo – que os verdugos foram os primeiros a lamentar a sorte das suas vítimas. Disse-se de tudo na tentativa de não se dizer a verdade, e, no fundo, disse-se que devemos afastar o olhar, que devemos calar-nos, que devemos manter a boca fechada porque denunciá-lo em voz alta e clara atenta contra o socialismo ou debilita as nossas posições. Parece-lhes a eles. De acordo com esta gentalha, a tirania aproxima-nos da liberdade e a morte da vida.

Na minha opinião, estão doentes de cobardia e de cegueira. Dou por adquirido que poucos seriam capazes de apertar o gatilho, se os convidassem a pôr em prática as suas teorias, mas isso, no fim de contas, é irrelevante: para não se verem confrontados com perguntas que não querem fazer e conclusões às quais não desejam chegar, justificam a morte. Afinal, sempre existirá algum outro que dispare por eles.

Deixei para o fim uma ferida distinta, ainda que importante, porque parece menor e vazia diante da execução de três seres humanos. Neste caso, os advogados da pena capital afirmam defender o socialismo e dizem actuar em seu nome. Pergunto-me que género de socialistas, de comunistas, podem ser aqueles que carecem do mais elementar sentido de humanidade e de ética. É uma pergunta quase retórica, por muito que este comunista o lamente; como esquecer que a melhor das ideias pode provocar a pior das atrocidades, como esquecer aquilo que alguns fizeram no século XX à conta de razões tão repugnantes como aquelas que hoje se repetem. Não se pode esquecer. Eu, pelo menos, não esqueço.

Existem, sem dúvida, muitas e boas razões para a esperança. A maioria os cidadãos de esquerda e a maior parte das suas organizações políticas reagiram com a contundência e a altura moral que cabe esperar de quem pretende um mundo novo. A impunidade não terminou ainda, há um caminho por fazer. Mas se os amigos da morte mantiverem o jogo da moral dupla, se voltarem a acusar-nos a todos de traidores, devem saber que desta vez a história não se repetirá: será a estrela vermelha a devolver-lhes a acusação e a derrotá-los.

Trad. de Rui Bebiano

17-04-2003