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O mundo depois de GeorgeJosé Eduardo Agualusa
Os soldados americanos partem para a guerra com a mesma disposição com que um pedreiro entra, de manhã bem cedo, no autocarro que o deixará nas obras. O pedreiro não sabe muito bem o que está a construir, se uma escola ou uma prisão para torturar dissidentes, e nem isso o preocupa. É apenas trabalho. Os soldados iraquianos, pelo contrário, batem-se, ainda que equivocadamente, com o furor dos justos. A maior parte tem, ou julga ter, uma causa - a liberdade e a honra do seu país. Isto, acreditem, pode mudar a corrente de uma guerra. As populações do chamado Terceiro Mundo não olham com simpatia para a actual administração americana. Nos países do Sul a entrada dos soldados americanos e ingleses no Iraque está a ser entendida como uma agressão colonialista. Alguns dirigentes do governo americano contribuíram para reforçar tal sentimento afirmando, com uma jactância de garotos exaltados, que depois do Iraque chegará a vez do Irão, da Síria e da Líbia. E o que dizer das notícias segundo as quais a Casa Bronca, perdão, a Causa Branca, aliás, a Casa Branca, se prepara para nomear um governa-dor colonial após o fim da guerra? Ou de que o lucro obtido com a venda do petróleo iraquiano irá parar aos bolsos das grandes empresas americanas contra-tadas para reconstruir o que as bombas americanas destruíram? O moderno neocolonialismo - capaz de prescindir dos colonos e, por consequência, das guerras coloniais - cedeu lugar, na opinião de muitos intelectuais africanos, latino-americanos ou asiáticos, à brutalidade dos séculos passados. George Bush conseguiu que as vítimas, pelo me-nos uma parte delas, se reconciliassem com o seu carrasco. Assim se explica a mais inacreditável ironia desta guerra, a notícia segundo a qual centenas de pessoas que o ditador iraquiano perseguiu, e que entretanto se haviam refugiado em países vizinhos, estariam a regressar à terra que as viu nascer para lutarem contra o exército libertador. Sadam Hussein despertou a ira dos americanos não pelos crimes e erros que cometeu e sim devido aos seus raros acertos. Temo que venha a ser lembrado, daqui a um século ou dois, no seu país e para além dele, não enquanto um déspota feroz, um louco sanguinário, que sobretudo foi, e sim como o leão que enfrentou sozinho o maior poder do mundo. George Bush, pelo contrário, não
deverá sobreviver a esta guerra. Os seus sucessores vão
levar anos, talvez décadas, a apagar os incêndios que ele
ateou. Osama Bin Laden, onde quer que esteja, há-de estar feliz.
O Iraque, que nunca antes foi um terreno fértil para o fundamentalismo
islâmico, já tem também os seus homens-armadilhados.
Já tem muitos milhares de jovens à deriva, desesperados,
humilhados, e com o coração cheio de ódio ao Ocidente.
Darão bons mártires. Esta é a perspectiva optimista.
Se Bush sobreviver, se a democracia americana não o afastar, não
consigo sequer imaginar como será. Não será, certamente,
o mundo que eu gostaria de dar ao meu filho. Publicado originalmente na revista Pública 06-04-2003 |
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