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Contra a GuerraJosé Eduardo Agualusa
Não acredito que alguém seja capaz de defender George Bush, e a sua retórica de cowboy serôdio, sem se sentir, lá bem no íntimo, um pouco ridículo. Vejo-o na televisão, com aquele ar sempre um pouco atordoado de quem cinco minutos antes se tentou matar com um biscoito, e chego a sentir orgulho em José Eduardo dos Santos. Uma das virtudes de Bush (até nos maiores erros há virtudes) é a de ter permitido a todos os povos mal governados do mundo o consolo de se poderem comparar, com óbvia, embora discutível, vantagem, à única grande potência: "Sim, o nosso presidente pode não parecer mais inteligente do que um pargo, mas pelo menos não se parece com um pargo." Etc., há inúmeras variantes. Acompanho com simpatia as manifestações contra a guerra que se multiplicam pelos cinco continentes. Inquieta-me, porém, a tentação, por parte de alguns dos manifestantes, de apoiar o Iraque. Esta é, aliás, uma armadilha ingénua na qual os conselheiros de George Bush gostariam de aprisionar os seus detractores. Esperam que saltemos da frigideira para o lume louvando alegremente as delícias de morrer queimado. Os Estados Unidos foram durante décadas uma referência moral para a maior parte da humanidade, o país da liberdade, da democracia, da justiça racial, e conseguiram criar e manter tal imagem mesmo enquanto assassinavam as populações indígenas, mesmo enquanto perseguiam intelectuais e linchavam negros, mesmo enquanto lançavam bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, mesmo enquanto apoiavam Pinochet, Mobuto, Suharto e Saddam Hussein, mesmo enquanto enforcavam ou electrocutavam prisioneiros, mesmo enquanto fabricavam e comercializavam as minas que matam e mutilam, e continuarão a matar e a mutilar durante as próximas décadas, as crianças inocentes de África. Esse tempo acabou. O encanto quebrou-se. A Europa moderna, pós-colonial, multicultural, livre, próspera, unida e democrática, ocupa hoje tal lugar. Para muitos cidadãos do chamado Terceiro Mundo, envolvidos no combate pela democratização e pelo desenvolvimento dos seus países, o mais importante já não é saber o que os americanos irão ou não fazer amanhã, que outro país, depois do Iraque, irão ou não conquistar, o mais importante é saber se os europeus conseguirão sacudir de vez a tutela americana e assumir por inteiro o seu novo papel. Espero que os actuais manifestantes não percam o fôlego, e sejam capazes de resistir para além do Iraque, criando um movimento muito mais amplo, mais maduro, contra a Guerra, todas as guerras, por uma civilização que olhe para os exércitos com o mesmo horror e a mesma incredulidade ("como foi possível a existência de tais instituições?") com que hoje olhamos para a escravatura. Agora é o Iraque, a seguir o Irão ou a Arábia Saudita, amanhã poderá ser a Venezuela, se a exportação do petróleo para os Estados Unidos estiver em causa, e finalmente o Brasil, caso Luís Inácio Lula da Silva se atreva a pisar o risco. Não há porque parar. A menos que alguém os faça parar. Editado originalmente na revista Pública 26-01-2003 |
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