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A luz era
tão intensa que me atordoava. O ar subia do chão num sopro
ardente. Entrei no velho templo budista, numa pequena ilha malaia, procurando
o alívio de uma sombra, e vi-o, a cabeça apoiada na mão
direita, as pálpebras baixas, o divino rosto iluminado por um sorriso
feliz - Buda dormia. Logo nessa altura pensei que se um dia me forçassem
a escolher um ídolo eu me recolheria à protecção
daquele. Ninguém organiza guerras santas em nome de uma divindade
adormecida. Um Deus que ri, sobretudo se nem um deus pretende ser, não
serve para açular multidões.
Nos dias que correm chego a sentir saudades
dos antigos deuses pagãos. O triunfo das grandes religiões
monoteístas representou em larga medida uma vitória da intolerância.
Ao defender-se a existência de um único deus está-se,
inevitavelmente, a condenar ao inferno todos os outros. Quanto a mim acho
fácil simpatizar com o grego Dionísio, por exemplo, um tipo
que vivia cercado por belas mulheres, excelente músico, exímio
dançarino, bom garfo e melhor copo. Dionísio foi além
disso um filho devotado, resgatando a mãe, a ingénua Semeie,
dos infernos e levando-a até ao Olimpo, onde Zeus a transformou
numa deusa. Não se pode separar o carnaval, a última das
grandes festas pagãs, originalmente em honra de Baco, ou seja,
de Dionísio, da imagem do Brasil - e não por acaso o Brasil
é um dos países mais tolerantes do mundo.
Os cristãos, e em particular os
católicos, parecem-me menos propensos ao fanatismo que os muçulmanos
ou os judeus. Talvez porque, na prática, o catolicismo não
seja já um monoteísmo. Os católicos criaram ao longo
dos séculos uma infinitude de divindades intermédias, de
santos e de santas, havendo padroeiros para todos os ofícios, dos
açougueiros (São Bartolomeu) e cervejeiros (Santo Arnaldo),
aos agentes funerários (São Dimas), e para as mais diversas
situações, como São Pancrácio, que nos protege
das cãibras, ou São João Nepomuceno, que se especializou
em afastar calúnias. Existe até um santo protector dos leões
- São Marcos Evangelista. Não estamos muito longe, afinal,
da antiga Grécia, do moderno hinduísmo, ou dos terreiros
de candomblé. Foi Iansã que para poder ser cultuada pelos
negros brasileiros nos tempos da escravatura se disfarçou de Santa
Bárbara, ou Santa Bárbara que assumiu os poderes de Iansã?
Três ou quatro sinais denunciam o
fanático: a misoginia, o horror ao riso, a paixão pelas
multidões, a hidrofobia. Os profetas são tradicionalmente
sujeitos magros e hirsutos, rosto agudo e palavra dura. Pregam, isto é,
disparam sentenças como se fossem pregos, contra tudo o que possa
alegrar o espírito. Assusta-os, aos beatos, um simples requebrar
de ancas; estremecem se pressentem o fulgor de um seio; benzem-se se uma
mulher lhes sorri. Todos os fanáticos odeiam mulheres. As mulheres
fanáticas, essas, odeiam a sua própria feminilidade. Os
fanáticos, como os tiranos, abominam o riso porque intuem nele
o princípio da subversão, e amam as turbas porque as sabem
acéfalas. Se reunirmos dez sábios teremos um areópago.
Se reunirmos mil teremos uma tropa (no sentido que os dicionários
dão, entenda-se, a um grande número de bestas de carga).
Não existe monstro mais estúpido do que uma multidão
e não existe multidão mais perigosa do que aquela que segue
um devoto. Finalmente, parece ser comum aos beatos o nojo pela água.
Nos tempos bíblicos os ascetas retiravam-se para o deserto, o que
era, talvez, uma forma de fugir ao vigor da vida que a água representa.
Ainda hoje, suspeito, não gostam muito de tomar banho.
Estou a pensar em Osama Bin Laden, sim,
e nos homens-bomba palestinianos, mas também nos extremistas judeus
e em muitos cristãos conservadores com grande influência
política nas democracias ocidentais. Eles não o sabem mas
estão todos do mesmo lado da barricada. Do outro lado, do lado
da paz, estamos nós, e - assim o espero - todos os nossos deuses
distraídos e folgazões. Este é um combate, afinal,
tão antigo quanto a humanidade.
11-12-2002

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