Saudades dos velhos deuses

José Eduardo Agualusa

Aparecido originalmente na revista Pública

A luz era tão intensa que me atordoava. O ar subia do chão num sopro ardente. Entrei no velho templo budista, numa pequena ilha malaia, procurando o alívio de uma sombra, e vi-o, a cabeça apoiada na mão direita, as pálpebras baixas, o divino rosto iluminado por um sorriso feliz - Buda dormia. Logo nessa altura pensei que se um dia me forçassem a escolher um ídolo eu me recolheria à protecção daquele. Ninguém organiza guerras santas em nome de uma divindade adormecida. Um Deus que ri, sobretudo se nem um deus pretende ser, não serve para açular multidões.

Nos dias que correm chego a sentir saudades dos antigos deuses pagãos. O triunfo das grandes religiões monoteístas representou em larga medida uma vitória da intolerância. Ao defender-se a existência de um único deus está-se, inevitavelmente, a condenar ao inferno todos os outros. Quanto a mim acho fácil simpatizar com o grego Dionísio, por exemplo, um tipo que vivia cercado por belas mulheres, excelente músico, exímio dançarino, bom garfo e melhor copo. Dionísio foi além disso um filho devotado, resgatando a mãe, a ingénua Semeie, dos infernos e levando-a até ao Olimpo, onde Zeus a transformou numa deusa. Não se pode separar o carnaval, a última das grandes festas pagãs, originalmente em honra de Baco, ou seja, de Dionísio, da imagem do Brasil - e não por acaso o Brasil é um dos países mais tolerantes do mundo.

Os cristãos, e em particular os católicos, parecem-me menos propensos ao fanatismo que os muçulmanos ou os judeus. Talvez porque, na prática, o catolicismo não seja já um monoteísmo. Os católicos criaram ao longo dos séculos uma infinitude de divindades intermédias, de santos e de santas, havendo padroeiros para todos os ofícios, dos açougueiros (São Bartolomeu) e cervejeiros (Santo Arnaldo), aos agentes funerários (São Dimas), e para as mais diversas situações, como São Pancrácio, que nos protege das cãibras, ou São João Nepomuceno, que se especializou em afastar calúnias. Existe até um santo protector dos leões - São Marcos Evangelista. Não estamos muito longe, afinal, da antiga Grécia, do moderno hinduísmo, ou dos terreiros de candomblé. Foi Iansã que para poder ser cultuada pelos negros brasileiros nos tempos da escravatura se disfarçou de Santa Bárbara, ou Santa Bárbara que assumiu os poderes de Iansã?

Três ou quatro sinais denunciam o fanático: a misoginia, o horror ao riso, a paixão pelas multidões, a hidrofobia. Os profetas são tradicionalmente sujeitos magros e hirsutos, rosto agudo e palavra dura. Pregam, isto é, disparam sentenças como se fossem pregos, contra tudo o que possa alegrar o espírito. Assusta-os, aos beatos, um simples requebrar de ancas; estremecem se pressentem o fulgor de um seio; benzem-se se uma mulher lhes sorri. Todos os fanáticos odeiam mulheres. As mulheres fanáticas, essas, odeiam a sua própria feminilidade. Os fanáticos, como os tiranos, abominam o riso porque intuem nele o princípio da subversão, e amam as turbas porque as sabem acéfalas. Se reunirmos dez sábios teremos um areópago. Se reunirmos mil teremos uma tropa (no sentido que os dicionários dão, entenda-se, a um grande número de bestas de carga). Não existe monstro mais estúpido do que uma multidão e não existe multidão mais perigosa do que aquela que segue um devoto. Finalmente, parece ser comum aos beatos o nojo pela água. Nos tempos bíblicos os ascetas retiravam-se para o deserto, o que era, talvez, uma forma de fugir ao vigor da vida que a água representa. Ainda hoje, suspeito, não gostam muito de tomar banho.

Estou a pensar em Osama Bin Laden, sim, e nos homens-bomba palestinianos, mas também nos extremistas judeus e em muitos cristãos conservadores com grande influência política nas democracias ocidentais. Eles não o sabem mas estão todos do mesmo lado da barricada. Do outro lado, do lado da paz, estamos nós, e - assim o espero - todos os nossos deuses distraídos e folgazões. Este é um combate, afinal, tão antigo quanto a humanidade.

11-12-2002