Depois da Guerra

Francisco Férnandez Buey

Publicado em La Insignia

Nos debates recentemente verificados entre grupos, organizações e pessoas que mais activamente intervieram no movimento contra a guerra no Iraque foi possível vislumbrar um certo desencanto. Razões existirão, certamente, para a manifestação de tal sentimento.

A primeira, e principal, é que, apesar da dimensão das manifestações contra a guerra, e apesar do carácter global dos protestos, não se conseguiu atingir o objectivo proposto: a guerra foi para a frente e, além do mais, ganhou-a quem a queria ganhar e andava à procura motivos para a fazer.

A segunda razão do desencanto, pelo menos em Espanha, tem a ver com o facto dos resultados eleitorais das eleições municipais e autonómicas apenas aflorar as expectativas criadas durante semanas de manifestações e protestos. O partido da guerra aguentou-se, apesar dos reiterados apelos de todos os sectores e correntes do movimento anti belicista para que nele se não votasse.

A terceira razão da desilusão tem a ver com o facto de, após a invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas e britânicas, a adesão às manifestações e reuniões para apoiar a continuidade dos protestos foi diminuindo consideravelmente. Como exemplo desta desmobilização pode tomar-se a última das manifestações convocadas em Barcelona pela Plataforma Aturem la guerra, a 1 de Junho, à qual não terão assistido mais que umas três mil pessoas.

Também não parece existir eco algum em relação ao apelo à objecção fiscal ao orçamento militar nas declarações de rendimento, apresentado em semanas anteriores como uma forma de resistência e protesto anti-belicista.

Neste panorama, não devem surpreender certas críticas, feitas com alguma ênfase ao facto. Segundo tais críticas, expressas sem contemplações durante uma mesa redonda organizada em Barcelona pelo Fórum 2004, às manifestações contra a guerra faltou coerência e compromisso com os povos do mundo (e com os mais próximos) e não faltou espírito utópico e instrumentalização política contra o partido do governo.

É, pois, urgente e indispensável que se faça um balanço sério e ético.

A análise dos motivos pelos quais - apesar de tudo - se fez a guerra, se verificou um desfasamento entre a mobilização e os resultados eleitorais, e se afirmou a tendência para uma cada vez menor adesão aos protestos, é, à posteriori, fácil de fazer. Na realidade está feita. Direi, no entanto, algumas coisas mais. A maior parte delas idênticas às que as pessoas mais activas do movimento recentemente têm dito: o poder militar-industrial-mediático da administração norte americana a nível mundial é quase omnímodo; os governos dissidentes no seio da EU, China, ou Rússia mais não são que um contrapoder; a organização das Nações Unidas conta apenas para a resolução dos grandes conflitos internacionais; o mundo árabe continua profundamente dividido, e não apenas entre o petróleo e Alá; nas eleições, sobretudo quando são apenas regionais, entram muitos factores que complicam a correlação entre consciência e o voto; e, além do mais, não há movimento, por maior que seja a sua realidade social, que consiga manter um ritmo tão alto de mobilizações e organização como os alcançados durante os dias da guerra. Está tudo dito.

Mas, poder-se-á concluir daqui que faltou coerência, compromisso com os mais pobres do mundo, que transbordou utopia e/ou instrumentalização política das manifestações e dos protestos em geral? A resposta é não. O movimento anti belicista dos últimos meses foi, em parte, expressão de um sentimento de repúdio elementar e moralmente muito respeitável, contra os previsíveis desastres da guerra, daí o ter alcançado uma dimensão tão ampla. Mas foi também a continuação e válvula de escape de um movimento mais extenso, do movimento dos movimentos contra a globalização parcial e unilateral, contra o novo imperialismo que se centra agora no domínio dos principais recursos não renováveis do planeta, na militarização das zonas estratégicas do mundo e no intento de homogenalizá-lo culturalmente; e, por isso, alguns dos representantes dos grandes media norte americanos chamaram a atenção sobre a sua importância no futuro. E, em Espanha, o movimento anti belicista foi, por fim, a expressão do mal-estar que produz, em sectores muito importantes dos cidadãos, a subordinação do partido do governo aos desígnios hegemonistas da Administração Bush.

Nem todas as pessoas que estiveram nas manifestações o fizeram no seu conjunto pelos motivos apontados. Mas não existem razões para criticar ou desprezar aqueles que o fizeram apenas pensando no primeiro ou só pensando no terceiro. Os que criticam ou menosprezam desconhecem o que é um movimento social e, sobretudo, ignoram a diferença, em qualquer das suas formas, entre um movimento sócio-político, sempre heterogéneo e plural nas suas motivações, e um partido político.

Diferentemente dos partidos políticos do hemiciclo parlamentar, que dizem ganhar sempre, aconteça o que acontecer, nos movimentos sociais críticos e alternativos dizer a verdade, ainda que custe e seja doloroso, e ainda que pareça, num primeiro momento, prejudicar o estado de ânimo dos cidadãos que precisam ser mobilizados, continua a ser um princípio de actuação que deve ser partilhado. O pior que pode acontecer a um movimento de raiz social, como o foi o movimento contra a guerra, é entrar pelo cinismo vulgar dos que ganham sempre, chova ou faça sol. Proceder desse modo é começar a ser como os outros. E será o princípio do fim de todo o movimento social são, crítico e alternativo.

Esta convicção está na base de muitos dos actos e manifestações contra a guerra que foram intensamente vividos durante os últimos meses. Muitas pessoas jovens e adultas se mobilizaram nas escolas, nos bairros, nos locais de trabalho, não só contra a guerra em geral, contra os bombardeamentos, contra as sanções e contra a invasão do Iraque, mas também contra as mentiras – e isto é essencial – daqueles que fazem as guerras de conquista e dizem fazê-las em nome da liberdade, da democracia e da civilização. Nestas circunstâncias o número das pessoas que estão dispostas a sair à rua tem tendência a aumentar proporcionalmente à percepção da institucionalização de mentira. Desta vez houve muita gente disposta a manifestar-se precisamente porque, além do repúdio da guerra, a percepção da grande mentira era muito grande.

Nesta ordem de ideias, parece-me um erro, quando a sensação de desencanto cresce e a mobilização decai, atribuir às pessoas culpas pela situação criada, apontando a debilidade do seu compromisso, a sua inconsequência ou o seu cansaço. Ao proceder desse modo, dá-se por adquirido que a gente são os outros, como quando se proclama que a natureza humana é má e débil. É uma afirmação que nos exclui: a nós, aos nossos amigos, aqueles que nos são mais próximos. Exclui-nos da gente e da natureza humana. Mas, sabe-se há muito tempo, o homem só pode ser um deus ou uma besta. As pessoas não podem ser “boa gente” – conscientes e corajosas - quando alinham com os nossos pontos de vista, e “gente má” – incoerente, inconsequente e interesseira – quando, passadas algumas semanas, para e não nos acompanha. Quem se deixa levar por sentenças tão imediatas sobre “a gente” talvez imagine saber muito sobre essa abstracção chamada natureza humana, mas não entendeu nada do que são os movimentos sociais críticos e alternativos.

Uma das pedras de toque partilhada pela maioria dos movimentos sociais efectivamente críticos e alternativos das últimas décadas – desde o movimento ecologista, nas suas origens, ao novo movimento feminista, e desde o movimento a favor dos direitos civis das minorias a não poucas organizações não governamentais e, concretamente, o movimento anti-belicista – tem sido procurar perceber a política como ética do colectivo, em vez de a utilizar como o lugar de antonomásia da dupla moral e da mentira.

Nessa direcção é possível obter uma explicação mais plausível do equívoco ou do paradoxo segundo o qual os jovens não querem saber nada da política, enquanto, ao mesmo tempo, cada vez existem mais jovens comprometidos com os movimentos sociais e as ONG’s. O equívoco está na representação especulativa do que podemos ver: os meios de comunicação que escrevem sobre este assunto entendem por política apenas a política institucionalizada, quase sempre politiqueira ou diplomática, enquanto as pessoas organizadas nos movimentos sociais críticos e alternativos pressentem que há uma outra forma de fazer política, se bem que nem sempre a designem por esse nome: intervir activamente, e desde a base, nos assuntos sócio-culturais da polis, da cidade, do Estado, do mundo, dizendo com clareza o que se quer mudar e porquê.

É profundamente errado, para esta forma de entender a actividade cívica, civil, opor à mentira daqueles que mandam, tão flagrante, uma outra mentira: a de que também nós vamos conseguindo as nossas vitórias porque algo conseguimos extrair da recente contenda eleitoral. Não, não vamos ganhando também. Vamos resistindo num mundo que é uma vergonha. Fazer com que esta resistência tome corpo e se converta em algo alternativo depende, em minha opinião, do desenvolvimento daquilo a que já se chama o movimento dos movimentos, ou resistência global à mundialização neoliberal. Este desenvolvimento dependerá, por sua vez, da capacidade que tenhamos para comunicar experiências entre pessoas que, sobretudo por idade e por vivências, não serão contemporâneas no plano ético político: quando umas vão, outras voltam. Portanto, antes de pretender perfilar um qualquer projecto alternativo, ou mesmo concretizá-lo, convém resolver a questão dos tons e das formas mais adequados para definir critérios sobre aqueles que vão e aqueles que voltam. Se tal não se conseguir, os que vão apenas verão nos outros soberbos doutrinadores, e os que voltam só entenderão os que vão como ingénuos utopistas.

13-07-2003