Os Invisíveis

Eduardo Galeano*, sobre o 20 de Dezembro de 2001 na Argentina.

Isto começou com uma explosão de violência. Poucos dias antes do Natal, muitos esfomeados lançaram-se ao assalto dos supermercados. Entre os desesperados, como é costume acontecer, colaram-se uns quantos delinquentes. E nessas horas de caos, enquanto o sangue corria, o presidente argentino falou na televisão. Mais palavra, menos palavra, disse: a realidade não existe, a gente não existe.


El pueblo en la calle
Revista En Marcha - em http://www.patrialibre.org.ar

E então nasceu a música. Começou pouco a pouco, soando nas cozinhas de algumas casas, colherões que batiam em panelas, e saiu às janelas e varandas. E multiplicou-se, de casa em casa, e ganhou as ruas de Buenos Aires. Cada som se juntou com outros sons, o povo juntava-se ao povo, e à noite rebentou o concerto da bronca colectiva. Ao som dos tachos de cozinha, e sem mais armas que essas, levantou-se o clamor da indignação. Convocada por ninguém, a multidão invadiu os bairros, a cidade, o país. A polícia respondeu à bala. Mas a gente, inesperadamente poderosa, derrubou o Governo.

Os invisíveis tinham ocupado, coisa rara, o centro do palco.

Não só na Argentina, não só na América Latina, o sistema está cego. O que são as pessoas de carne e osso? Para os economistas mais notórios, números. Para os banqueiros mais poderosos, devedores. Para os tecnocratas mais eficientes, chatices. E para os políticos melhor sucedidos, votos.

O povo que despachou o presidente De La Rúa deu uma prova de energia democrática. A democracia somos nós, disse a gente, e nós estamos fartos. Ou será que a democracia consiste apenas no direito a votar em cada quatro anos? Direito de eleição ou direito de traição? Na Argentina, como em tantos outros países, a gente vota, mas não elege. Vota num, governa outro: governa o clone.

O clone faz, a partir do Governo, tudo ao contrário do que o candidato prometera na campanha eleitoral. Segundo a célebre definição de Oscar Wilde, cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de nada. O cinismo disfarça-se de realismo; e assim se desprestigia a democracia.

As sondagens indicam que a América Latina é, hoje em dia, a região do mundo que menos acredita num sistema democrático de governo. Uma destas sondagens, publicada na revista The Economist, revelou a queda vertical da fé da opinião pública na democracia em quase todos os países latino-americanos: segundo os dados recolhidos há meio ano, só acreditavam nela seis em cada dez argentinos, bolivianos, venezuelanos, peruanos e hondurenhos, menos de metade dos mexicanos, nicaraguenses e chilenos, não mais que um terço dos colombianos, guatemaltecos, panamianos e paraguaios, menos de um terço dos brasileiros e apenas um em cada quatro salvadorenhos. Triste panorama, caldo de cultura para os demagogos e os messias de uniforme: muita gente, e sobretudo muita gente jovem, sente que o verdadeiro domicílio dos políticos está na gruta de Ali Babá e os quarenta ladrões.

Uma recordação de infância do escritor argentino Hector Tizón: na avenida de Maio em Buenos Aires, o seu pai apontou-lhe um senhor que no passeio, ante uma mesita, vendia pomadas e escova para polir sapatos:

- Esse senhor chama-se Elpidio Gonzáles. Olha bem para ele. Foi vice-presidente da república.

Eram outros tempos. Sessenta anos depois, nas eleições legislativas de 2001, houve um aluvião de votos em branco ou anulados, uma coisa nunca vista, um record mundial. Entre os votos anulados, o candidato triunfante era o pato Clemente, um famoso personagem de bd: como não tinha mãos, não podia roubar.

Talvez nunca a América Latina tivesse sofrido um saque político comparável ao da década passada. Com a cumplicidade e o amparo do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, sempre exigentes de austeridade e transparência, vários governantes roubaram até as ferraduras dos cavalos a galope. Nos anos das privatizações, rifaram tudo, até as pedras da calçada e os leões dos zoológicos, e tudo fizeram evaporar.

Os países foram entregues para pagar a dívida externa, como mandavam os que mandam de verdade, mas a dívida, misteriosamente, multiplicou-se, nas mãos ágeis de Carlos Menem e muitos dos seus colegas. E os cidadãos, os invisíveis, ficaram sem países, com uma imensa dívida por pagar, como pratos partidos dessa festa alheia, e com governos que não governam, porque estão a ser governados a partir do exterior. Os governos pedem licença, fazem os seus deveres e prestam contas: não ante os cidadãos que os votam, mas ante os banqueiros que os vetam. Agora que todos estamos em plena guerra contra o terrorismo internacional, esta pergunta não é descabida: Que fazemos com o terrorismo do mercado, que está a castigar a imensa maioria da humanidade? Ou não são terroristas os métodos dos altos organismos internacionais, que à escala planetária dirigem as finanças, o comércio e tudo o resto? Será que não praticam a extorsão e o crime, ainda que matem por asfixia e fome em vez de bombas? Não estão a partir aos pedaços os direitos dos trabalhadores? Não estão assassinando a soberania nacional, a indústria nacional, a cultura nacional?

A Argentina era a aluna mais cumpridora do FMI, do BM e da OMC. Assim foi. Senhoras e senhores: primeiro estão os banqueiros. E onde manda capitão, não manda marinheiro. Mais palavra, menos palavra, terá sido esta a primeira mensagem que o presidente George W. Bush enviou à Argentina. Desde a cidade de Washington, capital dos Estados Unidos e do mundo, Bush declarou que o novo Governo argentino deve "proteger" os seus credores e o FMI e levar adiante uma política de "mais austeridade".

Enquanto isso, o novo presidente provisório argentino, que substitui De la Rúa até às próximas eleições, meteu a pata na poça logo na primeira resposta à imprensa. Um jornalista perguntou-lhe a que ia dar prioridade, à dívida ou à gente, e ele respondeu: "A dívida". Sigmund Freud sorriu no túmulo, mas Rodriguez Saá corrigiu de imediato a sua resposta. E pouco depois, anunciou que suspenderá os pagamentos da dívida e destinará esse dinheiro à criação de trabalho para as legiões de desocupados. A dívida ou a gente, essa é a questão. E agora a gente, a invisível, exige e vigia.

Já lá vai um século, don José Batlle y Ordoñez, residente do Uruguai, assistia a uma partida de futebol. E comentou:

- Que lindo seria se houvesse 22 espectadores e 10.000 jogadores!

Talvez se referisse à educação física, que ele promoveu. Ou talvez falasse, isso sim, da democracia que queria.

Um século depois, na Argentina, o país vizinho, muitos manifestantes levavam a camisola da sua selecção nacional de futebol, o seu entranhado sinal de identidade, a sua alegre certeza de pátria: com a camisola vestida, invadiram as ruas. A gente, farta de ser espectadora da sua humilhação, invadiu o terreno de jogo. Não será fácil desalojá-la.

* Escritor e jornalista uruguaio, autor de "As Veias Abertas da América Latina" (ed.Dinossauro, Lisboa).

Artigo traduzido por Luís Branco para www.combate.info (Janeiro de 2002)

11-01-2003