Europa via Washington

Carlos Leone

"A prazo, Eduardo Lourenço será provavelmente mais um problema para a esquerda portuguesa."
Boaventura Sousa Santos, A Cor do Tempo Quando Foge (p. 44)

Como o livro de Boaventura Sousa Santos é de 2001, valerá a pena referir que o texto citado é de 1986. Boaventura tem um certo quê evangélico, mas aqui roça a profecia: de facto, ciclicamente, Eduardo Lourenço atrapalha a unicidade da Esquerda. Um destes dias o Miguel Real ainda escreve um artigo intitulado "O Complexo de Lourenço", ou "O Eduardo Nunca Existiu", quem sabe mesmo "Situação Imagológica e Consciência Eduardina" (ele prefere "eduardina" a "laurentina"). A sério, se não veja-se: quando desde o Prof. Rosas ao Prof. Freitas, passando pelo inevitável Soares, todos comparam Bush a Hitler, um com o petróleo tal como o outro com o Lebensraum, lá veio de Vence o recado: "É caluniar a América e a sua política imaginar que a causa óbvia, única ou final da guerra preventiva seja o petróleo.". E, depois de divagar pelo Texas e por Putin, insiste: "Se algum petróleo põe um problema sério à actual Administração americana é o da sua aliada reticente e suspeita, a Arábia Saudita, mãe e madrasta do integrismo islâmico e pátria dos Bin Laden, aliados e cúmplices da família Bush, desde o Médio Oriente ao Afeganistão." (Público, 8 deste mês de Fevereiro). Logo agora que a subtileza da Esquerda mundial (pois a americana não é menor que a europeia) já tinha explicado tudo pela necessidade petrolífera americana, voltando às boas manias conspirativas daqueles que sabiam sempre todos os planos secretos da CIA mas a quem "faltava informação" sobre as invasões da URSS... Será que Lourenço tem dados por via de inside trading, agora que administra a Gulbenkian?

Os problemas americanos são, de certo modo, os da Esquerda: a criação de um inimigo comum, que agregue ódios de outra forma incontroláveis. Em Agosto passado escrevi sobre o tema e fui parar às páginas de Economia. Agora, seis meses e nada de novo depois (Powell na ONU? Cartas Abertas europeias? Much ado about nothing…), quando Mário Mesquita já citou Le Carré (Público, 2 deste mês) a propósito da criação de um bode-expiatório para Bin Laden com o nome Hussein, vale a pena insistir no óbvio? Que esta é uma guerra não económica mas política, feita pela manutenção de políticas securitárias como nunca houve nos EUA, para dividir a Europa quase unificada pelo Euro (sempre os ingleses) e desculpar a desordem económica interna, para encobrir o completo flop que foi ocupar o Afeganistão para ver os "evildoers" atacar em Bali? Vale.

E vale porque o problema da Esquerda, no caso a portuguesa, é o facto de Lourenço ser ainda o mais lúcido mesmo ao insistir na sua tese de 1990, segundo a qual o alvo final da política americana é a Europa. Este mês reportou tal política ao fim da Segunda Guerra, há doze anos remetia-a para a crise do Suez; prefiro a hipótese antiga, mas pouco importa. A questão é: pelo menos desde a queda do Muro, o principal adversário estratégico dos EUA chama-se União Europeia. Não em termos militares, hoje quase negligenciáveis numa Europa igualmente pacificada, mas em termos económicos. Que uma Europa a 25 ou mais não deveria dispensar a autodefesa é, ou deveria ser, óbvio até para a Esquerda. Mas pedir-lhe o óbvio talvez fosse neste momento demasiado. Certo é que já na Administração Clinton foi a Europa, e não o Japão ou a Rússia, a ser combatida, apostando os americanos no falhanço do Euro. Sucedida a moeda comum, restava a divisão política, o retorno à política do dividir para reinar. Que se discuta se a França e a Alemanha estão contra (e se estivessem a favor, com que contribuiriam?) ou se a Espanha e Portugal estão a favor (como se Bagdad fosse Perejil), parece o suficiente para descrer da Europa. Pelo menos para Lourenço, que a declara assassinada depois de morta e faz de Blair personagem shakespereano.

Sucede que Lourenço olha para trás, pensa no que foi e não no que será de futuro. A Europa que declara falecida é (aqui sim) a "velha Europa" da Machtpolitik, cujos arcana imperii são tão impraticáveis hoje, cá como nos EUA, graças à tão denegrida comunicação social. Essa Europa, a da juventude de Lourenço, morreu de facto e, mesmo quando (no Suez) tentou persistir como zombie, foi posta no seu devido lugar. No passado. As atribulações de Blair, Berlusconi ou Aznar (mas Durão existe?) são só som, aliás mera música de elevador, sem sequer fúria para exibir. A Esquerda contorce-se com a sua fatal previsibilidade, mas "tudo conspira", como dizia um matemático interessado por metafísica que por acaso também era bibliotecário e diplomata. Da Europa que já não há e dos EUA que só conseguem simular vitórias à custa adversários impotentes, como evitar uma Europa cuja única saída é a sua existência futura? O canto do siglo americano é o resgate de Europa - via Washington.

14-02-2003