Continuar vivas
Ahdaf Soueif
Encontramo-la diariamente em Bagdad. Não lhe juntaremos
o nome, mas podemos adiantar que é alta e magra, cabelo com algumas
brancas, bem penteado. Veste de negro, calça sapatilhas e peúgas
grossas, também negras. O seu marido, Embaixador do Iraque em tempos,
já faleceu. Pelas manhãs, todas as manhãs, sai de
casa e deambula pelas ruas procurando, escutando, questionando. Quer guardar
na memória o que acontece, que marcas deixa a actualidade nas pessoas,
no quotidiano do seu país. Tem 88 anos. Não lhe resta muito
tempo.
A
nenhum de nós resta muito tempo.
Alguma vez terão visto um
livro remendado? Existe um: é um estreito volume intitulado “Poeta”.
A sua autora, SJ, é doutorada em literatura árabe pela Universidade
de Bagdad. O vetusto engenho com o qual, à custa de muitas canseiras
e dedicação, conseguiu imprimir o seu livro, umas vezes
seca e outras alaga. Impresso nestas condições, o livro
nem sempre corresponde à missão de transmitir as ideias
da autora. Então SJ escreve, à mão, as frases e as
palavras certas num novo pedaço de papel, e cola-as no sítio
adequado. “A guerra pare”, escreve, “e as mães
ocupam-se das crianças”. SJ vende “Poeta” a 125
dinares por cópia, esperando amortizar os 3 000 dólares
que lhe custou produzi-lo. Três mil dinares, correspondia, em Março
de 2003, a, mais ou menos, o equivalente a 1,5 euros.
Alguém lê as histórias
destas mulheres nas reportagens dos meios de comunicação
ocidentais? Nestes média, as mulheres árabes aparecem, por
norma, retratadas como vítimas, como criadas. Vemo-las sentadas
junto das crianças de olhos redondos nos hospitais iraquianos,
ou tropeçando nos obstáculos das ruínas dos seus
lares em Jenin. Fica a ideia de que aquilo que muitos ocidentais pensam
sobre o que falta a estas mulheres é que as retiremos para fora
daqueles véus e as repreendamos, a ver se se põem de pé
por elas próprias, de uma vez para sempre. Mas, agora que todas
nós estamos a tentar bloquear, temperar, sobreviver ao horror que
nos vem de fora, é crucial que, as pessoas que nos apoiam no ocidente,
percebam a verdade, que nos julguem a partir da nossa própria realidade.
No Egipto, na Palestina e na Síria,
o movimento feminista surgiu na década de 1980. Nos anos 60, as
mulheres de muitos dos países árabes tinham direito ao voto,
a igual salário para trabalho igual e a uma legislação
sobre a maternidade e cuidados primários pediátricos que,
no ocidente, continuam a ser um sonho. As múltiplas e variadas
organizações de mulheres esforçavam-se por melhorar
a educação e os cuidados sanitários a que tinham
acesso. Existiram campanhas de mulheres, e também de homens, que
conseguiram bons resultados na reforma das leis que mais directamente
se aplicam aos direitos das mulheres. Mas agora tudo isto está
suspenso.
Perguntar-me-ão o que é
que fazem, nestes momentos de crise, as mulheres árabes. Direi
que fazem aquilo que têm que fazer: continuar em frente com as suas
duras penas, permanecer um pouco em tudo, cumprir as suas obrigações,
fazer que o dinheiro estique, tentar proteger as crianças, apoiar
os seus homens e inventar as solidariedades e o riso entre as suas amigas,
irmãs e mães. Tempos houve mais pacíficos, mais harmoniosos,
nos quais a acção política das mulheres era consequência
de uma eleição, de um desejo de intervir para mudar o mundo.
Hoje, sobreviver é preciso, e algo tão simples como tentar
manter o nosso mundo à superfície é uma acção
política.
F é uma arquitecta egípcia.
Sempre foi activista em organizações feministas. Trabalhou
como voluntária na alfabetização de mulheres urbanas
pobres, e o seu livro sobre mulheres e crianças foi publicado pelo
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O seu
marido é um dos 14 activistas recentemente detidos no Cairo. Quando
levou as duas filhas, ambas estudantes de engenharia, a visitá-lo
à cadeia de Tora, ficaram atónitas ao verificar as centenas
de mulheres e crianças que, como elas, esperavam a visita aos prisioneiros
políticos. Havia crianças que esperavam para poder ver os
seus avós, septuagenários. O marido de F – agora já
em liberdade – é de esquerda, mas a maior parte, dos há
muito encarcerados, é simplesmente islamita. A maioria das detenções
nem sequer são formais, isto é, oficialmente não
existem: os reclusos não foram submetidos a qualquer julgamento,
não existe qualquer documento que registe a sua condição
de prisioneiros e nem mesmo lhes é reconhecido o direito a nomear
um defensor jurídico. Sem esta documentação, as mulheres
dos detidos não podem receber os salários dos seus maridos,
nem viajar, nem casar uma filha, nem sequer enterrar um descendente. Nestas
condições de vida na prisão, as famílias dos
detidos têm que inventar formas de lhes proporcionar alimentos,
roupa, livros e tabaco. Do Cairo à prisão de Tora vão
cerca de 30 km. Uma vez que os detidos não constam de qualquer
lista oficial, não existe um sistema que regule as visitas. As
mulheres acorrem na esperança de que as deixem entrar e, com elas,
às provisões que trazem. E, se as não deixam entrar,
têm que voltar no dia seguinte e assim indefinidamente. F e os seus
companheiros encontram-se na curiosa situação de ter que
lutar para que, no mínimo, se apliquem as detestáveis leis
de emergência que, como egípcios, vamos suportando desde
1981.
As leis de excepção
proíbem as manifestações e as reuniões públicas
não expressamente autorizadas. Seis das que tiveram lugar no Cairo
nas últimas semanas, foram protagonizadas por mulheres, convocadas
por ONGs feministas. Ao contrário das que são protagonizadas
por homens, estas conseguiram chegar a aproximar-se das embaixadas americana
e israelita. Os homens que participam nas manifestações
podem ser atacados com armas de fogo antes de se aproximarem destas delegações
diplomáticas, mas as autoridades, de momento, manifestam algum
cuidado na hora de agredir as mulheres em público. Apesar disso,
parece que a paciência se lhes começa a esgotar: numa manifestação,
150 mulheres viram-se encurraladas por 2 000 polícias anti distúrbios.
Uma concentração nas proximidades da sede da Liga Árabe
evidenciava a relação solidária do Iraque com a Palestina,
já que, enquanto o mundo concentrava toda a sua atenção
no Iraque, o exército de Ariel Sharon disparava contra ambulâncias
e derribava casas com mulheres grávidas no seu interior. Desde
Novembro de 2001, 51 mulheres foram forçadas a parir em plenos
controlos policiais. Vinte e nove dos cinquenta e um recém nascidos
morreram.
Mas, contra todas as desgraças,
as palestinianas continuam a ter filhos. Por escolha política?
No centro das vidas da maioria das mulheres estão as crianças.
Soha, uma estudante de enfermagem, desata a chorar na sua casa da Aida
Camp quando, à hora de jantar, um míssil entra silvando
pela janela da cozinha e sai, pela parede oposta, para ir parar ao quarto,
felizmente vazio. A mãe apela à serenidade para não
assustar as crianças. É pedagógico observar que,
a primeira mulher palestiniana que tomou a decisão de se sacrificar
convertida em bomba humana, era uma enfermeira que atendia, dia após
dia, crianças feridas e mutiladas pelas acções do
exército israelita. Entre estes dois extremos, dar vida e dar a
vida, estão centenas de milhar de mulheres que carregam as suas
rotinas o melhor que podem.
Apesar de ter menos 60 anos que
a nossa amiga de Bagdad, Karma Abu Sharif não deambula pelas ruas
de Ramallah. Está sentada em sua casa, editando a folha informativa
e a página da Internet Hearpalestine.
Aí regista tudo o que pode sobre as demolições, expropriações,
detenções e execuções diárias. Manter
vivas as crianças, manter viva a cultura, preservar a sua história
e contá-la: são estas as questões centrais que hoje
estão no centro das preocupações das nossas mulheres.
Peter Hansen. É membro da
ONU e escrevia, a propósito da fome terrível em Gaza, dizendo
que “as redes familiares e comunitárias palestinianas tem
sido a estrutura de salvação dos territórios…
do colapso absoluto.” As mulheres são a coluna vertebral
destas famílias, e esta mesma função a estão
a cumprir no Iraque. As famílias repartem o pouco que têm,
com as que nada têm, por intermédio das igrejas e das mesquitas.
IK disse, há dias, que sua
mãe, em Bagdad, tinha vendido o ouro da Virgem. Trata-se de uma
imagem da Virgem que a sua família conserva há já
mais de 300 anos. Os vizinhos, sejam eles cristãos, judeus ou muçulmanos,
acorrem em casos de aflição e murmuram um pedido ou uma
promessa. Quando o doente está curado, o viajante encontra asilo,
ou, se consegue conceber o filho desejado, o vizinho volta para cumprir
o voto. Desde há muitas décadas que a Virgem vem sendo adornada
com delicadíssimos fios de ouro. Quando os filhos protestaram,
indignados, dizendo que não podia vender o ouro que não
era seu, a mãe replicou que a Virgem não precisava de ouro
num momento em que havia gente a morrer de fome na cidade. A questão
a colocar é: o que virá a seguir? O que fazer quando se
vendeu já todo o ouro da Virgem?
Tradução de António Gonçalves
a partir da versão em castelhano de María Fernández
Publicado em www.zmag.org/Spanish/0503soueif.html
Ahdaf
Soueif é uma escritora de nacionalidade egípcia.
17-05-2003

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