Tempos Livres? Quem os Quer?
António Pinto Ribeiro
publicado em Storm
Magazine
Permitam-me que inicie esta curta comunicação
confrontando duas situações. A primeira diz respeito às
férias.
Mal chegam os meses que antecedem o êxodo
das férias lá vêm os jornais com seus inquéritos
sobre os livros para ler nesta época do ano e com essa ideia ambígua
que existem livros específicos de férias e que o tempo para
os ler é tanto que, pelas listas aconselhadas, seriam precisos
anos consecutivos de lazer permanente para os ler todos. Depois vem a
ideia das férias, os dilemas associados à decisão
do lugar para onde se vai e ao tempo que lá faz, e surgem primeiras
angústias. Ainda se está no princípio do Inverno,
e já se é assolado pelas preocupações de ordem
financeira e pelos conflitos de interesses familiares quanto a destinos.
A seguir, vem o primeiro stress, o da responsabilidade das agências
de viagem, e logo depois, todos os outros se perfilam, inevitáveis:
o stress da própria viagem, o stress do cansaço do turismo
de massas, mais culturais ou mais ecológicas, o stress do ‘tempo
livre’ que, inexplicavelmente, deixou de o ser. E, quanto mais o
tempo das férias se quer ocupado, mais se vai assemelhando ao tempo
dos dias de trabalho, ao sufoco desses dias, às quezílias,
aos jogos de poder, e ao cansaço, sempre ao cansaço...
A segunda confronta-nos com um acto livre
de leitura solitária:
“Estende as pernas, estica também os pés numa almofada,
em duas almofadas, nos braços do sofá, nas orelhas da poltrona,
na mesinha de chá, na secretária, no piano, no mapa-múndi.
Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de
pés soerguidos, porque se não torna a calçá-los.
E agora não fiques para aí de sapatos numa mão e
livro na outra. Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo
já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses
em mexer-te. Arranja-te de maneira que a página não fique
na sombra, um emaranhado de letras negras sobre fundo cinzento, uniformes
como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata
de chapa uma luz demasiado forte e que não reflicta no branco cru
do papel roendo as sombras dos caracteres como num meio-dia do sul”.
(1)
Estas duas situações levam-me
a defender a seguinte tese: a animação dos tempos livres,
quais épocas ou estações do calendário, radicam
na nostalgia dos tempos da infância e da adolescência e na
mitologia das boas vontades do capitalismo. Quero com isto dizer que,
em relação às primeiras, a animação
possível é regida pela imaginação destas idades
de acordo com os tempos do recreio e das férias. O segundo caso,
pelo contrário, assenta na ideia falsa da existência de uma
radical descontinuidade entre o trabalho e o lazer, e postula que esta
descontinuidade oferece ao cidadão um tempo livre cuja gestão
é totalmente autónoma e da sua responsabilidade.
Uma ideologia que contempla a hipótese
de que é possível a um cidadão usufruir um tempo
livre, um tempo liberto, uma espécie de tempo suspenso e não
sujeito às leis do mercado e da economia capitalista, não
tem cabimento na minha acepção da actividade artística
e cultural.
Esta mitologia de que existe um tempo fora
do sistema, numa espécie de opção pela marginalidade
que seria uma absoluta autonomia de ocupação dos tempos
livres por parte do cidadão não é do momento presente.
Os seus antecedentes remontam ao princípio do séc. XX com
os manifestos anarquistas sobre o ‘Direito
à Preguiça’ e encontram a seu enquadramento teórico
no ‘Homo Ludens’ de Johan
Huizinga (1938). Huizinga pretende justamente recuperar a ideia de
‘lazer’ e de ‘jogo’ como questão essencial
da condição humana, e avança com uma nova sistematização
para o ser humano propondo que depois do homo faber e do homo sapiens
haveria de chegar o homo ludens.
E, na ausência de outros argumentos
que atestem a não existência desses tempos a que chamamos
‘tempos livres’, serve-nos para o mesmo propósito a
organização deste Colóquio.
Vamos então pôr as coisas deste
modo: Como ocupar os tempos que transcendem o tempo de trabalho? De que
modo podemos tirar benefícios pessoais destes tempos, sem os embuír
daquela mesma “lógica” que preside à organização
das férias que atrás citei?
E a contradição surge da necessidade
imperiosa de animar os tempos que sobejam? Animação porquê?
Porquê ocupar os tempos livres de uma forma organizada, e produtiva,
como se de uma actividade laboral se tratasse? Assim descrita, esta animação
aparece-me como uma espécie de holding de empresas sem fins comerciais
lucrativos. No entanto, e em rigor, tudo nesta “ocupação
dos tempos livres” parece ser lucrativo. Tudo deverá ter
uma mais valia para todos: para os animadores, para as empresas ou instituições
ligadas à animação, etc. Também os utentes
– cujo objectivo não é apenas ocupar o seu tempo livre,
mas ocupá-lo com o objectivo de dele tirarem um proveito objectivo
- deverão usufruir um ganho, i.e., a possibilidade do encontro,
da influência social, do espaço de libertação
das tensões familiares, da terapia, etc.. E daqui se concluirá
inevitavelmente que, a serem estas últimas as razões maiores
que justificam a animação, estamos num registo, não
de tempos livres, mas de doença ou enfermidade e, por essa razão,
não poderemos continuar a chamar-lhes ‘tempos livres’
mas antes ‘tempos de sofrimento’ os quais implicam necessariamente
a prática de terapias adequadas sejam elas de lazer ou de descompressão
obrigatórias.
Permitir-me-ão
pois que seja breve e que pouco mais possa acrescentar sobre este tema.
Tenho para mim que à lógica de ocupação de
tempos livres para pessoas autónomas, saudáveis, com capacidade
de decisão, eu proponha como alternativa o gozo do lazer, sem a
dependência das maiores ou menores organizações com
seu público-alvo, públicas ou privadas e sem a sujeição
à burocratização do tempo, sem a massificação
das actividades e sua regulamentação impessoalizada. Proponho
pois a decisão pessoal e arbitrária da pessoa com autonomia
de movimentos e de espírito gerir o tempo de sobra que lhe é
permitido usufruindo segundo os interesses, as expectativas, as companhias
de que se quer fazer acompanhar passeando, lendo, dormitando, assistindo
a espectáculos, fazendo montanhismo, jogando conforme a oportunidade
do momento e a sua disponibilidade.
Sei, conheço um conjunto de práticas
de pedagogia cultural e artística que toma como objecto de estudo
e de trabalho o cidadão nas suas horas de tempos livres. Podem
e são concerteza muitas vezes actividades meritórias, desejadas
e consequentes. No entanto, tenho para mim que o melhor destas actividades
é o de ofertarem, disponibilizarem um conjunto de actividades de
que os cidadãos possam usufruir se a tal o desejo os conduzir,
se para tal estiverem dispostos, mas rejeito a ideia de standardização
dos tempos livres e da sua necessidade imperiosa.
(1) Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno um Viajante, trad. de José
Colaço Barreiros, Colecção Mil Folhas, Lx. 2002
20-06-2003

|